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Arquivologia

Acervos de áudio preservam de sons da natureza às histórias do futebol

Gravações guardadas em museus, universidades e coleções particulares ampliam possibilidades de documentação

Um dos equipamentos utilizados por pesquisadores da USP para ouvir o acervo da sonoplasta Tunica Teixeira

Paulo Assis/Projeto Arquivos Sonoros de Teatro/Divulgação

Ao longo do filme O agente secreto (2025), de Kleber Mendonça Filho, duas jovens pesquisadoras escutam áudios do acervo pessoal de Elza, doado por sua família a uma universidade no Rio de Janeiro. Interpretada por Maria Fernanda Cândido, a personagem procurava ajudar cidadãos perseguidos pela ditadura militar (1964-1985) como Armando, vivido por Wagner Moura. Na trama, esses registros sonoros funcionam como elo entre o passado – ambientado nos anos 1970, sobretudo na cidade do Recife (PE) – e o tempo presente, evocando a importância da preservação da memória, um dos temas centrais do longa-metragem.

Na vida real, os arquivos de áudio inspiram pesquisas. É o caso do projeto sobre a construção da memória nos esportes e a história oral no Brasil, que abrangeu o período de 1960 a 1990. O estudo foi desenvolvido entre 2022 e 2024, com apoio da FAPESP, pelo historiador Bernardo Buarque de Hollanda, atualmente professor da Fundação Getulio Vargas, no Rio de Janeiro. Ele investigou o acervo do Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Segundo o pesquisador, o MIS carioca foi inaugurado em 1965, durante o governo de Carlos Lacerda (1914-1977), no antigo estado da Guanabara, em uma das últimas obras de sua gestão. “Na época, o pesquisador Ricardo Cravo Albin, que dirigiu a instituição entre 1965 e 1971, idealizou a série Depoimentos para a posteridade, que até hoje é realizada pelo MIS-RJ. A princípio, ela era voltada à preservação da memória da música popular brasileira”, explica.

A partir de 1967, o projeto passou também a registrar relatos de esportistas, sobretudo do futebol. A série com atletas começou com Marcos Carneiro de Mendonça (1894-1988), primeiro goleiro da Seleção Brasileira que conquistou os campeonatos sul-americanos de 1919 e 1922. “Ele relembra episódios daquela época e usa termos em inglês, como corner [escanteio], evidenciando a influência da ascendência britânica do esporte sobre os jogadores daquele período”, destaca Hollanda.

Acervo MIS-RJDiscos lançados na década de 1960 pelo Museu da Imagem e do Som do Rio de JaneiroAcervo MIS-RJ

Anunciadas nos jornais, as gravações dos depoimentos atraíam público ao MIS-RJ principalmente nas décadas de 1960 e 1970, de acordo com o historiador. Na seara esportiva, entre os entrevistados por jornalistas como João Máximo e Nelson Rodrigues (1912-1980), figuravam atletas do futebol, a exemplo de Garrincha (1933-1983), e de outras modalidades, como a nadadora Maria Lenk (1915-2007), primeira brasileira a competir em Jogos Olímpicos, em 1932.

De acordo com o pesquisador, na década de 1960, o MIS-RJ chegou a produzir discos com entrevistas da série Depoimentos para a posteridade. Comercializados em bancas de jornal, os long plays veicularam relatos de nomes como Pelé (1940-2022) e João Saldanha (1917-1990), jornalista e comentarista esportivo que foi técnico do Botafogo nos anos 1960 e teve uma passagem como treinador da Seleção Brasileira.

Fundado em 1970, o MIS paulista realizaria mais tarde iniciativa parecida: o projeto Memória do futebol. Entre 1981 e 1984, durante a gestão do fotógrafo e historiador Boris Kossoy, foram entrevistadas cerca de 40 personalidades ligadas ao esporte nas categorias profissional e amador. Entre eles estavam, por exemplo, Roberto Rivellino, atacante da Seleção Brasileira, e o jornalista Juca Kfouri.

Para o time de entrevistadores, Kossoy convocou pesquisadores ligados à Universidade de São Paulo (USP), a exemplo dos historiadores José Sebastião Witter (1933-2014), que era também diretor do Arquivo Público do Estado de São Paulo, e José Carlos Sebe Bom Meihy. O sociólogo Sergio Miceli (1945-2025) participou de algumas gravações. “Eles figuravam entre os poucos estudiosos do futebol na época, tema que era desprezado pela academia”, diz Hollanda.

Os arquivos sonoros de teatro estão no centro da pesquisa coordenada por Rafaella Uhiara, do Programa de Pós-graduação em Artes Cênicas da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. No momento, uma das frentes do projeto, que tem apoio da FAPESP, analisa o acervo da sonoplasta Maria Antonia Ferreira Teixeira (1949-2019), conhecida como Tunica Teixeira.

