Resenhas

O filósofo no jornal

Notícias no espelho | José Arthur Giannotti | PubliFolha, 280 páginas, R$ 39,90

“O exercício da filosofia consiste no aprendizado de ver através de óculos determinados até que se revelem os limites dessa visão e surja a necessidade de mudar de lentes”
(Giannotti, 2011, p. 193)

Os ensaios de Notícias no espelho tratam do juízo estético, do juízo moral e do juízo político, explicou o autor, José Arthur Giannotti, durante o debate que precedeu o lançamento do livro no auditório da Folha de S. Paulo, na terça, 20 de setembro. Em termos editoriais stricto sensu, esses 35 ensaios – um deles inédito e 34 selecionados dentre 85 artigos publicados no caderno Mais! da Folha, de 2000 a 2010 – organizam-se na verdade em cinco capítulos, sob os títulos “Em busca do sentido da arte”, “Conjunturas”, “Questões morais”, “Modos de filosofar” e, por último, “Em volta da política”. Mas a depender do gosto e das inclinações de cada leitor, é possível encontrar outras formas mais pessoais de reagrupar esses textos densos, boa parte deles escritos em linguagem de uma clareza gratificante e, em alguns casos, atravessados por inesperada ironia e humor. São textos que, na condição de “exercícios da prática filosófica na imprensa” ou “mastigações filosóficas a partir do hoje”, para tomar emprestadas expressões do próprio Giannotti no debate, parecem dotar as notícias tratadas de um outro volume e conformação. À força do pensamento crítico, elas ganham profundidade no reflexo do espelho filosófico, perspectiva e eixos fortes de articulação com visões de longo prazo, seja da ordenação política do mundo, da construção do conhecimento ou da produção da cultura, entre outros recortes possíveis.

Dessa forma, a um olhar jornalístico particularmente atento ao campo da divulgação científica parece lícito chegar ao final da leitura de Notícias no espelho tendo rearranjado para uso próprio os ensaios sob três tópicos: ciência, diálogos com filósofos seminais e conjunturas (coincidindo neste último com a escolha dos editores). A ciência faz sua primeira aparição em “Elogio à técnica” (p. 113), texto de 2007 em que Giannotti observa que “a oposição radical entre conhecimento e técnica, se já existiu, não mais existe, de sorte que interessa examinar o que se entende quando se fala do saber e do fazer desse ponto de vista”. E é exatamente a esse exame que ele procede, investindo contra visões maniqueístas ou ingênuas. “Não cabe menosprezar os perigos da tecnologia”, mas “esses perigos, no mínimo, são equiparáveis àqueles processos naturais em transformação, tais como erupções vulcânicas fantásticas, terremotos, tsunamis avassaladores e assim por diante”, ele diz, para propor em seguida que “é simplesmente ideológico imaginar que tudo que vem da natureza é bom”.

“É no seu uso, particularmente no seu uso social”, que conhecimento e técnica podem se tornar perigosos, segundo Giannotti. “Não existem dois planos separados, esse da tecnociência e aquele de seu emprego no contexto, quer da concorrência cruzada entre instituições privadas e estatais, quer no conflito entre as nações. São essas instituições particularizadas ou globalizadas que dirigem o mainstream do progresso das ciências e das técnicas.” Sem concessões, Giannotti leva longe seu olhar sobre o que conforma a liberdade de escolha na produção científica, desde o projeto de pesquisa. Se “saber mais e poder fazer mais sempre criaram vantagens no embate entre as nações”, foi claramente depois da Segunda Guerra Mundial que “esse processo de ganhar na margem” se converteu “numa luta de ganhar pela ampliação e pelo controle dessa margem”. A corrida pela fabricação da bomba atômica, diz, “não se resumiu a uma apropriação de teorias feitas, ela se abriu numa corrida vertiginosa para obter novos conhecimentos, somente disponíveis graças ao investimento de capitais fabulosos”.

