Outubro sempre traz a trepidação da mais alta láurea do mundo científico, concedida em grande parte pela Real Academia de Ciências da Suécia – exceção para o prêmio de Fisiologia ou Medicina e o da Paz, respectivamente a cargo dos comitês do Nobel do Instituto Karolinska, também na Suécia, e Norueguês, nomeado pelo Parlamento do país. A premiação de cada categoria tem o valor de 11 milhões de coroas suecas (aproximadamente R$ 6,23 milhões) e inclui uma medalha a ser entregue na cerimônia prevista para 10 de dezembro. A data homenageia o aniversário da morte do químico sueco Alfred Nobel (1833-1896), que fez fortuna com a invenção da dinamite e, em testamento, deixou parte do dinheiro para premiar pessoas que deram contribuições importantes para a humanidade.
Os temas contemplados foram variados, e todos de importância fundamental nas respectivas áreas da ciência. O mecanismo celular que evita que doenças autoimunes graves sejam mais comuns pode contribuir para o desenvolvimento de fármacos e reduzir a rejeição a órgãos transplantados. As propriedades físicas da escala atômica e subatômica estão na base da busca por construir computadores quânticos. A construção de cristais usando íons de metal e moléculas orgânicas surgiu da curiosidade e da busca pela beleza, mas já deu origem a aplicações importantes para a absorção de gases e fluidos. A centralidade da inovação tecnológica para a economia sustentada também teve lugar no pódio. Um escritor húngaro e uma política venezuelana completam o quadro de medalhas.
Como é frequente acontecer, foi uma seleção essencialmente masculina. Entre os 14 laureados há duas mulheres – apenas uma em categoria acadêmica.

University of Osaka Immunology Frontier Research Center | Institute for Systems Biology (ISB) | Fred Ramsdell/ Wikimedia Commons Shimon Sakaguchi, Mary Brunkow e Frederick Ramsdell identificaram vigilantes do sistema imuneUniversity of Osaka Immunology Frontier Research Center | Institute for Systems Biology (ISB) | Fred Ramsdell/ Wikimedia Commons
Fisiologia ou Medicina
Entre 1995 e 2003, três imunologistas identificaram e detalharam como funciona um mecanismo de freio do sistema imune: Shimon Sakaguchi, de 74 anos, atualmente professor na Universidade de Osaka, no Japão; Mary Brunkow, de 63 anos, gerente de programas do Instituto de Biologia de Sistemas (ISB), em Seattle, Estados Unidos; e Frederick Ramsdell, de 64 anos, da companhia de biotecnologia Sonoma Biotherapeutics, em São Francisco, também nos Estados Unidos. “As descobertas desses pesquisadores foram decisivas para a nossa compreensão de como o sistema imunológico funciona e por que nem todos desenvolvem doenças autoimunes graves”, afirmou Olle Kämpe, presidente do comitê Nobel no anúncio da premiação.
Como parte do sistema de defesa humano, os linfócitos T atacam invasores, mas podem também voltar-se contra o próprio organismo. Essas células com funcionamento inadequado são identificadas e eliminadas no timo, mas algumas às vezes escapam. Dessas falhas surgem doenças como o diabetes tipo 1, a esclerose múltipla ou o lúpus eritematoso sistêmico.
“Alguns pesquisadores achavam que poderia existir um segundo mecanismo de controle”, conta o imunologista Jorge Kalil Filho, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP). Essa ideia ganhou nome quando o japonês Sakaguchi descreveu um novo tipo de célula – o linfócito T regulador, ou T reg –, que funcionaria como o vigilante dos vigilantes.
Enquanto isso, os norte-americanos Brunkow e Ramsdell buscavam identificar uma alteração genética responsável por tornar uma variedade de camundongo, conhecido como escamoso (scurfy mouse), propensa a ter várias doenças autoimunes. Trabalhando na empresa Celltech Chiroscience, no estado de Washington, eles encontraram uma alteração em um gene novo, que chamaram de Foxp3.
