CARREIRAS

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Para publicar com critério

Escolher a revista científica mais apropriada é importante para aumentar o impacto dos resultados das pesquisas

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | ED. 244 | JUNHO 2016

 

Carreiras-001vzOs artigos científicos constituem o principal caminho para a exposição, pelos pesquisadores, dos resultados de estudos. O reconhecimento do trabalho pelos pares é essencial para a construção de uma carreira científica, o que requer a divulgação adequada das pesquisas. Nos últimos anos, a pressão para que se publique a todo custo foi sintetizada no lema “publique ou pereça”, induzindo à publicação todo e qualquer resultado. Em um ambiente acadêmico cada vez mais competitivo, diversos pesquisadores foram de certa forma induzidos a pensar que é preciso publicar muito. Esse cenário parece estar mudando. O que se espera hoje é que eles publiquem um número razoável de trabalhos, mas de qualidade, apresentando resultados que sejam reconhecidos por suas contribuições. A escolha da revista mais apropriada para divulgar uma pesquisa é, assim, importante para que o estudo seja lido pelas pessoas certas, aumentando o impacto dos resultados.

A maioria dos cientistas experientes sabe quais são as melhores revistas da sua área. A dificuldade maior recai sobre os pesquisadores mais jovens, com pouca experiência e que por vezes selecionam as revistas de acordo com a chance de seus artigos serem aceitos, e não pelo seu prestígio e relevância para a comunidade científica de sua especialidade. Um pré-requisito básico para a escolha de uma revista científica, segundo especialistas ouvidos, seria o próprio conteúdo que elas publicam. O contato diário com a literatura científica aos poucos permite ao pesquisador perceber que algumas revistas publicam trabalhos consistentes e interessantes, enquanto outras, não. “Essa deve ser a primeira triagem, sob o julgamento de cada cientista segundo seus próprios critérios do que é ciência de qualidade”, diz Gilson Volpato, do Instituto de Biociências da Universidade Estadual Paulista (IB-Unesp), em Botucatu, e autor de livros sobre redação científica.

Do ponto de vista prático, um aspecto importante na hora de escolher o periódico é que ele esteja indexado em bases de dados como Web of Science, da empresa Thomson Reuters, ou Scopus e Mendeley, ambas da editora Elsevier. Segundo Rogério Meneghini, coordenador científico da biblioteca virtual SciELO Brasil, para uma revista científica, a indexação significa reconhecimento, entre outras coisas, da qualidade dos padrões gráficos e dos artigos que ela publica. Os critérios para que elas sejam indexadas costumam ser rigorosos – ser indexada no Web of Science é muito mais difícil do que no Scopus. Para atender às exigências dessas bases de dados, as revistas dispõem de revisores, membros da própria comunidade científica, que qualificam e credenciam os artigos, pedindo detalhes, explicações ou experimentos complementares antes de darem um parecer favorável à publicação do estudo.

O rigor na avaliação dos artigos pretende assegurar que as revistas publiquem estudos de qualidade, que sejam lidos e usados em outros trabalhos, elevando o fator de impacto da publicação, o número médio de citações que os artigos de uma revista recebe em um período. Nas últimas décadas, o número de citações consagrou-se como um parâmetro universal para avaliar a relevância e o impacto da produção científica. Via de regra, quanto maior o número de citações de uma revista, maior também será o número de artigos submetidos a ela, e mais seletiva ela será.

096-098_Carreiras 244-01Não há consenso sobre até que ponto o fator de impacto deve ser levado em conta. Para Meneghini, esse índice constitui um critério importante que deve ser considerado na hora de escolher a revista científica. Volpato, porém, ressalta que é preciso ser cauteloso quanto à avaliação do fator de impacto, uma vez que esse sistema pode criar condições favoráveis à má conduta científica. “Há casos de pesquisadores que se autocitam, revisores e editores que forçam a citação de determinados artigos, o que denota falta de seriedade científica de autores que citam por citar, sem entender o real papel de uma citação.”

Para José Roberto Arruda, da Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coordenador-adjunto da área de ciências exatas e engenharias da FAPESP, alguns pesquisadores privilegiam publicações com alto fator de impacto, mas com pouca relevância na própria área. “Não se deve escolher a revista com base no fator de impacto, apenas”, diz. Para ele, cada área tem suas características de desempenho, inclusive de citações. “O pesquisador deve tentar publicar em revistas nas quais costuma encontrar os artigos que lhe são úteis.” A bióloga Maria Tereza Thomé, do IB-Unesp de Rio Claro, segue o mesmo raciocínio. “Prefiro publicar em uma revista específica da minha área, mesmo que ela tenha um fator de impacto menor”, diz.

As revistas de maior impacto costumam ser internacionais e publicam artigos de várias áreas, como as revistas Nature e Science. No entanto, a publicação em revistas de acesso aberto, como as do grupo PLOS, pode ajudar na divulgação internacional de um artigo, segundo Arruda. “Quanto mais fácil for para o leitor obter o estudo, melhor”, comenta. Muitos pesquisadores de países em desenvolvimento não podem pagar para ter acesso a artigos publicados em revistas com modelo de assinatura, o que diminui a visibilidade do trabalho. “Muitas agências de financiamento custeiam e incentivam a publicação de artigos científicos em publicações de acesso aberto.” De modo geral, ele conclui, o pesquisador precisa ter clareza quanto ao público que pretende alcançar com sua pesquisa e, então, traçar as estratégias para encontrar a revista certa para seu estudo.


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