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Obituário

Pensador polivalente

Gláucio Soares desenvolveu estudos pioneiros em distintas áreas das ciências sociais

Léo Ramos Chaves Glaucio Soares no Rio de Janeiro, em 2019. Sociólogo elaborou estudos com dados eleitorais brasileiros, na década de 1960Léo Ramos Chaves

Autor de pesquisas sobre eleições, violência urbana, ditadura e democracia, o sociólogo Gláucio Ary Dillon Soares, do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj), morreu dia 14 de junho, no Rio de Janeiro, em decorrência de complicações da Covid-19. Soares tinha 86 anos e estava internado desde o final de maio. Filho único de uma professora primária e um contador, o carioca deixou cinco filhos e seis netos, além da mulher, a cientista política Dayse Miranda.

Soares nasceu no dia 24 de julho de 1934 e fez parte da primeira turma de direito da Universidade Cândido Mendes, onde se graduou em 1957. “Costumo dizer que tropecei no direito, não escolhi”, disse em entrevista a revista Pesquisa FAPESP, publicada em dezembro de 2019. Em 1958, concluiu o bacharelado em sociologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). No ano seguinte, recebeu o título de mestre pela Tulane University, em Lousiana, e, em 1965, concluiu o doutorado em sociologia pela Washington University St. Louis (WUSL), ambas nos Estados Unidos.

Com papel relevante no estabelecimento de diferentes instituições no campo das ciências sociais, o pesquisador dirigiu a Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (Flacso), no Chile, entre 1965 e 1969 e, mais tarde, participou da reestruturação do Departamento de Ciências Sociais da Universidade de Brasília (UnB), afetado por inúmeras demissões após o golpe militar de 1964. Depois de mudar-se para os Estados Unidos em 1974, tornou-se professor na Universidade da Flórida, instituição em que desenvolveu grande parte de sua carreira acadêmica e pela qual se aposentou, em 2000. Desde 1997, dava aulas no antigo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), atual Iesp.

“Ele seguiu conosco até decidir se afastar por problemas de saúde, em meados de 2018”, recorda o sociólogo Adalberto Cardoso, do Iesp-Uerj. Soares foi presidente da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) entre 2000 e 2004 e desde 2008 ocupava o cargo de secretário-geral da Associação Latino-americana de Ciência Política (Alacip). Além disso, foi professor visitante em instituições europeias, norte-americanas e mexicanas, como as universidades de Essex, na Inglaterra, da Califórnia em Los Angeles (Ucla), Harvard e Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), todas nos Estados Unidos.

Cardoso destaca seu pioneirismo na ciência política brasileira. “Ele era sociólogo, mas atuava em várias chaves de pesquisa, tendo sido o primeiro a elaborar estudos com dados eleitorais quantitativos”, recorda. Cardoso também lembra que Soares foi responsável por publicar, na década de 1960, o primeiro paper que analisou a relação entre voto e raça no Brasil. “Ele colocou em evidência vários temas e problemas da democracia brasileira. Seus estudos sobre o golpe militar de 1964 se tornaram bibliografia obrigatória para qualquer pessoa que queira entender a história política do país”, diz. “Soares era um entusiasta da utilização de métodos quantitativos nas ciências sociais e formou muitos estudantes nessa área”, informa, ao mencionar que alguns de seus alunos são hoje docentes de instituições como Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade de São Paulo (USP) e Uerj.

Com 11 livros escritos ou organizados, o sociólogo também publicou 43 capítulos de livros e mais de 130 artigos científicos. Em 1967, com “Socioeconomic variables and voting for the radical left: Chile, 1952”, artigo elaborado com Robert Hamblin, professor de psicologia social na Universidade Washington em St. Louis, nos Estados Unidos, tornou-se o primeiro latino-americano a publicar na American Political Science Review. Seu livro Sociedade e política no Brasil (Difel, 1973) é referência entre os trabalhos de sociologia eleitoral. Ele também coordenou o projeto de memória oral da Fundação Getulio Vargas (FGV) sobre o golpe de 1964, a repressão e a abertura política no Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea da fundação, o CPDOC. O acervo é considerado o maior banco de dados com depoimentos de militares sobre o período.

“Soares foi um cientista rigoroso, mas nem por isso afeito a rigorismos estreitos, fossem eles teóricos ou metodológicos. Duvidar, perguntar, verificar talvez sejam os três verbos que melhor espelhem a sua conduta como intelectual e cientista”, observa a socióloga Nadya Araujo Guimarães, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, ao sublinhar sua aguda sensibilidade para entender a sociedade. “Ele tinha uma agenda temática aberta aos desafios da vida social e à inovação nas ferramentas teóricas e metodológicas. Tão aberta que, nesse momento, tanto a sociologia quanto a ciência política sentem a sua perda”, afirma. Ao recordar que Soares se formou no ambiente acadêmico norte-americano, ela diz que ele sempre atuou como um mediador entre os mundos intelectuais de Brasil e Estados Unidos.