Autoria Desconhecida. Acervo Museu da Imagem e do Som de São PauloO jornalista Juca Kfouri durante depoimento ao MIS-SP, em 1982Autoria Desconhecida. Acervo Museu da Imagem e do Som de São Paulo

Ao longo de cinco décadas, a sonoplasta trabalhou em espetáculos de diretores como Antunes Filho (1929-2019), Fauzi Arap (1938-2013) e Antônio Abujamra (1932-2015). “Na história do teatro brasileiro muito se fala sobre atores, dramaturgos e diretores, mas raramente a respeito dos profissionais da técnica”, comenta Uhiara. “Outro aspecto dessa história é o fato de Tunica ter atuado em um campo predominantemente masculino.”

Pertencente ao Centro de Documentação de Teatro (CDT) da USP, o acervo da sonoplasta reúne cerca de 6.200 gravações, como 1.500 discos de vinil e 300 fitas magnéticas de rolo. Além disso, a coleção abriga livros, filmes e anotações, entre outros itens. “Pela natureza dos suportes, dá para acompanhar as mudanças tecnológicas que ela experimentou ao longo da carreira”, observa Uhiara.

Para manejar o material, o grupo montou na universidade, em 2023, um laboratório de digitalização de arquivos sonoros. “Um dos grandes desafios é encontrar equipamentos para reproduzir os áudios, já que esses suportes, como as fitas DAT [Digital Audio Tape], estão obsoletos”, diz Elizabeth Azevedo, vice-coordenadora do CDT-USP. “O trabalho realizado com o acervo da Tunica vem ajudando a criar uma infraestrutura que poderá ser aplicada a outros conjuntos documentais do CDT, como o da produtora teatral e atriz Ruth Escobar [1935-2017].”

Outro desdobramento do projeto é a elaboração de um dicionário dedicado aos sons da cena teatral, desenvolvido em parceria com Cesar Lignelli, professor da Universidade de Brasília (UnB). Prevista para ser finalizada em 2028, a obra está sendo escrita por cerca de 90 pesquisadores de 36 instituições de ensino superior das cinco regiões do país.

A ideia é produzir cerca de 450 verbetes. Um deles discorre sobre sonoplastia. “A definição do termo varia: ele costuma ser usado para designar todos os sons presentes em uma cena, como também para se referir a efeitos sonoros específicos, como o ranger de uma porta ou o som de um carro passando”, conta Lignelli. “Isso acontece com outras palavras do nosso campo de estudo. Organizar esse vocabulário é importante tanto para a pesquisa quanto para a catalogação de acervos sonoros.”

“No Brasil, não há uma percepção generalizada de que documentos de arquivo vão além do papel”, avalia o historiador e arquivista Marcelo Nogueira de Siqueira, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio). Ele é um dos organizadores do livro Ampliando a discussão em torno de documentos audiovisuais, iconográficos, sonoros e musicais (Edufba, 2016), resultado do trabalho de uma câmara técnica do Conselho Nacional de Arquivos (Conarq), órgão vinculado ao Arquivo Nacional.

Criada em 2014, a câmara busca estabelecer diretrizes e normas que orientem as instituições a inserir esse tipo de documento em seus planos de gestão arquivística. Naquele ano, formulou a Resolução nº 41 do Conarq. “A medida estabelece que os órgãos integrantes do sistema de arquivos do país devem incluir registros audiovisuais, iconográficos, sonoros e musicais, como partituras, em seus planos de gestão documental”, explica Siqueira, que também atua como coordenador de articulação de projetos institucionais do Arquivo Nacional. “Mas isso ainda não acontece de forma plena. Em muitas universidades e instituições federais, fotografias e registros sonoros costumam ficar sob responsabilidade da área de comunicação, como se fossem algo à parte.”

Antoninho Perri/SEC/UNICAMP - Retratos do Teatro (2013), de Bob Sousa | Antoninho Perri/SEC/UNICAMPA partir da esquerda, o ornitólogo Jacques Vielliard e a sonoplasta Tunica TeixeiraAntoninho Perri/SEC/UNICAMP - Retratos do Teatro (2013), de Bob Sousa | Antoninho Perri/SEC/UNICAMP

Os arquivos em áudio integram o campo dos estudos sonoros, uma área multidisciplinar que ganhou impulso internacional no início dos anos 2000, como informa Uhiara, da USP. O interesse científico pelas gravações, no entanto, é anterior a isso. Um dos pioneiros no Brasil foi o ornitólogo francês Jacques Vielliard (1944-2010). Após realizar quatro expedições pelo Brasil, ele ingressou como docente na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em 1978, e criou um laboratório de bioacústica naquela instituição de ensino.

Foi assim que deu início a uma das maiores coleções de sons de animais do mundo: o Arquivo Sonoro Tropical, inaugurado naquele ano. Com a morte do pesquisador, o espaço passou a se chamar Fonoteca Neotropical Jacques Vielliard (FNJV) e está vinculado ao Museu de Diversidade Biológica (MDBio-Unicamp). Atualmente, a coleção reúne quase 140 mil registros sonoros de animais como aves, anfíbios, mamíferos, répteis, peixes e invertebrados, que podem ser escutados no site da FNJV.

