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obituário

Historiador associou colonização e tráfico de escravizados ao capitalismo

Autor de obra clássica, Fernando Novais analisou o papel de Portugal e do Brasil nesse contexto

Léo Ramos Chaves / Revista Pesquisa FAPESP

“Sou um historiador marxista, não um marxista historiador.” “Não é a escravidão que justifica o tráfico, é o tráfico que justifica a escravidão.” “O cientista social reconstitui para explicar, enquanto o historiador explica para reconstituir os acontecimentos passados.” As máximas que o historiador Fernando Antonio Novais proferia em aulas, palestras e entrevistas denotam a preocupação com a didática e revelam temas fundamentais de seu trabalho acadêmico ao longo de quase sete décadas. Autor do livro Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808), publicado em 1979 pela editora Hucitec e considerado um dos clássicos da historiografia brasileira, ele morreu no dia 30 de abril, aos 93 anos, em São Paulo.

“Com essa obra, Novais propôs uma nova forma de pensar a colonização e impactou o debate historiográfico, inclusive em âmbito internacional”, afirma o historiador Pedro Puntoni, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), referindo-se ao livro, reeditado em 2019 pela Editora 34, que o classifica como “incontornável”. A obra é resultado da tese de doutorado defendida por Novais na USP em 1973. Sua repercussão, porém, veio antes do lançamento do livro. Em 1974, o segundo capítulo da tese foi publicado em caderno do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) e, no ano seguinte, saiu também em Portugal.

“Quando eu estava na graduação, no início dos anos 1980, a tese de Novais era uma novidade e teve enorme impacto sobre nossa interpretação do período colonial”, lembra Junia Furtado, do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). “Ele formulou uma maneira de compreender o Brasil a partir do Brasil, articulando esse ponto de vista a processos mais amplos. Entre outras coisas, mostrou como a escravidão aqui exigiu a organização de um sistema produtivo muito distinto daquele observado na Europa durante a transição do mundo medieval para o capitalismo.”

Na tese, Novais foi orientado pelo historiador Eduardo d’Oliveira França (1917-2003), de quem se disse um eterno discípulo em entrevista a Pesquisa FAPESP, em 2022. Influenciado pela obra dos historiadores Caio Prado Jr. (1907-1990) e Fernand Braudel (1902-1985), o trabalho é considerado um dos principais frutos do chamado Seminário Marx, realizado entre 1958 e 1964, sob liderança do filósofo José Arthur Giannotti (1930-2021). Nesses encontros, um grupo de jovens pesquisadores lia O capital, de Karl Marx (1818-1883), sob uma perspectiva acadêmica, distinta da abordagem político-partidária que predominava à época.

“Giannotti chamou Fernando Henrique Cardoso, pelo lado da sociologia, e Novais, pelo viés da história. Eles formaram o ‘núcleo duro’ do seminário, ao qual depois se juntaram nomes como Octavio Ianni [1926-2004], Michel Löwy, Roberto Schwarz, Bento Prado Jr. [1937-2007], Ruy Fausto [1935-2020] e Paul Singer [1932-2018]”, conta a historiadora Lidiane Soares Rodrigues, coordenadora do Programa de Pós-graduação em Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal do ABC (UFABC), que estudou o Seminário Marx no doutorado defendido na FFLCH-USP, em 2012. “A tese de Novais, de que o tráfico de escravizados acelerou a acumulação primitiva de capital na Europa, não teria sido possível sem a leitura que ele e os colegas fizeram da obra de Marx.”

O pesquisador nasceu em Guararema, passou a infância em Colina e a adolescência em São José do Rio Preto, todas cidades do interior paulista. Mudou-se para a capital aos 15 anos e, em 1958, formou-se pela USP em história e geografia (à época, um curso conjunto). Pouco depois, em 1961, foi contratado como professor de história moderna e contemporânea pela mesma instituição, onde permaneceu até se aposentar, em 1986.

Naquele ano, passou a integrar o recém-criado Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (IE-Unicamp). “Ele foi fundamental para a construção do nosso programa de História Econômica”, afirma o economista Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, docente do IE-Unicamp e um dos fundadores da Faculdade de Campinas (Facamp) nos anos 1990, na qual Novais também lecionou a partir de 2003. “Devemos muito a ele a ampliação do debate para além dos modelos econômicos. Discutíamos bastante as limitações da chamada ciência econômica que, ao adotar uma perspectiva positivista, passou a privilegiar modelos e deixou em segundo plano os processos sociais.”

