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ARQUEOLOGIA

Uma criança com sífilis, há 9.400 anos

Criança que viveu na região central de Minas Gerais tinha lesões nos ossos e nos dentes, sinais de formas graves da infecção congênita

Lesões em ossos indicam sífilis congênita em criança exumada em Lagoa Santa, Minas Gerais

Rodrigo Oliveira / USP

Há cerca de 10 mil anos, vivendo em bandos de aproximadamente 25 pessoas que caçavam e coletavam vegetais, jovens do atual município de Matozinhos, vizinho a Belo Horizonte, em Minas Gerais, se uniam em casamentos com outros grupos, mas, aparentemente, não estavam livres de doenças transmitidas sexualmente como a sífilis. A análise do esqueleto de uma criança de 4 anos com deformações nos ossos e dentes indicou que ela deve ter tido uma forma severa, hoje bastante rara, de sífilis congênita, infecção causada pela bactéria Treponema pallidum e nesse caso contraída no útero da mãe, segundo artigo publicado em 17 de novembro na revista International Journal of Osteoarcheology.

“Como as crianças sem tratamento geralmente morrem no primeiro ano de vida, essa, que chegou aos 4 anos, foi uma sobrevivente”, admira-se o arqueólogo Rodrigo Oliveira, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP). Segundo ele, as lesões nos ossos da perna e do braço esquerdo indicavam que a criança deve ter crescido pouco e morrido com o tamanho aproximado de uma de 1,5 ano. “As suturas cranianas, conexões entre os ossos que formam a calota, se fundiram antes do esperado, limitando o crescimento normal da criança”, observou.

Esse é o esqueleto mais antigo de uma pessoa com sinais de sífilis, até agora diagnosticada em adultos enterrados há 6.300 anos em sambaquis – depósitos de conchas descartadas e local de rituais funerários de populações da costa sudeste do Brasil, como um grupo do IB-USP argumenta em um artigo publicado em setembro de 2021 na Chungara Revista de Antropología Chilena, com base na análise de 768 esqueletos.

Rodrigo Oliveira / USPA infecção causada pela bactéria Treponema pallidum pode ter causado deformações nos dentesRodrigo Oliveira / USP

Formado em odontologia, Oliveira, trabalhando com Walter Neves e Pedro da Glória, também do IB-USP, notou em 2016 a alta prevalência de cáries entre os moradores da região de Lagoa Santa entre 10 mil e 8 mil anos atrás – era uma provável consequência de uma dieta com maior proporção de carboidratos que a de outros povos caçadores e coletores. Os dentes da criança, porém, tinham esmalte mais fino e falho e muito mais cáries do que o esperado.

Sua suspeita de que poderia ser sífilis se fortaleceu quando ele identificou outro sintoma típico da doença em estágio avançado: o nariz achatado, sem cartilagens e ossos, que haviam provavelmente sido deformados pelas bactérias causadoras da doença.

“Não é possível fechar o diagnóstico apenas com base nas deformações ósseas”, ressalta Oliveira. Em pessoas vivas se avaliam outros sinais e sintomas típicos, como um defeito no nervo auditivo e descamações na pele, e se examinam anticorpos do sangue contra T. pallidum. Testes genéticos desenvolvidos recentemente conseguem identificar a doença em fósseis por meio do DNA do patógeno preservado nos ossos, mas nesse caso não foi possível porque todo o material genético aparentemente se deteriorou.

Oliveira concluiu de modo indireto que a criança com sífilis – não se sabe se era menino ou menina – deve ter vivido há pelo menos 9.400 anos porque essa foi a idade de um adulto enterrado ao lado dela. A data foi estimada por meio da datação por carbono 14. “A segunda cova interceptou a cova da criança, removendo o seu braço direito”, diz ele.

Rodrigo Oliveira / USPAlterações no fêmur sugerem que a criança de 4 anos deve ter morrido com o tamanho de uma de 1,5 anoRodrigo Oliveira / USP

O arqueólogo Luis Pezo-Lanfranco, da Universidade Autônoma de Barcelona, na Espanha, também formado em odontologia, que não participou do estudo, concorda que, além dos dentes, o nariz achatado é forte indício de que a criança realmente teria sífilis congênita. “As deformações ósseas poderiam ser causadas por outras doenças, como raquitismo, escorbuto ou uma infecção inespecífica nos ossos”, comenta.

Segundo ele, não pode ser descartada a hipótese de que uma doença genética possa ter afetado os dentes. “Mesmo assim, a combinação de todos esses sinais em uma única pessoa é um indicativo muito forte de que a criança tinha sífilis congênita”, argumenta.

No século XIX, no Brasil, a sífilis era uma das causas da alta mortalidade de crianças. O cenário mudou a partir de 1945, com a penicilina, o primeiro medicamento bastante eficaz contra a doença. Mesmo com um tratamento simples – geralmente bastam duas injeções –, a sífilis está novamente em alta. A cada ano, no mundo, cerca de 6 milhões de pessoas de 15 a 49 anos contraem a infecção causada por T. pallidum.

Artigo científico
FILIPPINI, J. et al. Estudio regional sistemático de treponematosis em conchales (sambaquis) pré-colombianos de Brasil. Chungará (Arica). v. 51, n. 3, p. 403-25. set. 2021.
OLIVEIRA, R.; STRAUSS, A.; MURRIETA, R.; CASTRO, C.; MATIOLI, A. An early holocene case of congenital syphilis in South America. International Journal of Osteoarcheology. On-line. 17 nov. 2022.

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