HUMANIDADES

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O Brasil visto do sítio

Estudos sobre Monteiro Lobato fazem ressurgir a complexidade do escritor em todas as suas contradições

CARLOS HAAG | 50 Anos de FAPESP | MAIO 2012

 

Ilustração de 1936 de Belmonte para a turma do Sítio

Ilustração de 1936 de Belmonte para a turma do Sítio

Com grande precisão Monteiro Lobato (1882-1948) resumiu numa frase o credo de sua vida: “Um país se faz com homens e livros”. Ele tentou melhorar, modernizar e reunir, sem grande sucesso, este trio e por causa dessa mesma trinca amargou críticas ferozes, incompreensão e desilusão. Ele meteu o “narizinho” em todos os aspectos da sociedade brasileira com uma sabedoria digna de Dona Benta, atacando o conhecimento antiquado dos “sabugosas” e acertando o atraso nacional com um bodoque certeiro. Parecia ter tomado uma “pílula falante” e sua “torneirinha” e jorrava vitupérios contra os males nacionais. Foi, acima de tudo, um poço de contradições.

“Lobato é um pouco como todos nós, brasileiros. Ora assumindo posições polêmicas, ora se antecipando a seu tempo. Cresci lendo seus livros e muito de minha criatividade e liberdade de pensamentos devo a seus textos que levam à reflexão, ultrapassam o limite temporal. Ele era um brasileiro sob medida”, explica Marisa Lajolo, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Presbiteriana Mackenzie, vencedora do Prêmio Jabuti de 2009 por Monteiro Lobato: livro a livro, obra resultante do temático Monteiro Lobato e outros modernismos brasileiros, apoiado pela FAPESP, entre 2003 e 2007. “Como não podia deixar de ser, a presença múltipla de Lobato na vida de seu tempo é envolvida por paixões violentas, contradições e dicotomias. É justamente por isso que sua obra pede uma análise abrangente que, longe de fugir das contradições ou de abrandá-las, aprofunde as oposições, inserindo suas ações em contextos cada vez mais abrangentes”, observa a pesquisadora.

É nesse espírito que a equipe do temático prepara agora um novo estudo, desta vez dissecando “livro a livro” a sua obra adulta, pouco conhecida e apreciada em face do sucesso das criações infanto-juvenis. Ao longo dos anos, a história da literatura fixou uma imagem multiforme e um tanto contraditória do escritor. De um lado, nota Marisa, afirma-se o escritor inventivo, considerado o criador de nossa literatura infantil; de outro, despreza-se o crítico de pintura que tripudiou sobre os quadros inovadores da pintora modernista Anita Mafalti. Ele é malvisto como o fazendeiro que ridicularizou seus agregados na figura do Jeca Tatu, ao mesmo tempo que é exaltado como o cidadão progressista defensor do petróleo nacional.

“A carreira poliédrica de Lobato foi fruto de uma visão de mundo arrojada e moderna, sempre em perfeita sintonia com o seu momento histórico”, analisa Marisa. “Ele deixou marcas profundas na cultura brasileira e sua herança está presente nos lugares mais diversos. Por exemplo, no perfil moderno da indústria livreira que criou, e também na problematização de vários aspectos de práticas nacionais de escrita e de leitura, de produção e da circulação de livros. Ele foi um dos primeiros e raros intelectuais a perceber a profunda alteração pela qual passavam, na modernidade, livros e leituras”, observa. Para tanto, empenhou o que tinha e o que não tinha.

