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Pesquisa na quarentena

“Será uma experiência universitária muito diferente do que sonhei quando me candidatei”

A estudante de engenharia Juliana Estradioto iniciou remotamente o curso em uma universidade norte-americana e agora busca uma maneira de chegar aos Estados Unidos

As aulas em universidade norte-americana aconteceram remotamente a partir de Osório, no interior gaúcho

Ana Davoglio

Fiz o processo de candidatura para a graduação em universidades norte-americanas no fim de 2019. Como eu estava preparada para começar a faculdade, também prestei vestibular e entrei na UFRGS [Universidade Federal do Rio Grande do Sul], em engenharia de materiais. Planejei cursar pelo menos um semestre aqui – se fosse aceita nos Estados Unidos, começaria lá em setembro conforme o calendário letivo do hemisfério Norte. Mas só tive uma semana e meia de aula, e a pandemia bateu na porta. Tudo parou e ficamos sem direcionamento sobre ensino remoto até quase a metade do ano. Então cancelei a matrícula.

Nos Estados Unidos, o calendário foi mantido apesar da pandemia, e em março recebi a notícia de ter sido aceita na Universidade Northwestern, no estado de Illinois, uma das 10 melhores daquele país. Estava entre as minhas favoritas porque é uma universidade muito forte em comunicação e jornalismo, uma área que tem me interessado muito. A Northwestern não tem um currículo básico, somos incentivados a explorar assuntos diferentes. Escolhi um programa que tem poucos alunos e me dará dois diplomas em quatro ou cinco anos: um em estudos da comunicação e outro em engenharia.

Nessa mesma época a pandemia também chegou lá. Os alunos precisaram ir para casa e as atividades passaram a acontecer remotamente. Depois das férias habituais em junho e julho, estava programado se iniciarem atividades híbridas em setembro. Mas não foi possível e tudo permaneceu remoto.

Eu não poderia ter ido mesmo que houvesse atividades presenciais, porque as embaixadas e os consulados dos Estados Unidos no Brasil estão fechados desde março. Mas agora minha faculdade anunciou que a partir de janeiro, que será meu segundo trimestre, as atividades passarão a ser parcialmente presenciais. Precisarei estar lá, inclusive porque posterguei algumas disciplinas de laboratório e prototipagem de engenharia, que necessitam de infraestrutura.

Com visto de estudante também é possível fazer estágios de verão, no meio do ano, mas é preciso ter entrado no país com alguma antecedência para regularizar a situação e conseguir um desses estágios. Mais um motivo para eu precisar viajar em janeiro. Ainda não sei exatamente como, mas estou batalhando para concretizar esse sonho.

Tenho uma bolsa da universidade que cobre tudo – alimentação, acomodação e custos de educação. Vou morar no dormitório e terei uma colega de quarto americana. Há providências de distanciamento, nem todos os quartos estão ocupados e é proibido fazer aglomerações com mais de 10 pessoas. As aulas remotas são feitas no quarto. No semestre que terminou agora a universidade ficou com uma taxa de transmissão de coronavírus de 1%, considerada bem baixa. Na chegada é preciso fazer um teste, que a universidade providencia. Será uma experiência universitária muito diferente do que sonhei quando me candidatei.

Estou fazendo engenharia química e biológica – continuarei trabalhando com microbiologia e biomateriais, que é a área pela qual me apaixonei. Na engenharia existem cursos obrigatórios, como cálculo, mas também somos obrigados a fazer sete ou oito disciplinas fora das áreas de Stem [ciência, tecnologia, engenharia e matemática]. Na parte de comunicação, quero estudar mídias sociais e comunicação efetiva. Neste semestre fiz uma cadeira de comunicação sobre mudanças climáticas.

Apesar de estar na minha cidade no Rio Grande do Sul, Osório, tive uma carga horária completa na Northwestern, do fim da manhã até a noite – por causa do fuso horário. Mesmo evitando disciplinas mais práticas, fiz laboratório remoto em química. Tinha bastante simulação com softwares e vídeo, além de análise de dados. Foi um curso voltado para estimular a pensar, formular hipóteses, entender como funciona o método científico. Também fizemos o que a professora chamava de “experimentos na cozinha”, de forma caseira. Claro que não tem o rigor científico do laboratório, mas dá para ver reações na vida real.

Ganhei uma bolsa de pesquisa específica para alunos de engenharia; foram selecionados 16 estudantes entre 400 inscritos para ganhar US$ 4 mil. Além disso, também quero fazer pesquisa na área de educação e comunicação nas áreas Stem.

Estou muito animada para aprender coisas diferentes, sair da bolha. Os contatos culturais também são importantes. Uma das coisas que mais me marcaram foi ter colegas da Malásia, da Mongólia, da China e de várias regiões dos Estados Unidos.

Também estou trabalhando em ONGs [organizações não governamentais] brasileiras que buscam levar educação científica a jovens. Devo continuar essa atividade, é muito interessante. Tenho consumido muita divulgação científica durante a pandemia e quero estudar comunicação por causa disso. Nem sempre atingimos as pessoas tanto quanto seria necessário, e por isso proliferam os movimentos anticientíficos – como aqueles que negam as mudanças climáticas ou espalham notícias falsas sobre vacinas.

Atuo principalmente na Abric, a Associação Brasileira de Incentivo à Ciência. Durante a pandemia, fizemos um projeto chamado 30 dias de ciência, para alunos que não tinham experiência com pesquisa científica aprenderem sobre o método e serem incentivados a desenvolver um projeto. Todos os dias tínhamos alguma atividade com a intenção de valorizar a ciência feita aqui e tornar mais democrático o acesso a ela. Teremos a segunda edição em fevereiro. Os alunos gostaram muito e alguns deles já estão participando de congressos e eventos, publicando trabalhos. É algo grandioso para nós.

Também ajudo a organizar a Feira Brasileira de Jovens Cientistas, que antes mesmo da pandemia foi idealizada em formato virtual. Pensamos nos jovens que não têm recursos financeiros para sair de suas localidades e participar de um congresso. Eu mesma já precisei desistir de ir a eventos por falta de apoio. Tivemos palestras com pesquisadores, oficinas para ajudar os estudantes a melhorar seus projetos, como de análise de dados e prototipagem, bioinformática, comunicação científica, técnicas de apresentação e de elaboração de pôster. Os jovens que tinham projetos fizeram apresentações.

Durante a feira tivemos uma maratona de inovação para promover interação. Os momentos mais marcantes que tive em feiras de ciência foram os contatos com outros jovens. E, se não é presencial, como é possível conversar com quem está no estande ou no painel ao lado? Pensamos em maneiras de não ser apenas uma série de lives: promover conexão, colaboração, fazer novos amigos. Teve gente que se conheceu assim e começou a trabalhar em conjunto, deu bastante certo.

Para uma primeira edição, tivemos mais de 150 mil visualizações em nosso site. As únicas maneiras de transformar este país serão por meio da educação e da ciência, então estamos levando a possibilidade para quem não tem privilégios. É muito empolgante nos aproximarmos desse sonho.

 

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