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Arquitetura

O lugar das mulheres nas moradias sociais erguidas no Brasil moderno

Estereótipos e desigualdade de gênero pautaram a representação de moradoras e profissionais do setor construtivo

Desenhos feitos pelo arquiteto Eduardo Kneese de Mello, na década de 1940, para o projeto do edifício Japurá, em São Paulo

Grupo de Pesquisa Pioneiros da Habitação Social no Brasil

“Tinha o fogão […]. Tinha um fogão ali, entendeu? Já colocavam em cada unidade um fogão. Olha que coisa!”, conta o bancário aposentado Lismar Fonseca, morador do Conjunto Habitacional Santa Cruz, na Vila Mariana, bairro de São Paulo. No depoimento concedido em 2015 à historiadora e arquiteta Flávia Brito do Nascimento, ele relembra o maravilhamento da mãe ao chegar na década de 1940 ao imóvel recém-construído e deparar-se com o eletrodoméstico, oferecido como parte integrante da nova casa.

A entrevista é uma das mais de 50 realizadas na década de 2010 por Nascimento, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAU-USP), com moradores de quatro conjuntos habitacionais paulistas: Residencial da Mooca, Várzea do Carmo e Santa Cruz, situados na capital, e Vila Guiomar, em Santo André, na região metropolitana. A história oral foi parte fundamental de sua pesquisa de livre-docência apresentada em 2022 na USP, que deu origem ao livro Cotidiano conjunto: Domesticidade e patrimonialização da habitação social moderna, lançado em 2025 pela Edusp, com apoio da FAPESP.

Entre outros pontos, Nascimento analisa a moradia popular erguida entre os anos 1940 e 1960 nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. O período é conhecido como o auge da arquitetura moderna no país. “Os conjuntos habitacionais se tornaram agenda de Estado com a ascensão de Getúlio Vargas [1882-1954] ao poder em 1930 e essa política ganhou força a partir do Estado Novo [1937-1945]”, conta Nascimento. “Na concepção varguista, a organização do trabalho passava também pela estruturação de uma moradia. Os arquitetos modernos brasileiros vão encontrar nessa política de moradia social um lugar para colocar suas ideias em prática, muito pautadas pela racionalização dos espaços.”

Segundo a pesquisadora, até o início da ditadura militar (1964-1985) o ciclo de construção de moradias sociais no país foi conduzido, em grande parte, pelos institutos de aposentadorias e pensões de diversas categorias profissionais, que estavam sob a tutela do governo federal. “Os institutos disponibilizavam unidades de moradia aos afiliados, que eram apenas alugadas e não vendidas, mediante desconto em folha de pagamento”, esclarece Nascimento. “Esses conjuntos habitacionais foram construídos em várias partes do Brasil.”

Revista dos Inapiários, n. 19, nov. 1939Texto veiculado na seção Página Feminina, da Revista dos Inapiários (s/d)Revista dos Inapiários, n. 19, nov. 1939

Os conjuntos habitacionais visitados em São Paulo pela arquiteta durante a pesquisa foram iniciativas do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários (IAPI) e do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários (IAPB). “Em geral, os trabalhadores sindicalizados inscritos eram pessoas de baixa renda e precisavam ter uma família ou serem casados para poder morar no apartamento”, diz a arquiteta.

Um dos focos do livro é discutir o lugar da mulher nesse tipo de moradia. “Algumas das moradoras dos conjuntos eram donas de casa que também trabalhavam fora, como operárias, por exemplo. Os arquitetos ensaiaram uma série de experimentações com o espaço doméstico e a organização da casa até chegar a um modelo comum com a meta de facilitar a vida dessas pessoas”, prossegue Nascimento.

