| © Luciano Andrade Moreira |
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| Genes inseridos no genoma do Aedes funcionam como anticorpos contra a dengue, com interferência direta sobre o vírus |
As chuvas abundantes de verão e a temperatura elevada formam uma perigosa combinação que contribui para a explosão populacional do mosquito Aedes aegypti e a conseqüente transmissão do vírus da dengue, doença caracterizada na sua forma clássica por febre alta, dor de cabeça e muita dor no corpo, mas que raramente mata. Mais grave é a dengue hemorrágica que, além dos sintomas clássicos, também provoca sangramentos, insuficiência circulatória e queda da pressão arterial, podendo levar o doente à morte. A doença atinge mais de uma centena de países em vários continentes e na forma de epidemias que se repetem. Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que entre 50 e 100 milhões de pessoas se infectam anualmente, com um saldo de 550 mil internações e 20 mil mortes em decorrência da doença.
No Brasil, o quadro não é muito animador. Depois de enfrentar uma epidemia de dengue em 2002, com quase 800 mil casos notificados, os especialistas temem que ocorra um novo surto neste ano. “Há risco de introdução do sorotipo 4 (no país já existem os sorotipos 1, 2 e 3 do vírus), considerado o mais letal, que se encontra circulando em vários países das Américas”, diz Maria da Glória Teixeira, professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e autora de um estudo epidemiológico sobre a dengue. Até hoje não foi descoberto um remédio eficiente contra o vírus da doença. Ela exige acompanhamento médico e é tratada com remédios que atenuam os sintomas, além de repouso. Vacinas para combater a dengue estão sendo estudadas, mas ainda há um longo caminho pela frente, porque para serem eficientes elas terão que imunizar as pessoas, simultaneamente, para os quatro sorotipos do vírus, da família dos flavivirus.
Com tantas dificuldades em derrotar o vírus, o jeito é o combate ao mosquito, que também é transmissor da febre amarela. Em 2006 foram apresentadas novas formas de controle do Aedes, capazes de evitar a proliferação do mosquito. Na linha de frente das novas tecnologias está um sistema de monitoramento do mosquito transmissor da dengue que utiliza armadilhas, software e computadores de mão (palmtops) para captura dos insetos e análise das áreas de risco.
Dentro da armadilha chamada Mosquitrap, uma espécie de vaso preto com água no fundo que imita o criadouro do mosquito, é colocado o Atraedes, uma substância sintética que libera um odor para atrair e fazer as fêmeas grávidas do Aedes depositarem seus ovos no recipiente. “O produto aromático foi isolado a partir de uma infusão preparada com a gramínea Panicum maximum”, diz o professor Álvaro Eduardo Eiras, do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), responsável pelo desenvolvimento do sistema chamado de Monitoramento Inteligente da Dengue.
Ao serem atraídos pelo Atraedes, os insetos entram na armadilha e ficam presos a um cartão adesivo colocado na parede do recipiente. Depois de uma semana, é feita a contagem de quantos mosquitos foram capturados, trabalho realizado por agentes da saúde treinados para reconhecer o Aedes na sua forma adulta. Não é necessário levar o inseto ao laboratório para ser identificado, como ocorre atualmente com as larvas recolhidas em vasos e pneus cheios de água.
“Ao atacar diretamente o mosquito, impedimos que a fêmea deposite os seus ovos. Trabalhamos no controle do inseto com as armadilhas, já que a transmissão do vírus da dengue é feita pela fêmea infectada”, diz Eiras. Quando a fêmea, que precisa do sangue para amadurecer os ovos e dar continuidade ao ciclo reprodutivo, pica uma pessoa infectada, o vírus se instala e se multiplica em suas glândulas salivares e intestino. A partir daí, o inseto permanece infectado pelo resto dos seus 30 a 40 dias de vida, em média.
O Mosquitrap faz o controle da infestação por meio de um computador de mão. Os dados da quantidade de mosquitos capturados na armadilha são enviados a uma central que gera, em três horas, um mapa preciso sobre as áreas de risco de infestação da doença. Esse mapa fica disponível on-line para que os gestores de saúde saibam onde concentrar as ações de combate à dengue.
Com base no conhecimento do comportamento do vetor, a equipe da Ecovec, empresa criada para desenvolver e comercializar o produto surgido na universidade mineira, que tem Eiras como um dos sócios, elabora um projeto com diagnósticos locais, determinando o número e o posicionamento das armadilhas necessárias para garantir a eficácia do monitoramento. Os dados são atualizados semanalmente, o que representa 52 mapas por ano. “O custo é cerca de 90% inferior ao do sistema de monitoramento das larvas do Aedes usado por vários países, inclusive o Brasil, entre quatro e seis vezes ao ano”, diz Eiras. A análise das larvas coletadas pelos agentes de saúde nas visitas domiciliares é feita em laboratório, o que demanda tempo e custos extras. Sem contar que o uso de inseticidas para combater o Aedes não leva em conta a presença ou não do mosquito.
Sistema premiado – O método da Ecovec consegue detectar a presença do mosquito mesmo na época da seca. Tanto que existe a possibilidade de que em 2007 o sistema comece a ser adotado oficialmente pelo Ministério da Saúde como parte do Programa Nacional de Controle da Dengue, que recebeu em 2006 R$ 540 milhões do governo federal para ações de combate e controle do vetor. Em novembro do ano passado, o sistema foi escolhido entre 280 iniciativas de 58 países para receber o prêmio Tech Museum Awards, na categoria Saúde, entregue em San José, na Califórnia.
O prêmio é dado para tecnologias inovadoras que beneficiam a humanidade e tem o apoio de empresas como Intel, Accenture, Microsoft, Agilent, Applied e HP. Bill Gates, da Microsoft, foi homenageado no mesmo evento. “No discurso que fez durante a premiação, Gates disse que a tecnologia desenvolvida no Brasil para combater o vetor da dengue é simples e genial para resolver um problema complexo”, relata Eiras.