Além de digitalizar e disponibilizar os registros on-line, a equipe busca ampliar o acervo ao estimular o depósito de novos materiais e recuperar gravações antigas. “Às vezes, alguém grava um grilo cantando no quintal com o celular e nos envia. Mas também há registros que exigem entrar em brejos à noite, no meio da Amazônia, ou mesmo captar sons no fundo do mar com equipamentos especializados”, conta a bióloga Simone Dena, do MDBio e uma das curadoras da fonoteca.

Os arquivos da FNJV têm diversas aplicações científicas. “Por meio dos áudios, os pesquisadores conseguem estudar o comportamento animal, investigar processos evolutivos e até identificar novas espécies, já que cada uma possui vocalização própria. Temos registros de espécies que já foram extintas, como alguns sapos e aves. São sons que provavelmente não voltarão a ser ouvidos”, diz o biólogo Felipe Toledo, do Instituto de Biologia da Unicamp, que também é curador da fonoteca. “Além disso, artistas costumam utilizar os sons dos animais em obras musicais, teatrais e audiovisuais.”

Vozes de artistas como a da atriz alemã Marlene Dietrich (1901-1992) cantando a música Luar do sertão integram a Vozoteca, arquivo sonoro doado em 2013 pelo jornalista Luiz Ernesto Kawall (1927-2024) ao Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP. A coleção de áudios é composta por cerca de 12 mil itens, como discursos políticos, entrevistas, programas de rádio e televisão, declamações de poesia e registros musicais. Desses, por volta de 1.400 estão catalogados e podem ser consultados presencialmente. “Há registros raros, como um breve trecho da voz de Santos Dumont [1873-1932] e uma gravação de Mário de Andrade [1893-1945]”, destaca Dina Elisabete Uliana, supervisora técnica do serviço de arquivo do IEB.

Segundo Paulo José de Moura Palumbo, técnico do arquivo do IEB responsável pela digitalização do material, Kawall começou a colecionar vozes na década de 1960, quando trabalhou com Carlos Lacerda. Por sugestão do político, passou a guardar discursos registrados em discos. “Ao longo desse tempo, ele ampliou o acervo, inclusive com gravações que fazia de falas transmitidas por rádio e televisão. Sem contar os depoimentos de personalidades colhidos pelo próprio Kawall”, relata.

A socióloga Maria Aparecida de Moraes Silva, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), mantém em sua casa, nessa cidade do interior paulista, cerca de 800 fitas cassete. Nelas estão guardadas quatro décadas de pesquisa. Ao longo desse período, Silva registrou o cotidiano de cortadores de cana, sobretudo migrantes nordestinos e trabalhadores oriundos do Vale do Jequitinhonha (MG); além de assentados da reforma agrária e pequenos produtores que permaneceram na terra.

As gravações foram feitas principalmente na região de Ribeirão Preto (SP), hoje um dos principais polos do agronegócio brasileiro, além de povoados rurais em Minas Gerais, Maranhão e Piauí. “Com a mecanização acelerada da colheita da cana e outras mudanças tecnológicas no campo, muitos desses trabalhadores desapareceram da paisagem da região”, afirma a pesquisadora.

Nos últimos anos, Silva digitalizou os áudios para que não se deteriorassem. Desde 2022, estão disponíveis no site Vozes e memórias. “O repositório tem um sentido acadêmico, mas também político e social: dar visibilidade às experiências de trabalhadores cujas histórias raramente aparecem em um cenário dominado pelo agronegócio”, esclarece. “Ele surgiu da preocupação em evitar o que chamo de ‘memoricídio’, isto é, o apagamento da memória dessas populações.”

A reportagem acima foi publicada com o título “Lembranças sonoras” na edição impressa nº 362, de abril de 2026.

Projetos
1.
A construção da memória nos esportes e a história oral no Brasil: Um estudo das coleções sonoras do Museu da Imagem e do Som em São Paulo e no Rio de Janeiro (anos 1960-1990) (nº 22/04786-8); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Bernardo Borges Buarque de Hollanda (FGV-SP); Investimento R$ 32.073,14.
2. Arquivos sonoros de teatro: Implementação de uma base para a pesquisa da dimensão sonora em artes cênicas (nº 22/15032-4); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Jovens Pesquisadores; Pesquisadora responsável Rafaella Uhiara (USP); Investimento R$ 479.464,88.

Artigos científicos
WEGNER, A. e UHIARA, R. (org.). Som em cena. Revista Brasileira de Estudos da Presença. v. 14, n. 4. 2024.
DENA. S. et al. How much are we losing in not depositing anuran sound recordings in scientific collections? Bioacoustics. v. 29, n. 5, p. 590-601. 2020.

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