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Carta do editor | 54

O retorno econômico e social do conhecimento

A digestão dos insetos tem tudo a ver com a agricultura e a economia

O conhecimento abre portas às vezes insuspeitas. Mesmo quando ele está voltado para aspectos básicos da ciência, aparentemente sem qualquer vínculo com uma aplicação prática. Mas só aparentemente. É o caso de um amplo estudo sobre a digestão dos insetos, tema da reportagem de capa desta edição. Um tema que, de início, poder-se-ia supor ser de interesse basicamente de alguns especialistas em Fisiologia, Entomologia, Química ou áreas correlatas, que passam anos debruçados sobre esses pequenos animais, aprendendo, à primeira vista apenas por puro deleite, como funciona o seu organismo e as enzimas que realizam sua digestão. Ledo engano. O conhecimento sobre esses mecanismos bioquímicos dos insetos – uma classe que abriga cerca de 70% de todas as espécies animais e da qual fazem parte as mais vorazes e insaciáveis pragas agrícolas – foi a porta para o desenvolvimento de mecanismos capazes de interferir naquele processo: bloqueando-lhes a digestão, os insetos morrem de inanição.

Não é pouca coisa nem são resultados restritos a perpetuar trabalhos puramente acadêmicos. Ao contrário, têm repercussões amplas. No Brasil, a cada ano os insetos devoram aproximadamente, em média, 11 milhões de toneladas da produção agrícola nacional, incluindo arroz, feijão, soja, milho, café, algodão, cana-de-açúcar, hortaliças e frutas. No caso específico do arroz, de cada dez quilogramas produzidos no campo, as pragas comem quase três. Para um país com necessidade de aumentar a sua produção agrícola, tanto para baratear a oferta de alimentos no mercado interno quanto para gerar excedentes para exportação, são perdas econômicas consideráveis. Mas há, ainda, um outro aspecto da questão. Para combater essas pragas, os agricultores aplicam anualmente, sobre suas plantações, cerca de 20 mil toneladas de inseticidas, com graves conseqüências para o ambiente e para o próprio alimento. Assim, a pesquisa, que não previa aplicações práticas, além das repercussões econômicas, tem um significativo impacto ambiental. As conclusões a se tirar disso são óbvias. Primeiro, já não há limites entre a pesquisa básica e a aplicada. Segundo, o conhecimento científico está por trás das grandes descobertas e desenvolvimentos.

A edição traz, também, três artigos de especialistas sobre o significado e os desdobramentos do seqüenciamento do genoma humano e, entre outras, uma reportagem sobre a Eta Carinae, uma enigmática estrela da constelação de Carina que, em intervalos aproximados de cinco anos e meio, perde luminosidade, numa proporção equivalente ao brilho de 60 sóis num único dia. Seus mecanismos foram melhor compreendidos nos últimos anos, devido à persistência de um pesquisador brasileiro que, por diversas vezes, teve que convencer colegas de institutos internacionais a apontarem seus telescópios mais potentes para a estrela, até comprovaram suas ideias, que ganham crescente respeito no mundo científico.

Pesquisa FAPESP destaca, ainda, em três reportagens, soluções tecnológicas simples mas de impacto para as empresas e a economia. Uma delas mostra os bons resultados obtidos por um projeto de inovação tecnológica em parceria, que levou a 150 micro e pequenas empresas do setor de plástico um laboratório móvel com instrumentos para teste e processamento de experimentos úteis às indústrias, com enormes benefícios na qualidade dos produtos. Uma outra pesquisa trouxe uma surpreendente solução para o problema do canibalismo, estresse e baixa reprodução em cativeiro do peixe matrinxã, viabilizando a sua criação. Para completar, a revista publica o primeiro de uma série de três encartes especiais sobre os seminários sobre Ciência e Tecnologia realizados no âmbito do Fórum São Paulo Século 21, promovidos pela Assembléia Legislativa do Estado.

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