guia do novo coronavirus
Imprimir PDF Republish

Vivian Pizzinga

Uma ciência do atraso

laura teixeiraSe era para ser chato, então eu seria mesmo. Resolvi contar, registrar, tirar média, moda e mediana, tudo que fosse possível. Só quantificando pode-se convencer o adversário. Então, a partir de agora, eu ia contar. Contabilizar. E, se preciso fosse, sistematizar. Aquela mania de carioca de nunca chegar na hora marcada, eu ia provar, por a + b, e talvez adicionando c, d, e, que não só não fazia sentido como trazia perdas irreparáveis à espécie humana. Bem, esse havia sido meu intuito inicial.

Sexta-feira: a Cássia marcou comigo às 19h30 no Amarelinho da Cinelândia e chegou às 19h56. Anotei, discretamente, enquanto ela ia ao toalete, os 26 minutos de atraso. No sábado seguinte, marquei a praia com o Augusto, que chegou quinze minutos depois do combinado. Tomei nota no meu caderninho, sem comentar nada. No mesmo dia, à noite, o pessoal do clube marcou o clássico cineminha. O primeiro a chegar, depois de mim, apareceu no cinema dezenove minutos depois da hora estipulada. Os outros demoraram ainda mais e tudo foi devidamente registrado, com discrição. No dia seguinte, passaria para o Excel a tabela da primeira semana já contabilizando o tempo de atraso de todas aquelas pessoas e o que aquilo significaria em se tratando de perdas. Aquela mania de atraso me irritava profundamente, uma vez que sempre fui pontual. Meus atrasos eram de, no máximo, cinco minutos, quando não chegava antes. No entanto, a massa humana com a qual eu convivia achava cafona ser pontual. Tudo bem, mas quantas coisas eu deixava de fazer em todo aquele tempo em que esperava alguém? Era exatamente isso o que eu ia passar a observar, e as conexões entre o tempo jogado no lixo e as atividades não executadas seriam examinadas com rigor, na esperança de que um estudo sério motivasse alguma mudança de hábito, ao menos entre meus conhecidos.

Mantive minha ciência do tempo de atraso e no domingo havia um almoço com os amigos de infância. A turma só chegou meia hora depois do marcado. Ao menos aquela ideia de anotar e contabilizar o tempo de atraso e a tradução daquilo em perdas ensejavam em mim algum prazer ao constatar aquelas sucessivas demoras. Se antes eu ficava irritadíssimo e mal-humorado, agora que iniciara aquele esporte tão íntimo e solitário, estava tendo algum gozo em somar e multiplicar minutos vazios. No primeiro fim de semana, minha tabelinha particular já demonstrava um total de mais de uma hora de atrasos alheios. Ora, o que é possível empreender nesse tempo? A leitura de boa parte de um bom romance, uma caminhada no aterro do Flamengo, um telefonema sempre adiado para minha tia? Pois esse foi o tempo que fiquei de bobeira aguardando todos eles, sem, no entanto, fazer nada.

Continuei minha prática durante todo aquele mês de maio. Atrasos de clientes no trabalho, de familiares, dos amigos, tudo era anotado minuciosamente no meu caderno e depois repassado para o Excel, onde o total me trazia números brilhantes e redondos. Passei a cronometrar também o tempo que eu levava para fazer certas tarefas básicas da vivência e da sobrevivência, elaborando um verdadeiro catálogo de equivalências: uma espera de quinze minutos, por exemplo, significaria uma sesta após o almoço, que, se eu pudesse aproveitar, me tornaria mais produtivo à tarde sem tomar tantos cafés. Assim, no mês de maio, com seus 31 dias, somei um total de 6 horas e 48 minutos de atrasos. Quase um turno de trabalho! Quanto um pipoqueiro ganha vendendo pipoca na frente do Cine Joia durante esse tempo? Qual é o lucro desse cara? Minha analista, que me cobra benevolentes oitenta reais por sessão, atenderia seis clientes e faria bons quatrocentos reais nesse intervalo de tempo. Quantos deles elaborariam o Édipo nessas sessões?

Não obstante o desperdício de horas, a verdade é que gostei tanto do esporte, que resolvi fazer as anotações em junho, julho e agosto e totalizei, nesses três meses, pouco mais de trinta horas de atrasos. Fui aprimorando minhas percepções e conexões teóricas, e resolvi continuar as observações nos meses seguintes, uma vez que poderia haver um diferencial relacionado às estações do ano. Será que as pessoas atrasavam mais na primavera e no verão do que no outono e inverno, ou seria o contrário? Ou será que não havia diferença significativa? Se houvesse, qual razão estaria na origem do fenômeno? Que outras variáveis intervenientes eu poderia encontrar? Mulheres atrasavam mais, ou seriam os homens (e que mito poderia estar rondando as maneiras feminina e masculina de lidar com os instantes)? Havia mais atrasos pela manhã, à tarde ou à noite? Para programas intelectuais ou farras monumentais? Anos eleitorais seriam mais propícios a atrasos? E por quê? Cada vez mais eu anotava detalhes que poderiam guardar alguma relação com o atraso e perguntava, insistentemente, aos meus pares, o que teriam feito antes de sair, que tipo de pensamento haviam tido ao acordar naquele dia, entre outras perguntas aparentemente estapafúrdias para eles. A verdade é que passei aquele ano anotando e observando relações temporais, tornando-me um verdadeiro obcecado pelo atraso e seus nexos causais.

Agora eu já não suportava mais se alguém chegava na hora, se chegava antes ou se seu atraso era irrelevante, tanto quanto os meus. A pontualidade impediria digressões intelectuais sobre os hábitos humanos e suas circunstâncias. O que seria, originalmente, uma grande teoria do atraso me levava a descrições sobre variados tipos humanos e seus perfis psicológicos, a estrutura do psiquismo e sua tradução em tarefas simples da vida diária. Eu só pensava nisso e, de algum modo, fui percebendo que o tempo que eu destinava a fazer tabelas, somando e subtraindo parcelas temporais, era talvez o dobro daquele que eu gastava esperando fulano ou beltrano para o cinema ou o almoço. Passei a me atrasar para meus compromissos enquanto anotava fórmulas e incógnitas, e já não queria mais convencer o adversário de que o atraso era prejudicial. O que eu queria era, nada mais, nada menos, continuar esperando.

Vivian Pizzinga é psicóloga com mestrado em saúde coletiva pelo IMS/Uerj. Escreve para o blog Caneta, lente, pincel e teve textos publicados nos volumes 1 e 2 do Clube da Leitura, no jornal Plástico Bolha, na revista Café Espacial, entre outros.

Republish