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Combinadas com dados censitários, novas tecnologias modificam o alcance de estudos demográficos

Para os estudos demográficos, o uso de imagens de satélite amplia o alcance de análises sobre transformações em pequenos trechos do território

Inpe

Aliado a dados do Censo, o desenvolvimento de tecnologias para captação e leitura de imagens de satélite e rastreamento da mobilidade permite uma melhor compreensão dos padrões de organização das cidades brasileiras. No campo dos estudos demográficos, as tecnologias  oferecem novas possibilidades para analisar dinâmicas e mudanças ocorridas em pequenas partes do território.

O engenheiro e cientista da computação Antonio Miguel Vieira Monteiro, do Laboratório de Investigação de Sistemas Socioambientais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Liss-Inpe), coordena um grupo de pesquisa que desde 1998 tem investigado técnicas e metodologias para o desenvolvimento de estudos populacionais a partir de dados derivados de satélites. “Trabalhamos com imagens que revelam indicadores de atividade humana em diferentes partes do território e desenvolvemos metodologias que permitem extrair e interpretar informações demográficas a partir delas”, explica.

As tecnologias adotadas trazem novas possibilidades de olhar o território, propiciando, exemplifica Monteiro, a realização de estimativas populacionais em períodos intercensitários. “Por meio dos dados do Censo conseguimos associar essas imagens a características socioeconômicas das regiões analisadas. Portanto, sem o Censo, essa agenda de pesquisa fica prejudicada”, conta. Ele informa que o grupo de pesquisa também oferece formação a demógrafos, para que possam incorporar essas técnicas de observação da Terra em seu cotidiano de trabalho.

Outro avanço tecnológico abrange o uso de fontes heterogêneas de dados para investigar questões envolvendo mobilidade urbana. Projeto realizado em parceria com o Banco Mundial pela engenheira Mariana Giannotti, do Laboratório de Geoprocessamento da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole (CEM), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) financiados pela FAPESP, elaborou um diagnóstico da mobilidade de residentes de regiões de assentamentos precários da cidade de São Paulo, a partir de dados de múltiplos dias de telefonia celular, coletados em 2016. Durante o estudo, 100 voluntários tiveram aplicativos de georreferenciamento instalados em seus celulares, para acompanhar seus deslocamentos diários.

“Mapeamos a origem e o destino desses indivíduos e cruzamos com setores censitários para buscar informações de renda, visando identificar diferentes padrões de mobilidade na sociedade. As informações levantadas podem contribuir para um melhor planejamento do sistema de transporte”, conta Giannotti. “Vivemos um momento único de emergência de novas tecnologias, mas elas não substituem o levantamento censitário. Sem ele, limitamos a capacidade de análise de grandes volumes de dados”, avalia. Roberto Luiz do Carmo, do IFCH-Unicamp, aponta para a mesma direção. “Enfrentamos o desafio de trabalhar de forma mais estreita com o campo da informática, que historicamente nunca foi próximo dos cientistas sociais”, conclui.

Projeto
Centro de Estudos da Metrópole (CEM) (nº 13/07616-7); Modalidade Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid); Pesquisador responsável Eduardo Cesar Leão Marques; Investimento R$ 20.354.987,19.

Artigo científico
RODRIGUES, A. L. et al. Measuring mobility inequalities of favela residents based on mobile phone data. Habitat International. 110, 102346. 2021.

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