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Educação

Oh, que delícia de curso!

UNIVERSIDADE DE OREGONEm tempos que aparentemente prenunciam uma revolução na cultura alimentar norte-americana, com o país preocupado com a epidemia de obesidade e todos os graves problemas de saúde a ela correlacionados, uma de suas universidades públicas, a Indiana University (IU), anuncia o primeiro doutorado do mundo em antropologia da comida ou da alimentação, numa tradução mais sutil para anthropology of food. “Vamos abordar a comida em seu sentido mais amplo, vinculado à dimensão cultural da sociedade e da história humana, observá-la no centro da análise social e percebê-la como uma janela para entender diversidade e mudança social”, diz Eduardo Brondízio, um brasileiro de 44 anos que há três chefia o Departamento de Antropologia da IU.

A proposta do doutorado surgiu das quatro subáreas que o departamento abriga, até como uma via para ampliar a interação entre elas e aproveitar a expertise de cada uma em projetos conjuntos de alto impacto acadêmico. Tradicionalmente a antropologia norte-americana se divide entre a antropologia cultural, a lingüística, e mais arqueologia e bioantropologia. Enquanto muitos departamentos de outras universidades do país preferiram se especializar em um ou dois desses campos, o da IU fez questão de manter todos e, há algum tempo, começou a levantar a questão de como criar pontes bem produtivas entre eles. “Nesse processo, o tema da comida terminou aparecendo com grande força, motivando desde o arqueólogo que examina a relação entre alimentação e complexidade social, ao bioantropólogo analisando a relação entre nutrição e adaptação e até o antropólogo cultural que trabalha com seus níveis simbólicos”, diz Brondízio.

Os brasileiros interessados nesse novo campo, cujo número de vagas ainda não está definido (“entre cinco e dez”), devem se inscrever até o final de janeiro para o doutorado em antropologia. O processo para ser admitido no programa como um todo é normalmente bem competitivo, com a seleção de 15 a 20 estudantes dentre 130 a 150 candidatos, a cada ano. O Departamento de Antropologia da IU, que está completando 60 anos de pesquisa e ensino, é considerado um dos mais tradicionais e produtivos dos Estados Unidos, com um corpo docente de 38 professores (além de 24 professores adjuntos),130 doutorandos, sete centros de pesquisas e oito laboratórios associados. “Mas vale lembrar que sempre tem brasileiros chegando a este e a outros departamentos da IU em Bloomington, e nesse momento lá estão quatro doutorandos”, diz Brondízio, aliás, um dos pioneiros nesse percurso. Ele chegou a Indiana para estudar ecologia humana com seu hoje colega Emilio Moran (personagem da entrevista de Pesquisa FAPESP, de julho de 2006) depois de ter estudado agronomia em Taubaté e sensoriamento remoto aplicado a estudos de uso da terra e uso da floresta no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Acabou se especializando em antropologia ambiental, com ênfase em mudanças socioambientais e culturais entre comunidades rurais na Amazônia e outras partes da América Latina.

Suas pesquisas incluem vários itens ligados ao tema do doutorado sobre comida, como uso da terra e produção de alimentos, identidade social de pequenos agricultores, etnobotânica e globalização de produtos florestais. A propósito, ele está lançando este mês The Amazonian caboclo and the açaí palm: forest farmers in the global market (editora do New York Botanical Garden), uma espécie de etnografia e história social do fruto do açaí, com base em 18 anos de trabalho com populações ribeirinhas e a palmeira do açaí na ilha de Marajó, no estuário amazônico. A par dos dados de seu currículo, entretanto, Brondízio diz ter a qualificação mais necessária para o novo programa de doutorado da IU: é um bom cozinheiro, garante.

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