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Epidemiologia

Desdobramentos da febre zika

Estudo indica mecanismo biológico que pode tornar o organismo desnutrido vulnerável à microcefalia causada pelo vírus

NiaidVírus zika da cepa Fortaleza, isolado de paciente com microcefaliaNiaid

Durante a explosão de casos de microcefalia como consequência de infecção pelo vírus zika, entre 2015 e 2016, ficou evidente que as regiões com o maior número de notificações — um total de 18.282 casos — eram também aquelas com as condições de vida mais precárias. Depois do esforço prioritário para demonstrar a relação entre a síndrome e o vírus, os pesquisadores se debruçaram sobre os possíveis mecanismos que, em resposta a fatores ambientais, diminuíam a resistência à infecção viral. Um desses estudos, publicado nesta sexta-feira, dia 10 de janeiro, na revista Science Advances, indica, pela primeira vez, como o baixo consumo de proteínas pode ter estimulado a ocorrência da doença, com base em experimentos em camundongos.

“O efeito da dieta hipoproteica foi brutal, eliminando, em pouco tempo, a resistência dos animais ao vírus e sua capacidade de barrar a transmissão para a prole”, conta a neurocientista Patrícia Garcez, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenadora do trabalho, uma parceria entre Brasil, Argentina, Estados Unidos e Reino Unido. No experimento, fêmeas grávidas de camundongos com sistema imunológico saudável foram infectadas com o vírus e divididas em dois grupos: o controle recebeu uma dose adequada de proteínas na ração (estabelecido em 20% da dieta) e o segundo recebeu uma dieta com 6% de proteínas — uma restrição bastante aguda.

No segundo grupo, foi detectada grande quantidade de vírus zika no baço, órgão que filtra o sangue e retém parte dos microrganismos. Todos os fetos foram infectados e tiveram o desenvolvimento do encéfalo comprometido. “A placenta apresentou regiões necrosadas e lesões vasculares que misturavam o sangue da fêmea e do feto, similares a lesões já observadas em humanos”, diz Patrícia. Já no grupo controle, o vírus foi eliminado em apenas três dias após a infecção. A placenta não sofreu lesões, podendo assim cumprir sua função de barrar a transmissão do vírus aos fetos.

A lesão também deixou as portas abertas para que o zika trilhasse os vasos sanguíneos até chegar ao encéfalo do feto. Lá, os pesquisadores observaram que o vírus é capaz de interromper o ciclo de divisão das células neuroprogenitoras, um tipo de célula-tronco que dá origem aos neurônios, reduzindo seu número pela metade. Enquanto isso outros genes, que estimulam a morte celular ou interrompem a divisão celular, foram ativados. “Para piorar o quadro, a infecção viral fazia com que as fêmeas prenhes perdessem peso — um efeito já conhecido das infecções, que diminuem a absorção de nutrientes”, diz a antropóloga Jimena Barbeito-Andrés, do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet) e primeira autora do artigo.

Como seria impossível demonstrar que o mesmo processo ocorre em seres humanos, os pesquisadores buscaram evidências indiretas dessa relação. Uma análise de dados do Ministério da Saúde revelou que havia uma relação significativa entre casos de microcefalia registrados entre 2015 e 2018 e as regiões geográficas com desnutrição, identificadas a partir de dados de internação hospitalar. O grupo entrevistou ainda 83 mulheres afetadas no Ceará e avaliou que 37% delas consumiram menos proteínas do que se considera adequado durante a gravidez, 61 gramas por dia.

Os prováveis efeitos da subnutrição proteica ajudam a explicar por que, dentro da população total afetada pelo vírus, a fração de bebês que desenvolveu a microcefalia divergiu drasticamente em diferentes regiões e cidades. Também explicam, em parte, a assimetria geográfica da incidência de casos no Brasil, já que 75% deles ocorreram no Nordeste. Agora, um possível desdobramento da pesquisa seria entender melhor o mecanismo biológico que torna o camundongo mais sensível à infecção. “Uma hipótese é que a falta de proteína compromete a maturação dos linfócitos, um tipo de glóbulo branco fundamental na defesa contra microrganismos – fenômeno já observado em outros modelos infectados com vírus ou bactérias”, diz Patrícia.

Os resultados não são exatamente surpreendentes: a ampla maioria dos casos de microcefalia aconteceu em regiões com baixa qualidade de vida e já se sabia que a deficiência de proteínas diminui a resistência imunológica a infecções. No entanto, as pesquisas com abordagem multifatorial podem juntar os pontos das correlações entre ambiente e saúde, desenhando os efeitos perniciosos das condições inadequadas de vida para as populações vulneráveis.

Artigo científico
BARBEITO-ANDRÉS, J. et al. Congenital Zika syndrome is associated with maternal protein malnutrition. Science Advances. 10 jan 2020.

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