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Pesquisa na quarentena

Fernando Carvall“Oportunidade para repensarmos o modo como vivemos”

A crise mudou a visão do trabalho intelectual em casa. Havia computadores, mas não ambiente físico nem preparo para esse tipo de atividade. As outras pessoas interrompiam a toda hora, achavam que você estava vagabundeando e não trabalhando.

Não é o meu caso. Trabalho em casa desde o doutorado, na Alemanha, na década de 1980. Na universidade [Federal do Pará], montei minha sala, mas a todo momento tinha de parar para dar atenção aos alunos ou aos colegas. Seis meses depois, voltei a trabalhar em casa.

Estou com uma carga de trabalho extremamente estimulante. Em novembro de 2019 saíram os dados totais do Censo Agropecuário 2017, fundamentais para minhas análises sobre a dinâmica regional na Amazônia. Já mandei um artigo para uma revista, outro foi aprovado [para publicação] e estou terminando um terceiro.

Os dados e análises a partir do Censo estão sendo úteis nos relatórios do SPA [Science Panel for the Amazon, da Organização das Nações Unidas], para o qual fui convidado em março. As reuniões são virtuais e têm funcionado bem. Estamos preparando um relatório que deve ser o estado da arte do conhecimento sobre a Amazônia, para fortalecermos o diálogo mundial sobre essa região.

Estou usando quase todo meu tempo nas análises do Censo e do SPA, somando o trabalho com outros professores na manutenção do nosso grupo de pesquisa, o GP-DadesaNaea [Grupo de Pesquisa Dinâmica Agrária e Desenvolvimento Sustentável na Amazônia do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da UFPA]. Mesmo sem aulas, queremos manter os alunos mobilizados.

Francisco de Assis Costa é professor e pesquisador da Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém, e membro do Science Panel for the Amazon, da Sustainable Development Network (SDSN), ligado à ONU.

Leia a versão completa do depoimento publicada online

Depoimento concedido a Carlos Fioravanti

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Fernando Carvall“À noite, acompanho conferências médicas sobre Covid-19”

Como sou do Conselho Deliberativo do Hospital das Clínicas [da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – HC-FM-USP] e coordeno a pediatria clínica do ICr [Instituto da Criança e do Adolescente, uma das unidades do HC], estou em contato direto com as equipes médicas, mesmo sem sair de casa.

A Covid-19 acomete pouco as crianças, mas já tivemos 53 casos. Quando encontramos alguma criança ou adolescente com sintomas de Covid-19, colocamos em uma ala reservada do instituto. Se deu positivo, vai para a enfermaria do HC.

Duas vezes por dia vejo os dados dos pacientes que entraram e saíram. Converso o tempo todo com os médicos para discutir os casos mais graves e complexos. Os pacientes crônicos estão sendo atendidos por telefone. Quando algum deles não está bem, pedimos para ir ao instituto para ser mais bem avaliado e fazer exames.

À noite tenho assistido a lives [apresentações ao vivo] e conferências sobre Covid-19 e imunologia clínica. Hoje [25 de junho], tenho duas, uma do Children’s Hospital of Philadelphia[dos Estados Unidos] e outra de um pesquisador do ICB [Instituto de Ciências Biomédicas] da USP.

Tenho uma dona de casa, Alzenir Reis, que está comigo há 25 anos e morando aqui nesses tempos. Minha filha Maria Clara é historiadora e professora da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará, em Marabá, mas está aqui desde o começo de maio. Minha outra filha Anna Dulce é musicoterapeuta e está na casa dela. Ela é voluntária no Instituto Central do HC e todas as tardes ajuda nas altas dos pacientes.

A pediatra Magda Carneiro-Sampaio é professora do Departamento de Pediatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e vice-presidente do Conselho Diretor do Instituto da Criança e do Adolescente (ICr) do Hospital das Clínicas da FM-USP.