Ilustração de J.G.Vilin para o livro Reinações de Narizinho, 1933

Ilustração de J.G.Vilin para o livro Reinações de Narizinho, 1933

Como comprovam, aliás, cartas inéditas recém-descobertas por pesquisadores da Unidade Especial de Informação e Memória da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). No material descoberto, datado de 1925, Lobato pede ajuda financeira ao fazendeiro Carlos Leôncio de Magalhães, mais conhecido como Nhonhô Magalhães, para salvar sua editora da falência. “Na primeira carta ele diz ao fazendeiro que, se ajudasse a editora, quem sabe um dia os filhos do fazendeiro se interessariam por livros. Já na segunda, Lobato diz que, se Nhonhô o ajudasse, não ajudaria somente o Brasil, mas também a salvar sua vida, em um tom mais emotivo”, conta o professor João Roberto Martins, coordenador da Unidade Especial.  A resposta de Nhonhô veio de forma impessoal e datilografada, explicando que não fazia mais negócios por “necessitar de repouso”. “Essa consciência aguda da dimensão econômica de livros e literatura são uma das maiores marcas da modernidade de Lobato”, analisa Marisa Lajolo.

Daí a importância de mergulhar na sua produção, em especial na quase esquecida literatura não infantil, que voltou a ser editada apenas a partir de 2007, quando a Editora Globo assinou um contrato com os herdeiros após anos de uma pendenga com a Brasiliense, que detinha todos os direitos sobre a obra lobatiana. Iniciada a republicação, a grande surpresa foi o sucesso de venda dos livros para adultos, como Urupês, por exemplo, a coletânea de contos que introduziu o Jeca Tatu em 1918 e já está na quarta reimpressão.  “Se o papel de renovador da literatura infantil brasileira é inconteste, os novos tempos pedem uma reavaliação do jornalista, crítico de arte, ensaísta e polemista. As luzes sobre o modernismo paulistano jogaram Lobato no limbo. Ele virou o vilão. Nos últimos anos há uma revisão disso”, diz Marisa. “Além disso, ele é um excelente contista, divertido, violento em relação à crítica social, despojado em termos de linguagem”.

O primeiro desenho da boneca Emília, de 1920, por Voltolino

O primeiro desenho da boneca Emília, de 1920, por Voltolino

Segundo Marisa, quem conhece Lobato apenas como o incrível inventor do Sítio do Picapau Amarelo pode conhecer o melhor Lobato, mas, mesmo assim, está perdendo um bocado da personalidade do paulista sem papas na língua. “Entre 1882 e 1948, o escritor viveu entre dois brasis. Um mais agrícola, patriarcal, tradicionalista. Com este, ele ajustou contas inventando um sítio onde impera o matriarcado, onde em vez de gado há um burro falante e um sabugo sábio. O outro era o Brasil que mudava de cara com a industrialização. Para este segundo, ele foi um cidadão sob medida, feito de encomenda”. Fazendo no Vale do Paraíba, Lobato lutou contra as queimadas dos caipiras, desancou o Jeca chamando-o de parasita e predador da natureza.

Em menos de dez anos, mudou de ideia: era a falta de saúde o que ele tinha chamado de preguiça, escrevendo novos artigos redimindo o Jeca e denunciando a precariedade das políticas de saúde nacionais. “Vinte anos depois, ele vira a mesa novamente. Lobato entendeu que o Jeca era vítima da estrutura fundiária brasileira e se pôs a escrever sobre isso”, lembra Marisa. Sua relação com o presente nunca foi das melhores: brigou com o Estado Novo pela falta de liberdade e pelo desinteresse geral dos brasileiros em encontrar petróleo, tarefa a que se dedicou com entusiasmo exacerbado, a ponto de perder, novamente, seu patrimônio e parar na cadeia como subversivo. No final da vida, o Jeca, agora transformado em Zé Brasil, lutava não mais contra doenças endêmicas, mas contra o latifúndio e a distribuição injusta de terra.

