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Andar com as próprias pernas

Projetos nacionais de vacinas correm para começar os testes clínicos no próximo ano

Linha de produção de vacinas de Bio-Manguinhos

Léo Ramos Chaves

“O Brasil tem de saber andar mais rápido e com as próprias pernas, principalmente em casos de pandemias”, afirmou o imunologista Ricardo Gazzinelli, da Fundação Oswaldo Cuz (Fiocruz) de Belo Horizonte e da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), em um debate no canal a cabo GloboNews no dia 14 de junho. Ele é coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Vacinas e lidera um dos projetos nacionais de vacinas, no qual começou a trabalhar com sua equipe em fevereiro, ao ver o avanço rápido da pandemia. “Não precisamos viver apenas de importar tecnologias”, diz.

Gazzinelli conta que já implantou um gene de coronavírus em um vírus de influenza atenuado, que deve ingressar nas células humanas e, se funcionar como esperado, teria uma dupla função, ao induzir a produção de anticorpos contra a Covid-19 e a própria influenza. Em colaboração com colegas do Butantan e do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, ele espera começar os testes de segurança e eficácia em camundongos e coelhos no segundo semestre deste ano, a serem viabilizados com cerca de R$ 3 milhões do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), R$ 400 mil da Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (Fapemig) e outros R$ 400 mil da FAPESP.

“Se os testes pré-clínicos derem certo e conseguirmos outros financiamentos, poderemos começar as avaliações clínicas no começo de 2021”, diz ele. Sua meta é produzir uma vacina de aplicação nasal, que seja capaz de produzir imunoglobulinas do tipo A (IgA) e do tipo G (IgG). “É uma forma de aplicação melhor que a intramuscular para induzir imunidade robusta na mucosa nasal, porta de entrada do coronavírus”, argumenta.

O imunologista Jorge Kalil, coordenador do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (InCor) da Faculdade de Medicina da USP e do Instituto de Investigação em Imunologia, sediado no InCor, um dos Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) apoiados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela FAPESP, por sua vez, recebeu R$ 4,5 milhões do MCTI para trabalhar em seu projeto de vacina.

Com sua equipe, ele seleciona proteínas do coronavírus que poderiam ser os melhores alvos de vacina. “É um trabalho árduo”, diz. Segundo ele, o gene responsável pela produção da proteína viral poderia ser implantado em vários tipos de vetores e estimular a produção de imunoglobulinas A e G e a ação de células de defesa, como os linfócitos T helper e citotóxicos, capazes de eliminar as células infectadas. Como Gazzinelli, Kalil pretende começar os testes em modelos animais ainda neste ano e os clínicos no próximo.

No Instituto de Ciências Biomédicas da USP, também com apoio da FAPESP, uma equipe coordenada pelo também biólogo Luis Carlos Ferreira se propõe a construir vacinas com nanopartículas, de acordo com a organização de antígenos de um vírus.

No Rio de Janeiro, uma equipe do Bio-Manguinhos selecionou, por modelagem computacional, uma proteína do Sars-CoV-2 com alto potencial de gerar anticorpos, que já foi sintetizada quimicamente e aprovada em testes em Covid-19, segundo Maurício Zuma, diretor do instituto. Segundo ele, a formulação está pronta e os testes em animais dependem “de uma adequação dos requisitos de biossegurança da área onde serão realizados, que ocorrerá em breve”.

Projetos
1. Mecanismos imunológicos de resistência e patogênese da malária (nº 16/23618-8); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Ricardo Tostes Gazzinelli (USP); Investimento (extensão para projeto Covid-19) R$ 400.000,00.
2. Mapeamento de epítopos do vírus Sars-CoV-2 para linfócitos T e do receptor da proteína spike para linfócitos B (nº 20/05256-7); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Jorge Elias Kalil Filho (USP); Investimento R$ 190.000,00.
3. Desenvolvimento de vacina anti-Sars-CoV-2 utilizando VLPs (nº 20/05146-7); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador principal Gustavo Cabral de Miranda (USP); Investimento R$ 175.600,00.
4. Desenvolvimento de nanovacinas proteicas que se autoestruturam contra o Sars-CoV-2 (nº 20/05204-7); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisador responsável Luis Carlos de Souza Ferreira (USP); Investimento R$ 158.557,50.

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