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Opinião

Uma velha questão sempre atual

Para melhor compreender a importância do conhecimento científico basta admití-lo como a mais admirável e efetiva forma de poder. Já é assim agora e no futuro, pode-se afirmar, será ainda mais candente e dominadora essa forma de poder.

Por isso, será sempre importante perguntar como obter ou acelerar a obtenção do conhecimento científico, e no mundo onde a velocidade parece ser um “valor”, há, entre outros, dois exemplos históricos para obtenção do conhecimento científico: o indiano e o japonês.

Na metade dos anos cinqüenta, o primeiro-ministro Nehru pôs em marcha a política de buscar conhecimento nas grandes universidades do primeiro mundo. Essa epopéia em busca do conhecimento, patrocinada por uma nação pobre com grandes sacrifícios, foi uma das mais significativas experiências de política científica da segunda metade deste século. Protegidos pelo manto da história, podemos hoje especular sobre os frutos dessa aventura nacional, sobretudo no que ela tem a dizer para um país como o nosso, cujas peculiaridades não chegam a ofuscar certas semelhanças estruturais.

Os japoneses, antes mesmo que os indianos, também fizeram isso (por certo em condições diversas) com melhor proveito. Os cientistas japoneses, ao que parece, voltaram ao lar nativo em maior proporção que os indianos. Estes últimos, presumo que talento também tinham, e muito * se fôra o Prêmio Nobel um indicador confiável.

Muitos dos melhores talentos da Índia tiveram abertas, para si, no primeiro mundo, várias trilhas que quiseram percorrer. Delas não abdicaram, porque esperavam (e até conseguiram) por elas chegar a uma espécie de nirvana do conhecimento universal. E claro, dentro dos paradigmas dos países líderes.

Os japoneses, ao que parece, se prepararam para entrar e vencer um grande jogo. Organizaram-se para somar conhecimento, trabalho e capital. Foram pioneiros ao induzir a integração do processo decisório envolvendo bancos, indústrias e “trading companies” dentro de uma perspectiva “nacional oligopolística”sem precedentes. Os indianos, talvez, queriam a ciência para a redenção e não para a dominação.

E nós, no Brasil, e nós, em São Paulo, para que queremos o conhecimento científico? A sociedade paulista deixa quase 11% dos recursos públicos aos cuidados de uma comunidade que os gere com autonomia, e ela nos retribui com a perspectiva de que as nossas universidades são as melhores, e que a nossa fundação de amprao à pesquisa é modelo para as demais.

Esse sentimento de júbilo sempre será compensador, mas seguramente não é suficiente. A comunidade científica, ou melhor, o cientista de per se, numa sociedade democrática é devedor da sociedade. Esta, em última análise, proporcionou a ele a grande aventura do conhecimento. E novamente aqui ressurge a relação de conflito entre a autoridade e a liberdade. O cientista precisa da liberdade para levar o conhecimento a outros limites. Mas a autoridade pública, constituída no marco democrático, precisa zelar para que o conhecimento científico produza dividendos sociais.

A questão não é nova e provavelmente sempre será atual. Por isso é auspicioso que Notícias FAPESP seja um canal propício para irrigar uma fértil troca de idéias.

Antonio Angarita é secretário de Governo e Gestão Estratégica do Estado de São Paulo

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