As mulheres solteiras eram exceção no universo habitacional promovido pelo Estado, como lembra a pesquisadora. “Para os solteiros e solteiras, houve projetos de conjuntos específicos, embora em número reduzido, a exemplo da Casa da Bancária, projeto do escritório Irmãos Roberto Arquitetos construído no final dos anos 1950 pelo IAPB, no Rio de Janeiro”, relata. “O imaginário das mulheres moradoras da Casa da Bancária representado pelo arquiteto e artista visual Carlos Leão [1906-1983] nos desenhos do projeto era libertário e sedutor.”

Isso não era visto no conteúdo veiculado em revistas publicadas entre os anos 1930 e 1960 pelas entidades de classe e enviadas para seus associados no Brasil. Nas páginas desses periódicos, que tratavam de assuntos variados, as mulheres apareciam trabalhando fora de casa, mas, como defende um artigo da seção Página Feminina, na Revista dos Inapiários, “sem abrir mão de suas habilidades inatas para o ambiente doméstico”. “Esses projetos habitacionais tinham ambição formativa e as revistas ajudavam a divulgar a conduta que era esperada das mulheres dentro da moral cristã e dos valores trabalhistas”, informa a arquiteta.

Segundo a pesquisadora, o Estado promoveu essa política habitacional a partir dos anos 1930 visando não apenas o bem-estar social. “Era também uma forma de interferir na vida privada dos trabalhadores”, constata.

Grupo de Pesquisa Pioneiros da Habitação Social no BrasilIlustrações do interior da Casa da Bancária, projeto construído no Rio de Janeiro nos anos 1950Grupo de Pesquisa Pioneiros da Habitação Social no Brasil

Nesse sentido, o livro busca entender quem eram as mulheres que ajudaram a elaborar essa política habitacional no Brasil e não apenas em âmbito federal. O caso mais emblemático é o da engenheira Carmen Portinho (1903-2001), diretora entre 1948 e 1960 do Departamento de Habitação Popular (DHP), órgão da Prefeitura do Rio de Janeiro (ver Pesquisa FAPESP nº 134). No momento, sua trajetória é revisitada pela exposição Carmen Portinho: Modernidade em construção, que fica em cartaz até março de 2026 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ).

Portinho é uma das profissionais ligadas ao universo da construção perfiladas no livro Mulheres, casas e cidades, da arquiteta argentina Zaida Muxí Martínez, professora da Escola Técnica Superior de Arquitetura de Barcelona, na Espanha. A obra foi lançada no Brasil em 2024 pela editora Olhares. “Antes de se formar em engenharia em 1925, Carmen já era ativa nos movimentos feministas e questionava a suposta vocação natural da mulher para tarefas domésticas”, disse a arquiteta, em entrevista a Pesquisa FAPESP. “Ao ganhar uma bolsa de estudo e ir para a Grã-Bretanha em 1945 participar da reconstrução de cidades inglesas no pós-guerra, ela passa a ter a certeza de que a igualdade de direitos também estava ligada à arquitetura e ao urbanismo.”

A cientista social Silvana Rubino, do Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), conta que Portinho teve a ideia de fazer o Conjunto Residencial Prefeito Mendes de Morais, conhecido como Pedregulho, após essa temporada na Europa. Inaugurada em 1950, no bairro São Cristóvão, a construção foi desenhada pelo arquiteto Affonso Eduardo Reidy (1909-1964), companheiro da engenheira e então diretor do Departamento de Urbanismo da prefeitura carioca. “O projeto teve grande participação de Carmen, embora não leve sua assinatura”, afirma Rubino.

A engenheira buscava nos projetos de moradia do DHP simplificar os espaços das casas para as moradoras. Exemplo disso é a lavanderia coletiva do Pedregulho. “Em consonância com o pensamento moderno, ela propunha que a ‘mão cansada’ da mulher trabalhadora que habitaria o conjunto não deveria encontrar um tanque em cada unidade, e sim uma lavanderia para todos, eventualmente ocupada por trabalhadoras remuneradas para fazer aquele serviço”, conta Rubino, que em sua tese de livre-docência apresentada em 2017 analisou, entre outras, a trajetória de Portinho.

