
Antonio Scarpinetti/SEC-UnicampSuzigan em registro de 2015, na UnicampAntonio Scarpinetti/SEC-Unicamp
Um ponto de fuga no horizonte acadêmico. Assim a comunidade científica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) reverenciou o economista Wilson Suzigan na cerimônia em que concedeu a ele o título de professor emérito, em setembro de 2024. Morto no último dia 10 de abril, aos 84 anos, em decorrência de complicações associadas a uma doença autoimune, Suzigan era saudado não apenas pela solidez teórica de suas contribuições para o pensamento econômico brasileiro, mas também pela natureza disseminadora de sua atuação como formador de pesquisadores.
“No papel de orientador, ele era a expressão mais bonita do encontro entre rigor acadêmico e generosidade intelectual”, diz a economista Suzana Paiva, da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Araraquara. Ela foi orientada por Suzigan na pesquisa de doutorado “Estratégias de política industrial e desenvolvimento econômico: Ideias e ideais de Fernando Fajnzylber para a América Latina”, defendida em 2006, na Unicamp, com apoio da FAPESP. “Lembro, em especial, de nossas primeiras reuniões, de como cheguei sem clareza da contribuição que daria. Foi Suzigan quem me deu de presente o tema da minha tese de doutorado. A seu lado, aprendi não apenas a fazer boa pesquisa, mas a pensar com responsabilidade e sensibilidade.”
Nascido em Americana (SP), Suzigan se graduou em ciências econômicas pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), em 1961. Dez anos mais tarde, ingressou no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), órgão do governo federal, o que não o impediu de ser docente na Fundação Getulio Vargas (FGV), no Rio de Janeiro, e na PUC-Rio. Sua trajetória na Unicamp se iniciou em 1985, primeiro no Instituto de Economia (IE), no qual se aposentaria em 1999, e depois no Instituto de Geociências (IG), onde atuou como professor colaborador no Departamento de Política Científica e Tecnológica. O pesquisador trabalhou, ainda, como um dos coordenadores executivos da publicação Indicadores de ciência, tecnologia e inovação em São Paulo (2010), editada pela FAPESP, ao lado de João Furtado e Renato de Castro Garcia.
A amplitude da contribuição acadêmica de Suzigan pode ser aferida por suas orientações: foram 27 teses de doutorado, 18 dissertações de mestrado e 42 projetos de iniciação científica. A Plataforma Acácia, que traça a genealogia no ecossistema da produção científica nacional, aponta 2.455 “descendentes” do economista desde sua primeira orientação, em 1983, relacionando seus orientandos e os orientandos de seus orientandos por múltiplas áreas e gerações.
“Quando fiz o doutorado em economia da indústria e da tecnologia, na UFRJ [Universidade Federal do Rio de Janeiro], em 1998, tive o privilégio de ter Suzigan na banca”, lembra Eduardo Albuquerque, da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (Face-UFMG). “Suas análises identificavam problemas com a classe rara de quem sabia fazer uma crítica, a mais ampla possível, como se fosse um elogio.”
Suzigan foi aluno da primeira turma de mestrado em economia no país, na Escola de Pós-graduação em Economia da FGV-RJ. Na época, escreveu a dissertação “O processo de substituição de importações no Brasil”, defendida em 1968. Ele se tornaria uma referência pelo rigor metodológico com a tese de doutorado “Investment in the manufacturing industry in Brazil, 1869-1939”, que defendeu em 1984 na Universidade de Londres, no Reino Unido.
Publicado em livro como Indústria brasileira – Origem e desenvolvimento (Brasiliense/Hucitec, 1986), o estudo apurava o engenho aplicado em uma obra anterior, Política de governo e crescimento da economia brasileira, 1889-1945 (Ipea/Inpes, 1973), que fez em parceria com o economista Annibal Villela (1926-2000). Suzigan foi um pioneiro no uso de forma sistemática de dados quantitativos nas pesquisas acadêmicas no campo da história econômica, até então usados de forma apenas ilustrativa na área.
