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Especial Einstein

Rubens Machado Júnior: Viagem vertiginosa

Professor de história do cinema explica como os filmes exploram a questão do tempo

Machado Júnior: filmes para estudar as cidades

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Inventado em 1895, o cinema entrou no século XX recorrendo à noção de tempo de artes mais antigas, como a música e o teatro. Aos poucos, ao longo dos últimos cem anos, criou sua própria linguagem e tornou-se capaz de expressar diferentes pontos de vista. Ao dominar as técnicas de edição das imagens em movimento, a sétima arte adquiriu meios de fazer o espectador viajar no tempo e no espaço. “Os filmes são um material rico para estudar a história das cidades do século XX”, disse Rubens Machado Júnior, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), na palestra “O tempo no cinema”, feita no dia 13 de dezembro passado.

Muitos cineastas e teóricos contribuíram para a formação da linguagem cinematográfica. Diretor do longa-metragem racista O nascimento de uma nação, D.W. Griffith foi um dos pais da gramática do cinema já na década de 1910. Criou a montagem paralela, técnica que cria a sensação de suspense ao explorar a noção de simultaneidade entre dois eventos que ocorrem em locais diferentes. Nos anos 1920, o russo Serguei Eisenstein, autor do famoso filme O encouraçado Potemkin, criou a chamada montagem dialética. O recurso era usado para estabelecer o conflito entre imagens antagônicas mostradas em sequência. Contemporâneo de Eisenstein, o cineasta russo Dziga Vertov, propositor do cinema-olho (em que a câmera é pensada como extensão do corpo humano), passou a defender a ideia de que a linguagem do cinema deveria se libertar da influência das outras artes. Em 1929, Vertov lançou a fita experimental Um homem com uma câmera em que mostra a vida urbana nas cidades da então nova União Soviética.

O cinema pode trabalhar a questão do tempo de maneiras muito distintas. Para exemplificar algumas dessas possibilidades, Machado falou de dois movimentos importantes na história dessa arte. Citou os filmes que exploraram o cotidiano das grandes cidades, mais ou menos na linha de Um homem com uma câmera. No documentário Berlim, sinfonia de uma cidade (1927), de Walter Ruttmann, as situações típicas da metrópole alemã são mostradas ao longo de um dia, desde o amanhecer até o anoitecer. A fita, que serviu de inspiração para produções semelhantes rodadas em parte do globo (inclusive em São Paulo), é editada de forma a criar a sensação de que o ritmo da cidade oscila com o passar das horas. “No final da tarde tudo fica mais dinâmico no filme”, afirmou Machado. Antes de terminar o expediente de trabalho, a intensa mobilidade urbana cria a sensação de vertigem. O turbilhão humano e das máquinas na cidade em movimento culmina com o suicídio de uma pessoa que se joga de uma ponte.

A segunda corrente cinematográfica mencionada pelo professor da USP foi o neorrealismo, surgido após a Segunda Guerra Mundial. Em filmes italianos como Roma, cidade aberta(1945) e Stromboli (1950), ambos de Roberto Rossellini, ou A noite (1961), de Michelangelo Antonioni, o tempo começa a se tornar arrastado, parado, em razão de os diretores usarem poucos cortes e planos longos em suas narrativas. “Esse cinema não explica muito o que ocorre na frente das câmeras”, comentou Machado. “Há mais dificuldade de fruição e se desenvolve certa ambiguidade nesses filmes.” O professor da USP disse que a escola realista voltou a ganhar força nos últimos 20 anos.

O tempo no cinema
Rubens Luís Ribeiro Machado Júnior, graduado em arquitetura e urbanismo, pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) e professor titular da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

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