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Saúde em primeiro plano

Médica criadora de série de TV estreia como diretora de longa-metragem sobre a pandemia

Helena Lemos Petta: potência do tema redirecionou sua carreira e virou tema de livro

Léo Ramos Chaves

A médica sanitarista Helena Lemos Petta começou a se interessar pela área da saúde aos 16 anos, quando assistiu ao filme A peste, versão adaptada da obra do escritor Albert Camus (1913-1960). O longa-metragem conta a história de um médico que tenta conter uma epidemia que assola a cidade de Orã, na Argélia. “Fiquei encantada com a importância da saúde coletiva e dos profissionais de saúde para aquela comunidade e, de certa forma, a potência do tema quando retratado numa produção audiovisual”, recorda Petta, que desde 2009 tem se dedicado à criação de séries de televisão e mais recentemente ao cinema, sempre com abordagem de temas relacionados à saúde pública.

Prestes a lançar o documentário Quando falta o ar, cuja direção divide com a irmã, a atriz Ana Petta, na obra a sanitarista paulista reúne histórias sobre a atual pandemia, em diferentes regiões do Brasil. “Fomos atrás de personagens que estiveram na linha de frente no atendimento de saúde, evidenciando o papel essencial das mulheres nesse enfrentamento”, explica Petta. As filmagens, que ocorreram nos meses de setembro e dezembro de 2020, acompanharam o trabalho de diferentes profissionais. Entre elas havia uma médica de família em um presídio em Salvador, Bahia, e outra da etnia Baniwa que trabalha em comunidades ribeirinhas na cidade de Castanhal, no Pará.

O documentário aborda também o cotidiano de uma unidade básica de saúde (UBS) no Morro da Conceição, no Recife, Pernambuco, e de unidades de terapia intensiva do Hospital das Clínicas, em São Paulo. “Em geral, as UTIs são bastante estereotipadas nas séries e filmes, os profissionais aparecem sempre correndo contra o tempo”, avalia Petta, que procurou evidenciar uma rotina menos frenética. “Há o cuidado da enfermagem, de dar banho no paciente que está no leito, de fazer a barba ou mesmo uma trança no cabelo”, explica. O lançamento está previsto para o final deste ano.

ReproduçãoGraduada em medicina pela Santa Casa de São Paulo, durante a residência médica na área de infectologia, em 2008, Petta começou a trabalhar na UBS do Jardim Santa Lúcia, em Campinas. Foi quando percebeu o potencial dramático das histórias que acompanhava e que, mais tarde, seriam roteirizadas na série Unidade básica, exibida no canal Universal TV, disponível também em streaming. “Conversando com minha irmã, que na época atuava em uma série sobre o cotidiano de uma delegacia de polícia de São Paulo, tivemos a ideia de produzir algo semelhante no campo da saúde coletiva”, recorda Petta, que cursou o mestrado em saúde pública na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Partiram, então, para as entrevistas com médicos, enfermeiros e agentes comunitários. “Quisemos enfatizar que esse é um trabalho de equipe”, completa.

O protagonista da série, dr. Paulo, interpretado pelo ator Caco Ciocler, é um médico que vai além das consultas e prescrições. “Como as UBS estão próximas do lugar em que as pessoas moram, o cotidiano dos pacientes está muito presente”, diz. Na primeira temporada, os episódios baseiam-se em tópicos da saúde coletiva. Na segunda, destacam-se temas como racismo, direito reprodutivo das mulheres, feminicídio e transfobia. O foco da terceira temporada, prevista para estrear no primeiro semestre de 2022, será a pandemia de Covid-19.

Foi a partir da experiência de concepção e produção da série, criada em parceria com o roteirista Newton Cannito, que Petta desenvolveu seu doutorado na área de medicina preventiva, concluído em 2018 na Universidade de São Paulo (USP). “Na tese, analiso o potencial da grande mídia na comunicação sobre saúde coletiva e atenção primária”, conta. O estudo resultou no livro Unidade Básica: A saúde pública na TV (Hucitec, 2020).

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