Nos projetos do DHP, Carmen Portinho buscava facilitar a vida das moradoras

Entretanto, a lavanderia coletiva logo se tornou motivo de polêmica. Isso porque o equipamento, que contava com máquinas de lavar importadas dos Estados Unidos, situava-se em uma edificação à parte, onde ficava também o mercado. Segundo Nascimento, a exposição das roupas surradas e o trabalho de levá-las para lavar fora encontraram resistência entre uma significativa parcela dos moradores do Pedregulho. “As pessoas passaram a improvisar a lavagem da roupa da família em baldes e bacias dentro dos apartamentos”, acrescenta Rubino.

Portinho não estava sozinha no DHP. Uma de suas colaboradoras era a arquiteta alagoana Lygia Fernandes (1919-2011), que atuou no órgão entre as décadas de 1940 e 1960. “Lygia foi uma das mais importantes representantes da geração de arquitetas brasileiras formadas nos anos 1940”, afirma Nascimento. “Em relação a outras colegas, alcançou maior autonomia profissional, tendo elaborado projetos para clientes particulares em Alagoas e também publicado seus projetos em veículos de reconhecimento e legitimação profissional, como no livro Arquitetura moderna no Brasil [1956], de Henrique Mindlin [1911-1971].”

No DHP, contudo, Fernandes não assinou o projeto de nenhum conjunto residencial. “Sua atuação na repartição se dava, principalmente, na autorização de projetos de casas individuais e na elaboração de desenhos”, diz Nascimento. “As mulheres não são autoras de conjuntos habitacionais daquele período, embora o Brasil já tivesse arquitetas e engenheiras formadas naquela ocasião. Isso evidencia a desigualdade de gênero nessas profissões.”

Ainda em relação ao DHP, Nascimento chama a atenção para a atuação das assistentes sociais nos conjuntos habitacionais construídos pela prefeitura carioca. A princípio esse serviço foi coordenado por Portinho e a partir de 1948 passou para as mãos da assistente social Anna Augusta Almeida. Ela ocupou o cargo por 12 anos e comandava uma equipe de estagiárias, da qual faziam parte as irmãs Zulmira e Diva Martins. A missão dessas profissionais, cujo ofício começou a se constituir no país nos anos 1930, era atender os moradores, ouvir suas queixas e identificar eventuais quebras de regulamento por parte deles, entre outros afazeres.

Núcleo de Pesquisa e Documentação da UFRJVista externa de edificação com mercado e lavanderia coletiva do conjunto residencial Pedregulho, no Rio de Janeiro, nos anos 1950; à direita, Carmen Portinho, em registro sem dataNúcleo de Pesquisa e Documentação da UFRJ

No caso do Pedregulho, os inquilinos naqueles primórdios eram funcionários da prefeitura, como vigilantes e garagistas, que vinham de habitações precárias ou casas simples em vilas operárias. “As assistentes sociais do DHP buscavam estabelecer um vínculo entre os moradores e aqueles espaços construídos dentro dos preceitos da arquitetura moderna. Em suma, elas ensinavam a maneira ‘correta’ de essas pessoas interagirem com suas casas”, comenta Rubino. Segundo a pesquisadora, a estratégia incluía um apartamento modelo no próprio Pedregulho, ocupado por mobiliário moderno. “Foi essa a imagem que circulou
o mundo em periódicos, mas ela não correspondia nem de longe à apropriação do espaço pelos moradores”, observa.

Na avaliação de Rubino, a orientação oferecida pelas assistentes sociais às moradoras era permeada por contradições. “Os conselhos podiam de fato ajudar a dinamizar o trabalho doméstico. Porém essas assistentes sociais, bem como as arquitetas, eram, em geral, mulheres da elite que buscavam formar o novo padrão de gosto moderno a partir de suas próprias vivências, não levando em conta a história de vida daquelas pessoas”, sustenta a pesquisadora.

