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Homenagem

Entre o laboratório e o gabinete

Oscar Sala aliou excelência científica à liderança institucional

Claudine Petroli/Agência EstadoSala em julho de 1977, ano da reunião da SBPC na PUC-SP, invadida pela políciaClaudine Petroli/Agência Estado

É comum pesquisadores mudarem a direção de suas atividades principais com o passar dos anos. Alguns optam por se tornarem gestores de ciência e tecnologia e acabam absorvidos pela burocracia de tal maneira que raramente voltam a frequentar laboratórios ou salas de aula. Mas há uma classe de cientistas que consegue conciliar todas as diferentes atividades com a mesma aptidão e qualidade durante a maior parte da vida. Oscar Sala foi uma dessas invulgares personalidades da ciência brasileira, a julgar por todos os depoimentos sobre ele. Morto no dia 2 de janeiro em consequência de uma parada cardíaca, aos 87 anos, foi um dos principais físicos do país e um gestor competente e importante, intimamente ligado à história da FAPESP como seu diretor científico, entre 1969 e 1975, e presidente, entre 1985 e 1995. Deixou esposa, Rosa Augusta, três filhos e seis netos.

Oscar Sala nasceu em Milão, na Itália, de pai brasileiro e mãe italiana. Veio com a família para Bauru, no interior paulista, aos 2 anos. Formou-se em música no conservatório da cidade, mas optou por cursar engenharia na Escola Politécnica. Sua passagem para a física se deu durante o período de férias em Bauru. “No campo de aviação havia uma grande movimentação com os balões que eram soltos a grandes altitudes para medirem a radiação cósmica. Um dia estava lá e comecei a conversar com um senhor, que era justamente o Gleb Wataghin”, contou Sala em entrevista a Amélia Império Hamburger, publicada no livro Cientistas do Brasil (SBPC, 1998). Wataghin, russo radicado na Itália, foi um dos professores estrangeiros que ajudaram a consolidar a Universidade de São Paulo (USP), responsável por uma extraordinária geração de físicos brasileiros. “Já tinha lido um pouco sobre radiação cósmica e fiz algumas perguntas a ele, que perguntou o que eu fazia e, afinal, me convenceu a sair da Poli e a entrar para a Física.” As experiências faziam parte da expedição liderada pelo norte-americano Arthur Compton, que visitou o Brasil em 1941. No mesmo ano Sala começou como aluno da Física e se formou em 1945. Ainda estudante, colaborou com o Exército brasileiro construindo transmissores portáteis usados na campanha na Itália durante a Segunda Guerra Mundial.

Em 1946 tornou-se assistente da cadeira de física geral e experimental, regida por Marcello Damy de Souza Santos, outro discípulo de Gleb Wataghin. No mesmo ano ganhou bolsa da Fundação Rockefeller e foi estagiar na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, sob a orientação de Maurice Goldhaber, para trabalhar com física de nêutrons. Em 1948 mudou-se para a Universidade de Wisconsin, no mesmo país, e projetou com Ray Herb o acelerador eletrostático, do tipo Van de Graaff, para ser instalado na USP. Esse foi o primeiro equipamento a utilizar feixes pulsados para estudos sobre reações nucleares com nêutrons rápidos, importante para a pesquisa na área de energia nuclear. E, já em 1972, montou no Instituto de Física da USP o projeto parcial do acelerador Pelletron, que substituiu o Van de Graaff.

Ação e reação
“Sala percebia bem o momento em que as coisas aconteciam e sabia como reagir a elas”, diz o físico e historiador Shozo Motoyama, do Centro Interunidade de História da Ciência da USP. Assim, por exemplo, logo depois da Segunda Guerra Mundial, percebendo a importância que a física nuclear experimental poderia ter no Brasil, empenhou-se para consolidá-la. Soube escolher bem os aceleradores de partículas adequados ao magro orçamento brasileiro em ciência e tecnologia, mas capazes de contribuir com resultados científicos relevantes naquele momento histórico. Foi dentro dessa percepção que montou o Van de Graaff na década de 1950 e o Pelletron nos anos 1970. Em torno dessas máquinas formaram-se pelo menos duas gerações de físicos nucleares brasileiros. “Em 1981, Sala recebeu o Prêmio Moinho Santista graças, em grande parte, a esses trabalhos”, afirma Motoyama.

