Roberto Schwarz, 65 anos, é indiscutivelmente um crítico à altura de Machado de Assis. Foi com ferramentas cuidadosamente cinzeladas por ele que o grande escritor brasileiro, lido até então por muitos como uma espécie de inglês deslocado, emergiu para os leitores contemporâneos, em dois ensaios magistrais -
Ao vencedor as batatas, de 1977, e Um mestre na periferia do capitalismo, de 1990 -, como o autor de uma obra poderosa, cujas soluções formais são profunda e intrinsecamente reveladoras do processo social brasileiro em fins do século 19 e começo do século 20.
Mas se o bruxo do Cosme Velho está no centro do trabalho crítico de Roberto Schwarz, não o esgota entretanto. Ensaísta orientado pela busca tenaz de uma idéia objetiva de forma, ao mesmo tempo literária e social, ele pode nessa procura deter seu olhar tanto em Oswald de Andrade quanto no poeta marginal Francisco Alvim. Observador atento e preocupado com o que se passa hoje na literatura do país, que se mantém a larga distância de uma produção contínua e vigorosa de bons livros, decorrência talvez de uma estranha despreocupação dos escritores com o conhecimento exaustivo da matéria de que tratam, ele entretanto assinalou de pronto a força poderosa de
Cidade de Deus, "o grande achado" de Paulo Lins. E chama a atenção para Valdo Motta, um poeta quase desconhecido do Espírito Santo, trazido à luz num belo ensaio de Iuma Simon, e que "é um ponto de força novo, diferente, na cultura brasileira".
Tranqüilo até quase a suavidade na exposição de seus pontos de vista, por mais radicais que sejam, elegante, ainda que sempre incisivo, na elucidação das polêmicas em que se envolveu no campo da crítica, Roberto Schwarz mostra-se, nesta entrevista, e no melhor sentido da expressão, o intelectual engajado que sempre foi - o que lhe valeu o exílio de 1969 a 1977, período que cobre alguns dos anos mais dramáticos da ditadura militar no país. Além de engajado, extremamente produtivo: esse brasileiro nascido em Viena, Áustria, professor titular de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), aposentado formalmente em 1992, mas que se manteve em atividade docente como titular convidado até 1997, é autor de uma dúzia de livros, entre eles dois de poesia e um de dramaturgia, mais de uma centena de artigos e assina a tradução de uma dúzia de outras obras.
Gostaria que você falasse um pouco sobre sua formação e personagens que mais o influenciaram nessa fase.- Meus pais eram austríacos, intelectuais de esquerda, ateus e judeus. Quando a Alemanha anexou a Áustria, tiveram que emigrar. Se não fosse isso, meu pai, que era um homem completamente literário, teria sido escritor e professor. Embora tivéssemos chegado ao Brasil sem nada, ele logo começou a refazer uma boa biblioteca alemã, que tenho até hoje.Ele morreu cedo, quando eu tinha 15anos. O Anatol Rosenfeld, que era amigo dele e da família, passou a acompanhar os meus estudos e a sugerir leituras. Durante muitos anos ele jantou em casa aos domingos, que passaram a ser um dia obrigatório de revisão da semana e discussões. Apesar da grande diferença de idade, ficamos muito amigos.
O Anatol tinha um grupo...- Sim, ele dava um curso de filosofia na casa do Jacob Guinsburg. O grupo se reunia uma vez por semana, e eu comecei a participar também quando tinha 18 anos, pouco antes de entrar na faculdade. Isso durou muitos e muitos anos, os alunos liam um trecho de algum filósofo uma vez por semana e o Anatol comentava. Foi interessante essa sua maneira de arranjar a vida: em alguns cursos ele antes ia jantar, o que era bom para a dona da casa, que tinha o jantar animado intelectualmente, e era bom para ele, que... jantava. E depois ele dava o curso.
E aí você entrou no curso de Ciências Sociais da USP.- Foi, em 1957, por sugestão também do Anatol. Eu estava no último ano do secundário, um pouco incerto se fazia Letras, Filosofia ou Ciências Sociais. O Anatol, muito objetivo, me disse que fosse à faculdade assistir a algumas aulas antes de decidir. Assisti a uma aula de literatura, de um professor cujo nome não vou dizer, e desisti de fazer Letras. Assisti a uma aula do Cruz Costa, que fazia piada atrás de piada e me deixou um pouco assim... E assisti a uma aula da Paula Beiguelman, em Política, muito bem preparada e interessante. Aí me decidi pelas Ciências Sociais.
Já no curso de Ciências Sociais você participou daquele grupo do seminário do Capital?- O seminário começou em 1958. Foi iniciativa de um grupo de professores jovens, vindos das Ciências Sociais, da Filosofia, da História e da Economia, que tiveram a boa idéia de incluir também alguns alunos. Com isso o seminário já nasceu multidisciplinar e espichado para a geração seguinte. Marx na época era pouco ou nada ensinado, embora muitos professores nessa área fossem de esquerda. De modo que a decisão de estudar a sério a sua obra tinha alcance estratégico. No núcleo inicial estavam Ruth e Fernando Henrique Cardoso, Octávio Ianni, Fernando Novais, Paul Singer e Giannotti. Os alunos mais assíduos eram Leôncio Martins Rodrigues, Francisco Weffort, Gabriel Bollaffi, Michael Löwy, Bento Prado e eu.