“Para buscar entender a industrialização brasileira, ele foi nos registros da Secretaria de Comércio Exterior da Inglaterra e catalogou ‘na unha’ todos os registros de exportação de máquinas para o Brasil”, relata o economista Renato Garcia, sucessor de Suzigan na cadeira de Política Industrial e Desenvolvimento na pós-graduação do IE-Unicamp. “A partir desse estudo empírico, considerado à época uma das mais importantes pesquisas de base de dados de investimentos no Brasil, mudou-se a interpretação sobre a industrialização brasileira. Por isso, a obra é até hoje leitura obrigatória em qualquer boa escola de economia no Brasil.”
“Suzigan foi um gigante”, comenta o historiador André Villela, da Escola Brasileira de Economia e Finanças da FGV-RJ, ao lembrar outra de suas obras clássicas, História monetária do Brasil (Editora UnB, 1976), assinada com o economista cubano Carlos Manuel Peláez. “Na área em que atuo, qualquer pesquisador teria enorme orgulho de ter escrito um desses três livros [Indústria brasileira…, Política de governo… e História monetária…]”, diz o pesquisador. “Ele escreveu, sozinho ou em coautoria, os três. E sem jamais deixar-se tomar pelo embevecimento.”
Ao longo da trajetória de pesquisador, Suzigan publicou 69 artigos em revistas brasileiras e internacionais e 38 capítulos em coletâneas, além de ter organizado 17 livros. “O enfoque de suas pesquisas esteve voltado especialmente à organização industrial, interação universidade-empresas, sistemas produtivos locais e pequenas e médias empresas”, enumera o economista Maurício Chalfin Coutinho, do IE-Unicamp.
Para Paiva, da Unesp, o economista foi um dos autores que mais contribuiu para qualificar o debate sobre política industrial no Brasil. “Ele defendia que políticas industriais eficazes exigem coordenação entre Estado e setor privado, continuidade institucional e foco na construção de capacidades produtivas e tecnológicas”, afirma. “Essa visão dialoga diretamente com as discussões atuais sobre neoindustrialização, inovação e reconfiguração das cadeias globais de valor.”
Nos últimos anos, Suzigan se afastou das atividades de pesquisa e docência, mas seguia ativo como editor-chefe da Revista Brasileira de Inovação (RBI), criada em 2002 pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao governo federal. Ele ajudou também a implantar as revistas História Econômica & História de Empresas, em 1998, publicada pela Associação Brasileira de Pesquisadores em História Econômica (ABPHE), e, no ano seguinte, Economia, da Associação Nacional dos Centros de Pós-graduação em Economia (Anpec). “Suzigan foi decisivo na criação da própria ABPHE, em 1993, instituição que viria a presidir entre 2001 e 2003”, diz Villela.
Editor adjunto da RBI desde 2014, Garcia guarda as anotações de uma das últimas reuniões de trabalho com Suzigan, em outubro passado. “Como ele já não ia mais à Unicamp, fui à casa dele porque tínhamos coisas a resolver”, lembra. “Tomamos café, batemos papo, demos risada. Suzigan fazia o trabalho normal de editor, como entrar em contato com os autores e pareceristas, além de ler os artigos. Desse ponto de vista, ele se manteve ativo até o fim.”
Suzigan é lembrado também pelo bom humor. Albuquerque, da UFMG, recorda-se do folclore em torno da assiduidade do pesquisador no Seminário de Diamantina (MG), promovido desde 1982 pelo Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional (Cedeplar), da UFMG. “Na dúvida se ia ser convidado para as mesas especiais de Diamantina, Wilson submetia um artigo para garantir o convite, como lembrou um colega do grupo de professores do Cedeplar”, comenta Albuquerque. Ele coorganizou com Suzigan a parte brasileira do livro Developing National Systems of Innovation: University–Industry Interactions in the Global South, publicado em 2015 pela Editora Edward Elgar, do Reino Unido.
Em sua 21ª edição, programada para a semana de 17 a 22 de agosto, o Seminário de Diamantina vai homenagear Suzigan com uma sessão especial no evento. Viúvo de Vera Suzigan desde 2022, o economista deixa dois filhos e quatro netos.
A reportagem acima foi publicada com o título “Ponto de fuga” na edição impressa nº 363, de maio de 2026.
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