Além disso, elaborou pesquisas sobre violência e segurança pública, tendo orientado inúmeras teses e dissertações sobre o assunto. Em entrevista a Pesquisa FAPESP, Soares explicou que seu interesse pelo tema da segurança derivava da observação da violência política ocorrida em países como Chile, México e Argentina, entre as décadas de 1960 e 1980. Dentre seus trabalhos de destaque nesse campo está o livro Não matarás: Desenvolvimento, desigualdade e homicídios (FGV, 2008), resultado de mais de 10 anos de pesquisa, além de um estudo sobre o impacto do Estatuto do Desarmamento, elaborado com o economista Daniel Cerqueira, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Mais recentemente, Soares estava pesquisando o efeito do amor nas relações sociais. Em 2015, ele recebeu o Prêmio de Excelência Acadêmica Gildo Marçal Brandão da Associação Nacional de Programas de Pós-graduação em Ciências Sociais (Anpocs). “Soares era uma pessoa muito querida e respeitada, por causa de sua militância institucional, pelo rigor de seu trabalho científico e pela generosidade e qualidade na formação de alunos, sobretudo de doutores”, comenta Cardoso.

Outro aspecto importante de sua trajetória, na perspectiva de Guimarães, da USP, foi sua atuação como latino-americanista. “Ele empenhou-se, como docente e intelectual-articulador, em fazer valer o campo de uma sociologia latino-americana, um pensamento desconcertante à época, pois desafiava uma certa tendência ao relativo isolamento da sociologia brasileira frente ao que se produzia na América Latina”, destaca. Guimarães foi aluna de Soares nos cursos de sociologia do desenvolvimento e sociologia latino-americana, ministrados na UnB em 1970. “Na condição de aluna da primeira geração do curso de ciências sociais da UnB, fui sua bolsista de iniciação científica e tive o privilégio de trabalhar com ele no preparo e processamento de dados para o Sociedade e política no Brasil”, recorda. De acordo com ela, a formação de jovens pesquisadores era uma tarefa que lhe dava especial alegria.

“Para além da universidade, nossa convivência aconteceu em muitos encontros em sua casa e no ‘bar escritório’ – apelido que dávamos a uma pizzaria que ficava quase ao lado do Iesp. Ele sempre fazia de sua orientação um encontro quase familiar”, conta o sociólogo Michel Lobo Toledo Lima, pesquisador do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (INCT-InEAC). Último orientando de Soares, Lima fez mestrado e doutorado com ele. Na tese, defendida em 2018, analisou práticas e negociações jurídico-policiais na administração e investigação de homicídios dolosos, estabelecendo diálogos com métodos da sociologia e antropologia, por meio de uma parceria que envolveu, também, o antropólogo Roberto Kant de Lima, da Universidade Federal Fluminense (UFF).

“Nosso trabalho viabilizou trocas interdisciplinares e interinstitucionais, sendo fundamental para a desconstrução da normatividade e do ensino doutrinário de minha formação original em direito. Permitiu-me enxergar o campo jurídico como um fenômeno social”, conta Lima, que também é professor visitante e pesquisador de pós-doutorado no Programa de Pós-graduação em Direito da Universidade Veiga de Almeida (UVA), no Rio de Janeiro. A partir do doutorado, Lima passou a produzir trabalhos empíricos para descrever como instituições policiais e judiciais gerenciam conflitos e crimes, analisando a construção e organização de registros institucionais por meio de dados informatizados, a exemplo do que faz o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) em seus relatórios anuais.

“As contribuições de nossa parceria permitiram identificar como registros quantitativos de instituições judiciárias podem revelar mais sobre suas práticas internas do que sobre os fatos que elas pretendem classificar e quantificar”, sustenta. Lima menciona que, para além da vida acadêmica, Soares mantinha um blog que funcionava como um diário público de suas inquietações, lutas, conquistas, reflexões e percalços, não só contra um câncer diagnosticado há 25 anos, mas também perante as adversidades do cotidiano. “A última atualização foi feita em junho de 2020. Impressiona a quantidade de comentários postados, indício de como as pessoas foram impactadas positivamente por seus escritos”, conclui.

Íntegra do texto publicado em versão reduzida na edição impressa, representada no pdf

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