Em 2001, Brunkow, Ramsdell e colaboradores descreveram alterações no gene Foxp3 responsáveis tanto pela poliendocrinopatia e enteropatia ligada ao cromossomo X (Ipex), uma doença autoimune, quanto pelas doenças do camundongo escamoso. Quem encontrou a conexão entre o gene Foxp3 e a atuação dos linfócitos T reguladores, dois anos mais tarde, foi o grupo de Sagakuchi. Entender como essas células reguladoras funcionam pode levar a tratamentos para doenças autoimunes, reduzir o risco de rejeição a órgãos transplantados e aprimorar o combate a alguns cânceres.

Brandon Sánchez Mejia / Uc Berkeley | Harold Shapiro / Yale University | Jeff Liang / UCSBJohn Clarke, Michel Devoret e John Martinis: tunelamento quânticoBrandon Sánchez Mejia / Uc Berkeley | Harold Shapiro / Yale University | Jeff Liang / UCSB
Física
No ano do centenário da formulação das bases da mecânica quântica, que estuda o comportamento da matéria e da energia na escala atômica e subatômica, o Nobel premiou os trabalhos de três pesquisadores que, 40 anos atrás, expandiram os domínios desse ramo da física: o britânico John Clarke, da Universidade da Califórnia em Berkeley, de 83 anos, o francês Michel Devoret, da Universidade de Califórnia em Santa Bárbara e da Universidade Yale, de 72 anos, e o norte-americano John Martinis, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, de 67 anos.
Trabalhando juntos em Berkeley, os três fizeram experimentos em 1984 e em 1985 nos quais mostraram que estranhas propriedades quânticas, que pareciam ser restritas ao mundo dos átomos e das partículas subatômicas, também podiam ser criadas e medidas em sistemas macroscópicos, muito maiores. Eles foram os primeiros a medir o tunelamento quântico em um circuito eletrônico supercondutor, no qual a corrente elétrica flui sem encontrar nenhuma resistência, ou seja, sem perda de energia, quando o sistema é resfriado a temperaturas próximas do zero absoluto. O tunelamento está por trás do decaimento radioativo de átomos e pode estar associado à superposição de estados quânticos (quando uma partícula pode se encontrar em dois estados simultaneamente). A descoberta do fenômeno em sistemas macroscópicos abriu caminho para pesquisas que tentam desenvolver computadores quânticos a partir da manipulação do funcionamento de bits quânticos (qubits) criados e mantidos em circuitos supercondutores.
O circuito supercondutor montado pelos ganhadores do Nobel foi a materialização de uma proposta teórica de um artigo publicado em 1981 no periódico Physical Review Letters pelo físico brasileiro Amir Caldeira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e seu orientador de doutorado na Universidade de Sussex, no Reino Unido, o físico britânico Anthony Leggett. “Nosso trabalho serviu de base para os experimentos dos três físicos que ganharam agora o Nobel”, comenta Caldeira.

Shane Collins / Northwestern University | Ashley Mccabe / Brown University | Kiran Ridley / Getty Images Joel Mokyr, Peter Howitt e Philippe Aghion: crescimento sustentávelShane Collins / Northwestern University | Ashley Mccabe / Brown University | Kiran Ridley / Getty Images
Economia
Metade do valor do prêmio foi para o norte-americano Joel Mokyr, de 79 anos, da Universidade Northwestern, Estados Unidos, que identificou “os pré-requisitos para crescimento sustentável por meio de progresso tecnológico”. A outra parte é dividida pelo canadense Peter Howitt, 79, da Universidade Brown, nos Estados Unidos, e pelo francês Philippe Aghion, 69, do Collège de France e do Instituto Europeu de Administração de Empresas (Insead), na França, e da London School of Economics, no Reino Unido, que desenvolveram uma “teoria de crescimento sustentado através do conceito de destruição criativa.”.