“Monteiro Lobato fez mergulhos no imaginário coletivo e simultaneamente o fecundou; ‘taquigrafou’ novas ideias sobre infância, que circulavam nas várias esferas culturais de seu tempo – como, por exemplo, as teorias da Escola Nova – e as transpôs para sua obra literária”, analisa a pesquisadora Cilza Bignotto, professora de teoria literária e literatura brasileira na Universidade Federal de Ouro Preto. “Da mesma forma, percebeu e registrou de modo bastante peculiar as idéias sobre infância que existiam naqueles segmentos sociais que constituíam o ‘Brasil arcaico’: as comunidades caboclas, os grupos de camponeses caipiras do interior de São Paulo, a gente pobre da periferia que começava a se formar na capital do estado”, analisa. Foi, aliás, com um achado de Cilza que o temático coordenado por Mariza Lajolo ganhou matéria-prima de primeira. A pesquisadora, fazendo o seu mestrado, deparou-se num porão de um livreiro em Santos com montanhas de material inédito de Lobato e usou dinheiro da sua bolsa da FAPESP para adquirir os tesouros, que decidiu colocar ao alcance do público, doando tudo ao Instituto de Letras da Unicamp. Isso permitiu a criação do Fundo Monteiro Lobato, que reúne hoje um acervo de mais de dois mil itens, entre originais, cartas, fotos, primeiras edições, etc. Foi o “baú do Lobato” que ajudou os pesquisadores a adensar os trabalhos do temático Monteiro Lobato e outros modernismos brasileiros.

O Minotauro, por Augustus, 1949

O Minotauro, por Augustus, 1949

A análise dos novos achados deu novas peças ao quebra-cabeça que continua a ser montado pelo grupo e foi se configurando um Lobato ainda mais complexo.  Afinal, como observa Marisa, sempre atento a sua realidade, ele soube incorporar, em uma obra ficcional pautada pela fantasia e pelo humor, informações muitas vezes coincidentes com o currículo escolar. Em contraposição à escola convencional, alvo de frequentes críticas das personagens lobatianas, o Sítio do Pica-Pau Amarelo surge como uma escola alternativa. Nela, conhecimentos de gramática, matemática, geologia e até rudimentos de uma política nacionalista do petróleo são veiculados e assimilados de forma crítica, independente e sempre questionadora, especialmente na relação de ensino-aprendizagem entre Dona Benta e a discípula Emília.

“Quero fazer livros para criança morar. Não ler e jogar fora, mas morar como eu morei no Robinson Crusoé”, escreveu o escritor em carta ao amigo Godofredo Rangel. A República Velha pregava o ideal do moço sério, um adulto em miniatura, quieto e pronto a obedecer e aceitar os valores estabelecidos. Na época, os livros reproduziam o sistema, ou seja, criança levada era castigada. “Ele rompeu essa tradição autoritária, inspirando-se no e inspirando o projeto de renovação educacional estabelecido após a revolução de 1930, quando os intelectuais passaram a pregar um novo sistema de ensino como forma de resolver os males do país”, observa Cilza. Entre eles, destacou-se o educador baiano Anísio Teixeira e sua Escola

Nova, que pretendia democratizar o saber, fazê-lo agradável aos jovens. Lobato soube trocar a travessura por aventura, colocando ao alcance da criança o gesto libertário na figura da Emília. Lobato lutou por isso até morrer, ou melhor, até virar “gás inteligente”, sua metáfora da morte. Apesar do tempo, ele permanece o inconformista ideal para os tempos modernos, tão conformados.

O projeto
Monteiro Lobato e outros modernismos brasileiros (nº 2002/08819-4) (2003-2007); Modalidade Projeto Temático; Coordenadora Marisa Philbert Lajolo – Instituto de Estudos da Linguagem, Unicamp; Investimento R$ 69.805,15

Artigos científicos
LAJOLO, M. P. Mário de Andrade e Monteiro Lobato: um diálogo modernista em três tempos. Teresa (USP). v. 8-9, p. 141-60, 2008.
LAJOLO, M. P. A figura do negro em Monteiro Lobato. Presença Pedagógica, Belo Horizonte. v. 04, n. 23, p. 21-31, 1998.
LAJOLO, M. P. Monteiro Lobato: um brasileiro sob medida. São Paulo: Editora Moderna, 2000. v. 1. 99 p.

De nosso arquivo
O futuro do presente no pretérito – Edição nº 184 – junho de 2011
O latifúndio de Lobato
– Edição nº 157 –março de 2009


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