Nos anos 1960 conquistou a cátedra de física nuclear e começou a atuar de modo sistemático em organizações do Brasil e do exterior para tratar de temas relacionados à sua especialidade e de assuntos relativos à política científica e tecnológica. Integrou o Comitê Internacional sobre Estrutura Nuclear (Kingston, 1960) e o Conselho Deliberativo do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, 1964-1968), entre vários outros organismos. Foi, ainda, um dos fundadores e o primeiro presidente da Sociedade Brasileira de Física (1966).

Acervo da famíliaSala trabalhando com colaborador: escolha correta de máquinas, adequada ao orçamento da C&T brasileiraAcervo da família

Em 1969 o então diretor científico da FAPESP, Alberto Carvalho da Silva, foi afastado do cargo pelos militares. O presidente do conselho superior da Fundação, Antonio Barros Ulhôa Cintra, ex-reitor da USP, fez um apelo a Sala para que assumisse a diretoria. “Ele me disse que se não aceitasse a FAPESP seria fechada”, contou Sala a Amélia Hamburger para Cientistas do Brasil. “Durante mais de um ano fui à casa do Alberto todas as semanas, para discutir diretrizes, e criamos uma amizade muito grande.” Com habilidade, firmeza e bons contatos, o físico conseguiu manter o regime militar a uma boa distância da Fundação, sem atrapalhar sua rotina. “O interessante é que ele formou uma dupla influente com o Alberto Carvalho da Silva durante muitos anos”, afirma Amélia.

“Sala foi diretor científico em um momento muito delicado. Sua atuação foi decisiva no processo de consolidação dos ideais da Fundação”, diz Celso Lafer, presidente da FAPESP. “Ele teve enorme influência no bom desenvolvimento da FAPESP na diretoria científica e na presidência da instituição”, corrobora o diretor científico Carlos Henrique de Brito Cruz. José Fernando Perez, ex-diretor científico (1993-2005) e atual presidente da empresa Recepta Biopharma, diz que o físico foi “um campeão” na permanente afirmação da autonomia da Fundação. “Sala soube protegê-la com sabedoria e firmeza de ingerências políticas”, lembra.

Grandes projetos
No ano em que se tornou diretor científico ele apresentou um plano para apoiar grandes projetos, aprovado pelo conselho superior da FAPESP. De acordo com a ata do conselho de 1969, o objetivo era “destinar 30% do total da verba de amparo à pesquisa ao custeio de projetos através dos quais possam ser resolvidos ou bem equacionados importantes problemas de determinadas áreas”. A partir dessa data a nova política de apoio resultou em Iniciativas e Projetos Especiais. Uma das consequências imediatas foi o Plano para Desenvolvimento da Bioquímica na Cidade de São Paulo, o Bioq-FAPESP, com 14 projetos científicos e investimento inicial de US$ 1 milhão, previsto para três anos.

