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Boas práticas

Limites para a reciclagem de textos

Alexandre Affonso

Um grupo de pesquisadores de seis universidades dos Estados Unidos está analisando até que ponto um autor pode reutilizar trechos de sua produção acadêmica prévia em novos trabalhos sem ser acusado de plágio. Não se espera, contudo, que o esforço colaborativo produzirá um conjunto de padrões a serem seguidos por todo mundo. Uma das primeiras constatações da iniciativa, batizada de Projeto de Pesquisa sobre Reciclagem de Textos e financiada pela agência National Science Foundation, é que a percepção sobre o que é aceitável varia entre as disciplinas. “Essa prática é mais comum do que geralmente se admite, em especial nas ciências médicas e naturais, em que algumas vezes é até tacitamente esperada”, explicou Cary Moskovitz, professor do programa de escrita científica da Universidade Duke e coordenador do projeto, em um texto em seu perfil no site da universidade.

Em um estudo publicado pelo grupo na revista Learned Publishing, foram entrevistados 21 editores de revistas científicas de diversas disciplinas e apenas três deles foram categóricos em não tolerar nenhum tipo de reaproveitamento de texto em artigos. Os outros 18 informaram que, a depender do contexto e da quantidade de trechos reutilizados, não se incomodam com a prática – desses, cinco disseram que algum tipo de reciclagem chega a ser inevitável.

Mas há consenso de que apresentar conteúdo reciclado como novidade constitui má conduta. Se os trechos autorreferentes estiverem nas seções de um artigo em que se espera originalidade, como discussão, interpretação de dados e conclusões, o risco de isso ser considerado impróprio é grande. O que já não acontece quando um autor toma emprestado pedaços de trabalhos anteriores para explicar metodologias ou para descrever conjuntos de dados, que servem como pano de fundo para os achados.

Mesmo em casos considerados justificáveis, 15 dos editores entrevistados exigem que os trechos sejam reescritos de forma a não ficar idênticos, a fim de evitar acusações de má conduta e prevenir processos por violação de direitos autorais movidos pelas revistas que publicaram os trabalhos anteriores.

Na avaliação de Moskovitz, reescrever um trecho para dizer exatamente a mesma coisa não é uma estratégia razoável. Em um webinar sobre autoplágio de que participou em junho, ele afirmou que esse tipo de edição, além de desperdiçar tempo, dificulta a tarefa de compreender o quanto a linha de pesquisa de um autor realmente evoluiu ao longo do tempo e o que mudou de um artigo para o seguinte. Segundo ele, em vez de dizer a estudantes e pesquisadores para não reciclar textos porque há algo de não confiável e enganoso na prática, seria mais adequado fazê-los refletir sobre o quanto isso resulta em prejuízo para a integridade científica em cada situação específica.

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