Na década de 1990, Novais dirigiu a coleção História da vida privada no Brasil (Companhia das Letras), composta por quatro volumes, todos vencedores do Prêmio Jabuti. Cada tomo foi coordenado por um historiador, respectivamente: Laura de Mello e Souza, Luiz Felipe de Alencastro, Nicolau Sevcenko (1952-2014) e Lilia Schwarcz. Crítico da fragmentação associada à Nova História (corrente surgida na França nos anos 1980, que ampliou o escopo da disciplina em contraposição ao estruturalismo e ao marxismo), Novais dizia que, com a quebra dos paradigmas, os historiadores haviam “mudado de assunto” e passado a se dedicar aos “amores, humores e odores” do cotidiano. Ainda assim, procurou conciliar na coleção os princípios que até então haviam orientado sua obra.

“No capítulo ‘Condições de privacidade na colônia’, que abre o primeiro volume, Novais dialoga e, em certa medida, revê a interpretação de Gilberto Freyre [1900-1987], ao mostrar que o fenômeno da miscigenação não se reduz às relações interculturais, mas assumiu também dimensões políticas e socioeconômicas na colonização. Foi, ao mesmo tempo, um canal de aproximação e uma forma de dominação, um espaço de acomodação e um território de enrijecimento do sistema escravista.  A mestiçagem articulou relações de dependência e hierarquia social baseadas na discriminação de cor, religião e estatuto”, analisa a historiadora Iris Kantor, da FFLCH-USP, que foi orientada por Novais no mestrado (1996) e no doutorado (2002) na mesma instituição. “Ele foi intérprete dos intérpretes do Brasil, e um leitor voraz da literatura sociológica, antropológica e política.”

Segundo a pesquisadora, Novais defendia que o senhoriato colonial havia feito a independência contra o colonizador, mas não em favor do colonizado. Daí, para ele, o caráter fugidio da identidade brasileira. Essa interpretação aparece também na leitura que o historiador fazia de Macunaíma: o protagonista do livro escrito por Mário de Andrade (1893-1945) seria um herói “sem caráter” justamente por ser incaracterizável, e não por um atributo moral.

O último capítulo do quarto volume da coleção é assinado por Novais em parceria com o economista João Manuel Cardoso de Mello, professor aposentado da Unicamp e também fundador da Facamp. No texto “Capitalismo tardio e sociabilidade moderna”, a dupla discorre sobre as mudanças de consumo no país a partir da década de 1950. “Ele não gostava muito dessa temática contemporânea. Costumava dizer que o mundo havia perdido a graça no século XVIII”, diverte-se Mello.

Perfeccionista e avesso à edição de seus textos, o pesquisador publicou pouco ao longo da carreira. Em 2005, por iniciativa de ex-alunos, saiu a coletânea Aproximações, estudos de história e historiografia, reunindo artigos escritos em diferentes momentos de sua trajetória. A obra foi relançada pela Editora 34 em 2022 e, segundo Kantor, um segundo volume está a caminho. Novais organizou também, ao lado do historiador Rogério Forastieri da Silva, Nova história em perspectiva, antologia em dois volumes publicada pela Cosac Naify, em 2011 e 2013.

Novais é lembrado pelo antidogmatismo, pela aversão a polêmicas e pela desenvoltura em sala de aula, espaço do qual nunca se afastou. A convite de Puntoni, ministrava todos os anos a aula de encerramento do curso de Brasil colonial na USP. Também lecionou na Universidade do Texas (EUA), na Universidade de Paris (França), na Universidade de Louvain (Bélgica), na Universidade de Coimbra e na Universidade de Lisboa, ambas em Portugal. Em 2006, recebeu o título de professor emérito da FFLCH-USP.

Intelectualmente ativo até os últimos dias, o historiador não resistiu a complicações de um infarto sofrido em fevereiro. Deixa dois filhos, o economista Luis Fernando e a editora Ana Lúcia, além de quatro netos e três bisnetos.

A reportagem acima foi publicada com o título “A engrenagem atlântica” na edição impressa nº 364 de junho de 2026.

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