Ele interroga “em que medida o circuito de capitais determina e é determinado pelo desenvolvimento do saber fazer”, lança um olhar para a transformação da guerrilha, por artes da associação entre o Estado e a indústria bélica norte-americanos, em tempos de paz, num inimigo mais importante que o inimigo externo, e pergunta se “a guerrilha não é antes de tudo a vontade de usar procedimentos elementares para emperrar a grande máquina do mundo cotidiano”. Por essas vias Giannotti vai conduzindo seu exame crítico até afirmar que “não tem mais sentido dizer que mesmo a produção da ciência pode ser feita para o bem ou para o mal. Ela progride pelo empuxo dos mais fortes politicamente, mas a cada passo adiante ela também abre poros nesse grande sistema, exibindo suas contradições”. Dialeticamente, ele propõe ao final: “A pergunta não consiste, então, no modo como se exploram as contradições para que uma nova forma de sociabilidade, menos predadora, possa pelo menos ser sonhada? E o sonho não é técnico”.

Há mais exercícios filosóficos sobre a ciência no notável ensaio “Feiticeiros do saber” (p. 118), em que Giannotti se debruça sobre o monopólio da invenção tecnológica como fonte proeminente do poder econômico das grandes corporações e dos Estados nacionais e sobre a ciência como força produtiva, como capital. “Como essa capacidade de inventar se caracteriza, quando se converte em fator crucial da concorrência capitalista? Primeiramente, ela se transforma em capital, na acepção mais simples da palavra, a saber, controle sobre o trabalho alheio”, diz, nesse texto de 2003. A tecnociência ainda é objeto do filósofo nas reflexões sobre a questão das células-tronco embrionárias dos ensaios “Decisão vital” (p. 142) e “Liberdade vigiada” (p. 150), ambos de 2008, e em “Fetiche da razão” (p. 219), de 2003, que é um entre vários outros textos nos quais Giannotti mobiliza todo seu arsenal crítico contra a contrafenomenologia da Escola de Frankfurt.

Aliás, no debate do lançamento de Notícias no espelho, Giannotti referiu-se a seu combate à fenomenologia e à antifenomenologia de Frankfurt ao comentar o ensaio inédito que abre o livro, “Sobre a imagem” (p. 19). Ali, lidando com o jogo do belo e do feio, investindo contra a noção asfixiante de mimese e a dupla conceitual “forma e conteúdo”, ele se empenha em tomar a imagem como um objeto neutro. Vale observar que é justamente este texto, elaborado originalmente para o livro e não para a Folha de S. Paulo, o mais difícil para os pouco íntimos da linguagem da filosofia e do juízo estético. Mas a estranheza, a sensação que ele produz de que há excesso de frieza na racionalidade filosófica serão desfeitas nos ensaios seguintes, até se dissolver por completo em “O malandro Satã” (p. 64), uma amostra bela e sutil de como o pensamento filosófico pode, sim, se unir à sensibilidade. A propósito, Giannotti declarou no auditório da Folha que busca escrever da maneira mais simples, mas o problema é que “a filosofia não se facilita. Ou se exerce a filosofia ou se faz coletânea de opiniões”. Dito de outro modo: “A filosofia não pode ser divulgada e é necessário que tenha alguma presença na vida pública”.

Resta pouco espaço para um breve comentário do que foi antes referido como diálogos com filósofos seminais e, por último, conjunturas. Assim, me atenho à exemplar clareza didática de “A questão do socialismo” (p. 91), completada por “Além de Marx” (p. 201) e por “O novo império” (p. 229). É fundamental lê-los se nos ocupa o pensamento o mundo contemporâneo com seus enigmas. Acrescento como indispensável “A primeira morte de Wittgenstein” (p. 187) e, num outro extremo, entre os vários textos em que Giannotti exerce sua crítica ferina contra os filósofos da Escola de Frankfurt, “Adorno sem ornamentos” (p. 194), título cujo jogo de palavras já antecipa o que virá ao longo do texto. Faço aqui um parêntese rápido, dentro da rubrica conjunturas, para a análise corajosa do terrorismo do presente que está em “A lógica ensandecida do terrorismo” (p. 100) e em “A ocultação do real” (p. 106), antes de encerrar com a carga sarcástica que o autor de Notícias no espelho despeja sobre a filosofia de Frankfurt. Veja-se: “A chamada Escola de Frankfurt se transformou em monumento; como tal, muitas vezes mais frequentada do que entendida. É natural que doutrinas que propõem revoluções ou mesmo reformas radicais se vejam tentadas por alguma espécie de messianismo, santificando seus heróis: são Stirner, são Marx, são Gramsci etc. Não há dúvida de que os frankfurtianos não atingiram tais picos, mas me parece que já são tratados como beatos, sendo que seus textos muitas vezes são lidos, principalmente pelos historiadores hagiógrafos, como a boa palavra revelada”.