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Depoimento concedido a Carlos Fioravanti

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Fernando Carvall“Trabalho mais horas, mas não estou mais eficiente”

Uma coisa boa nesta quarentena foi estar mais próximo dos meus filhos. Agora vejo o quanto estava distante deles.

Algumas pessoas dizem que estão mais eficientes. Eu trabalho mais horas, mas não acho que esteja mais eficiente. Participo de muitos comitês, subcomitês, webinars por plataformas virtuais. Funciona muito bem, qualquer um pode fazer perguntas a qualquer hora pelo bate-papo.

Pela universidade estou finalizando artigos, orientando alunos e escrevendo projetos. Não podemos ainda voltar ao laboratório. É muita responsabilidade autorizar a volta dos estudantes.

Queremos usar grafeno para fazer um sensor para diagnóstico utilizando o conhecimento que temos na área de fotônica com materiais bidimensionais. A Covid-19 vai longe e podem vir outros vírus. Quanto mais maneiras de diagnosticar que sejam rápidas, eficientes e de preferência baratas, melhor.

Quase todos os potenciais clientes da minha empresa, a DreamTech, pararam de trabalhar durante a pandemia. Mas temos projetos com duas empresas na área de tintas. Em grafeno e tecnologia de materiais, a solução nunca está pronta, ela tem que ser desenhada sob medida.

Também sou cantor lírico, tinha ensaios todas as quintas-feiras com o pianista Ricardo Ballestero – professor da Universidade de São Paulo –, criando uma teoria de como atualizar a linguagem dos concertos. Como ser clássico, erudito, e que alguém com 17 ou 25 anos possa curtir de forma moderna? Mas o projeto foi interrompido pela quarentena.

Tem um problema tecnológico que é o atraso, o delay. Se uma rede de transmissão em alta definição permitisse que ele fosse constante, eu conseguiria fazer um concerto com outra pessoa. É um desafio tecnológico e científico.

Thoroh de Souza é pesquisador do Centro de Pesquisas Avançadas em Grafeno (MackGraphe), Nanomateriais e Nanotecnologias da Universidade Presbiteriana Mackenzie e cantor lírico.

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Depoimento concedido a Maria Guimarães

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Fernando Carvall“Me preocupo com os Palikur da mesma forma que me preocupo com minha família”

Entre nós, ocorre uma separação marcada entre o trabalho e a vida pessoal. Com a pandemia, passamos a viver um momento no qual essas duas dimensões estão misturadas. Temos a falsa sensação de que estamos trabalhando menos,mas isso tem a ver com uma valorização excessiva das tarefas intelectuais. É como se o trabalho físico não fosse considerado exatamente trabalho. Precisamos reelaborar muitas atitudes na nossa vida, uma delas é essa ideia que temos do trabalho. No plano profissional, a pandemia me agarrou pelo pé. Tinha conseguido um afastamento da Unicamp para realizar um estágio de pesquisa na Universidade de Berkeley, na Califórnia. Desenvolveria mais um aspecto das minhas pesquisas feitas entre os Palikur, povo que vive na região da fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa, no extremo norte do Amapá. Iria investigar a intervenção da fronteira na vida dessa população a partir de um paralelo com os povos indígenas que estão na fronteira entre o México e os Estados Unidos. De março para cá, as formas de lidar com a quarentena foram variando. No começo, tentei realizar parte da pesquisa que faria em Berkeley aqui. Mas não é a mesma coisa. Além de não estar no ambiente com os recursos necessários para a pesquisa, o mundo estava desabando e eu não pude prosseguir como se nada estivesse acontecendo. Perdi familiares para a Covid e me agoniava com os números crescentes de mortes entre os indígenas. Me preocupo com os Palikur da mesma forma que me preocupo com minha família, porque eles são parte da minha família. Por outro lado, me mantive na Comissão de Graduação do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas [IFCH] da Unicamp tentando colaborar no debate sobre as melhores formas de prosseguir com as atividades letivas, no primeiro semestre.

Artionka Capiberibe é professora do Departamento de Antropologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

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Depoimento concedido a Christina Queiroz

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