A presença das assistentes sociais não estava circunscrita ao DHP, como assinala Nascimento. Em diversos conjuntos dos institutos de aposentadoria e pensões no Rio de Janeiro, como o Realengo, do IAPI, uma equipe de profissionais promovia atividades como recreação e acompanhamento escolar. “Nos conjuntos habitacionais de São Paulo, não havia interferência tão presente das assistentes sociais no cotidiano dos moradores, embora existisse um serviço de seguridade social em alguns dos institutos que prestavam atendimento aos associados”, pontua a arquiteta.

Entre as construções idealizadas na década de 1940 em São Paulo pelo IAPI, figura o Conjunto Residencial Armando de Arruda Pereira, conhecido como edifício Japurá. Desenhado em 1945 pelo arquiteto Eduardo Kneese de Mello (1909-1964), o complexo foi inaugurado na primeira metade da década de 1950 e ocupou a área de um antigo cortiço no centro paulistano. Em Modos de morar nos apartamentos duplex: Rastros de modernidade (Ateliê Editorial, 2021), a arquiteta Sabrina Fontenele analisa o projeto da edificação. O livro resulta de pesquisa de pós-doutorado realizada entre 2016 e 2019 na Unicamp, com apoio da FAPESP.

René Schoeps, Acervo Museu de Santo André Dr. Octaviano Armando GaiarsaVarais coletivos no conjunto habitacional do IAPI, na Vila Guiomar, em Santo André (SP), nos anos 1950René Schoeps, Acervo Museu de Santo André Dr. Octaviano Armando Gaiarsa

No Japurá, a primeira torre, mais baixa, foi concebida para abrigar estabelecimentos comerciais e também quitinetes destinadas a jovens solteiros. “Apenas os homens podiam morar sozinhos ali na época”, comenta Fontenele, professora da Escola da Cidade, faculdade de arquitetura em São Paulo. Com 14 pavimentos, a outra torre abriga 288 unidades habitacionais duplex, que distribuem a área social (sala, cozinha, despensa e hall da escada) no andar inferior do apartamento, enquanto o andar superior reúne dois quartos e banheiro.

O projeto arquitetônico bebeu na fonte do conceito de habitação unificada do arquiteto franco-suíço Le Corbusier (1887-1965). Este, por sua vez, inspirou-se no conjunto habitacional soviético Narkomfin, inaugurado em 1930, em Moscou, com apartamentos duplex e máxima racionalização dos espaços. “O projeto do Narkomfin tinha como intenção libertar as mulheres do trabalho doméstico a partir dos equipamentos coletivos”, explica a arquiteta.

Em sua pesquisa, Fontenele avaliou, entre outros aspectos, a representação da mulher no projeto arquitetônico do Japurá. “As moradoras que estão nas imagens de divulgação do edifício Narkomfin apareciam, por exemplo, estudando em suas escrivaninhas”, diz a arquiteta. “Entretanto, o conceito de mulher visto nas pranchas desenhadas por Kneese para o Japurá é diferente disso.”

Como observa a pesquisadora, na prancha do pavimento superior, dois balões referem-se às atividades desempenhadas pelas mulheres no interior dos apartamentos: lavar roupa e costurar. Além disso, essas mesmas mulheres demonstram as possibilidades de uso das áreas comuns, como o salão de beleza. “As ilustrações revelam dois estereótipos femininos: a mulher responsável pelos cuidados da casa e também preocupada com a própria estética”, diz. “É uma contradição, visto que os apartamentos duplex se associavam a uma ideia moderna de moradia.”

A reportagem acima foi publicada com o título “Vida em conjunto” na edição impressa nº 358 de novembro de 2025.

Livros
NASCIMENTO, F.B. Cotidiano conjunto: Domesticidade e patrimonialização da habitação social moderna. São Paulo: Edusp/FAPESP, 2025.
FONTENELE COSTA, S. Modos de morar nos apartamentos duplex: Rastros de modernidade. Cotia: Ateliê Editorial/FAPESP, 2021.
MARTÍNEZ, Z.M. Mulheres, casas e cidades. São Paulo: Editora Olhares, 2024.

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