“Mokyr é o mais conhecido defensor da relação entre a expansão do Iluminismo, a partir do século XVII, e a Revolução Industrial”, afirma o economista Thales Zamberlan Pereira, da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EESP). “Ele defende que o pulo do gato da Inglaterra foi dar uso prático às macroinovações, as grandes criações que emergiram no Iluminismo, e que é preciso haver ideias disruptivas, que gerem choques de produtividade.” É o que também postulam Aghion e Howitt, os outros dois laureados. “Eles buscam mostrar que a inovação tecnológica é fundamental para explicar o crescimento econômico de longo prazo”, explica Luciano Nakabashi, da Faculdade de Economia e Administração (FEA), do campus de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP).
Na década de 1990, os dois pesquisadores introduziram em um modelo de crescimento econômico o conceito de “destruição criativa”, desenvolvido no século XX pelo economista austríaco Joseph Schumpeter (1883-1950). “Por meio desse modelo matemático, eles conseguiram mostrar que a geração de tecnologia é uma das fontes de crescimento econômico”, explica Nakabashi, atualmente pesquisador visitante na Universidade Brown.

Kyoto University | Paul Burston / University of Melbourne | Brittany Hosea-Small / UC BerkeleySusumu Kitagawa, Richard Robson e Omar Yaghi desenvolveram estruturas metalorgânicasKyoto University | Paul Burston / University of Melbourne | Brittany Hosea-Small / UC Berkeley
Química
O japonês Susumu Kitagawa, de 74 anos, o britânico Richard Robson, de 88 anos, e o jordaniano naturalizado norte-americano Omar Yaghi, de 60 anos, desenvolveram uma nova forma de arquitetura molecular: as estruturas metalorgânicas (MOF, de metal-organic frameworks) são compostas por íons metálicos (átomos de metal com carga elétrica positiva) conectados por moléculas orgânicas de maneira a formar cristais com amplos espaços internos. Eles são capazes de captar e armazenar substâncias, além de estimular reações químicas e conduzir eletricidade.
Em 1989, Robson criou um cristal com cavidades nas quais, em fluido, íons conseguiam entrar e sair. Mas a construção era instável e se desmontava facilmente. O problema foi resolvido, separadamente, pelos outros dois laureados. Kitagawa, atualmente na Universidade de Kyoto, no Japão, em 1997 obteve estruturas metalorgânicas que conseguiam capturar e liberar gases como metano, oxigênio e nitrogênio, sem a presença de água. Ele também conseguiu, mais tarde, produzir cristais flexíveis, que se dilatam quando cheios e voltam a encolher quando se esvaziam.
O grupo de Yaghi, hoje no campus de Berkeley da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, chegou em 1995 a uma estrutura bidimensional com junções de cobalto, capaz de armazenar moléculas com tanta estabilidade que podia ser aquecida a 350 graus Celsius (°C) sem perder as propriedades. A estrutura que ele anunciou em 1999 conseguia ser estável a 300 °C mesmo vazia e ganhou fama pela proeza de, em poucos gramas, ter uma superfície equivalente a um campo de futebol.
No Brasil, vários grupos de pesquisa fazem uso dessa ferramenta. O da engenheira química Liane Rossi, do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP), desenvolve sistemas de adsorção de gases e testa MOF para condicionamento de solo. O da engenheira química Christiane Arruda, do campus de Diadema da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), dedica-se a restituir qualidade à água de abastecimento.

Franco Origlia/ Getty Images László Krasznahorkai: frases longasFranco Origlia/ Getty Images
Literatura
Com 40 anos de carreira, o húngaro László Krasznahorkai “é um escritor bastante desafiador”, segundo Manoel Ricardo de Lima, professor da Escola de Letras da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). “Sua escrita é pautada por frases longas, que acompanham o fluxo de consciência dos personagens, e nas histórias trata das pessoas desvalidas, dos famintos, dos miseráveis, de quem não tem lugar no mundo”, prossegue.
