Imprimir PDF

Comportamento Animal

Transformações milenares na cultura primata

Macho adulto quebra castanha-de-caju, observado por um jovem e uma fêmea

Tiago Falótico / EACH-USP

Há 3 mil anos, macacos-prego (Sapajus libidinosus) do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, já quebravam e esmagavam frutos e sementes usando pedras. A atividade ficou registrada nas pedras usadas, cheias de marcas de impacto e encontradas em escavações conduzidas por uma equipe de arqueólogos britânicos e etólogos brasileiros (Nature Ecology and Evolution, 26 de junho). “As pedras são iguais às que eles usam hoje”, conta o biólogo Tiago Falótico, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), que coordenou as escavações mais recentes. Além de terem recuado em mais de 2 mil anos o histórico conhecido para o uso de ferramentas entre esses macacos, os pesquisadores comemoram o primeiro registro de mudança cultural. O material depositado entre 3 mil e 2,4 mil anos atrás revela o uso extenso de pedras pequenas. “Hoje eles usam pedras semelhantes para quebrar sementes e frutos como os da maniçoba [Manihot pseudoglaziovii], uma planta da família da mandioca”, diz. Na fase seguinte, entre 640 e 565 anos atrás, os macacos ainda usavam pedras pequenas, mas já existiam mais bigornas – superfícies planas onde apoiam o alimento no momento da quebra. Mais recentemente, eles parecem ter começado a usar pedras maiores, que permitem quebrar castanhas bem duras, e disseminaram o uso de bigornas. Os únicos outros primatas não humanos com atividades gravadas em registros arqueológicos são chimpanzés da Costa do Marfim, na África. Lá, as escavações vão até 4.200 anos atrás, mas não identificam mudanças culturais ao longo do tempo.

Tiago Falótico / EACH-USP Pedras usadas por macacos-pregoTiago Falótico / EACH-USP

O site da revista Pesquisa FAPESP traz uma versão ampliada desta reportagem.

Republicar