Nascido em 1954 no interior da Hungria, Krasznahorkai estreou na literatura com Sátántangó, em 1985. A ação se concentra na chegada de um forasteiro a um vilarejo decadente húngaro durante o regime comunista, que é acolhido como um salvador da pátria pelos moradores. O livro foi publicado no Brasil em 2022 pela Companhia das Letras, com título original e em edição vertida do húngaro para o português pelo tradutor e psicanalista paulista Paulo Schiller. “László costuma dizer que pensa suas frases e só as escreve quando já estão mentalmente finalizadas. São frases densas, muitas vezes sem pontuação, que se estendem por páginas e tornam a tradução muito trabalhosa”, conta o tradutor.
A editora tem no programa o lançamento de mais dois romances do autor: O retorno do Barão Wenckheim (2016) e Herscht 07769 (2021).
Paz
A ex-deputada venezuelana María Corina Machado é a principal voz da oposição aos governos de Hugo Chávez (1954-2013) e Nicolás Maduro. Aos 58 anos, vive na Venezuela. Seu mérito, segundo o comitê do Nobel, foi ser uma figura unificadora da oposição na exigência de eleições livres na Venezuela, em um tempo em que “a democracia está sob ameaça”.
“Dada a importância simbólica do Nobel da Paz, a vitória de Machado indica não somente a preocupação de setores da comunidade internacional com relação à Venezuela, mas também o desejo de chamar a atenção do mundo para a necessidade de se realizar uma transição política no país sul-americano”, observa o cientista político Guilherme Casarões, professor da Universidade Internacional da Flórida (FIU), nos Estados Unidos, que considera a premiada uma figura controversa.
Sátira ao prêmio Nobel completa 35 anos de homenagens a pesquisas inusitadas

Ig Nobel PrizeA jornalista Karen Hopkin mostra o prêmioIg Nobel Prize
A cerimônia que antecede o Nobel é uma sátira que celebra a criatividade e o bom humor na ciência. A ideia é fazer o público rir e, depois, pensar.
O tema central do ano foi a digestão, celebrada em uma miniópera sobre situações enfrentadas por gastroenterologistas e pacientes. Com esse enfoque, foi selecionado um estudo feito por japoneses que pintaram listras em vacas, como se fossem zebras, para saber se o padrão faz diferença em ataques de mosquitos (e faz, as disfarçadas são menos atacadas), e outro sobre qual tipo de pizza um lagarto africano (Agama agama) prefere. No campo da física, quatro cientistas buscaram desenvolver a receita perfeita de espaguete cacio e pepe.
Dois dos estudos homenageados exploraram os efeitos do álcool. Na categoria aviação, um grupo de pesquisadores foi premiado por uma avaliação sobre o que acontece com morcegos embriagados, e o Ig Nobel da paz foi para uma equipe que demonstrou que a bebida alcóolica pode melhorar as habilidades de falar uma língua estrangeira.
Na lista de trabalhos que se conectam ao tema do ano por abordarem temas indigestos, está o prêmio de engenharia e design, que foi entregue a uma dupla de indianos, que propôs uma solução para acabar com o mau cheiro dos sapatos ao criar uma sapateira com luz UV-C capaz de matar as bactérias que causam o chulé. Na literatura, o médico norte-americano William Bennett Bean (1909-1989) foi homenageado por sua obra detalhada sobre o crescimento das próprias unhas por 35 anos.
Outras curiosidades alimentares também inspiraram os cientistas premiados na categoria de pediatria, sobre o que acontece com o leite materno quando mulheres lactantes comem muito alho: o odor do leite mudou e os bebês mamaram mais.
O fim da cerimônia foi marcado pela tradicional chuva de aviões de papel e o consolo do matemático Marc Abrahams, criador e apresentador da premiação, para os cientistas: “Se você não ganhou um Ig Nobel este ano – e especialmente se você ganhou –, tenha mais sorte no ano que vem!”.
A reportagem acima foi publicada com o título “Da ciência básica à inovação” na edição impressa nº 357, de novembro de 2025.
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