“O Bioq eliminou hierarquias, principalmente a científica: elaborava projetos quem queria e ganhava quem podia ou fazia um bom projeto”, conta o bioquímico Walter Colli, pesquisador do Instituto de Química da USP, dirigido por ele em duas ocasiões (1986-1990 e 1994-1998). “Uma grande quantidade de jovens montou os seus laboratórios de pesquisa, elaborando relatórios e publicando trabalhos.” De acordo com Colli, todos os que participaram do programa foram bem-sucedidos. A participação de Oscar Sala não se limitou à proposta do plano. “Ele montou um comitê externo com três cientistas estrangeiros presididos pelo norte-americano Marshall Nirenberg, Prêmio Nobel de Medicina (1968), que veio várias vezes ao Brasil. Esse comitê acompanhava o progresso dos diferentes grupos entrevistando-os um a um”, lembra o bioquímico. “Como esse era um projeto para a cidade de São Paulo havia uma distribuição racional de equipamentos entre os diversos grupos.” O Bioq-FAPESP resultou na formação de dezenas de projetos, grupos e laboratório, envolvendo aproximadamente duas centenas de pesquisadores, além do intercâmbio com cientistas estrangeiros e a vinda de professores visitantes, de acordo com o livro Prelúdio para uma história – Ciência e tecnologia no Brasil, organizado por Shozo Motoyama (Edusp/FAPESP, 2004).

O projeto para a área de meteorologia foi outra iniciativa importante da diretoria científica daquele período. Como esse campo se encontrasse em estado precário no começo dos anos 1970, apesar da importância estratégica para a agricultura, a FAPESP financiou a vinda de James Weiman, do Departamento de Tecnologia da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos. Weiman analisou a situação e recomendou a instalação de um radar meteorológico. Iniciado em 1974, o Projeto Especial denominado Radasp foi instalado no Instituto de Pesquisas Meteorológicas, da Fundação Educacional de Bauru, depois incorporado à Universidade Estadual Paulista (Unesp). Os resultados surgiram imediatamente – os jornais paulistas passaram a usar os dados das previsões do tempo publicadas e a disseminar essas informações. “Pesquisador emérito, Sala muito contribuiu para o desenvolvimento científico do estado de São Paulo e do Brasil”, diz o diretor administrativo da FAPESP, Joaquim José de Camargo Engler. “Convivi e trabalhei com ele como conselheiro e, depois, como diretor administrativo, num relacionamento sempre muito cordial e respeitoso.”

Acervo da famíliaSala e César Lattes, um dos descobridores do méson-pi: interaçãoAcervo da família

Oscar Sala deixou a diretoria científica em 1975. Mas voltou à Fundação em 1985 como presidente do conselho superior e tomou a frente do processo de informatização da FAPESP. O objetivo era desenvolver bancos de dados e sistemas de gerenciamento de bolsas e auxílios concedidos. Seu apoio foi importante para algo que começava a surgir com força no Brasil: as discussões a respeito da conexão brasileira às redes internacionais, precursoras da internet, que ainda engatinhava na década de 1980. Foi criado o programa Rede ANSP (Academic Network at São Paulo), um dos principais pontos de conexão da internet com o exterior e responsável pela interligação das redes acadêmicas universitárias, institutos e centros de pesquisa paulista. “O seu senso de oportunidade funcionou mais uma vez quando percebeu a importância que teria a informatização e a conexão em rede para a pesquisa e direcionou a Fundação para essa linha”, avalia Shozo Motoyama.

“A atuação de Sala foi decisiva quando a FAPESP garantiu inicialmente o acesso da comunidade de física de São Paulo, via e-mail, ao Fermilab, dos Estados Unidos”, diz o ex-diretor científico José Fernando Perez. “Foi a partir dessa semente que a Fundação se tornou referência para a internet brasileira. Até há bem pouco tempo a FAPESP foi responsável pela atribuição de domínios da rede, até mesmo para a internet comercial.” Segundo o engenheiro eletrônico Demi Getschko, convidado por Sala para integrar o Centro de Processamento da FAPESP, em 1986, a própria parceria com o Fermilab só foi possível graças aos contatos do então presidente. “Foi ele quem bancou todo o projeto, montou a equipe e apoiou tudo aquilo”, disse à Agência FAPESP Getschko, hoje diretor presidente do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br).

Além das relações delicadas enfrentadas no período como diretor científico da FAPESP, entre 1973-1979 Sala foi presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Sua principal realização foi conseguir com que a tradicional reunião anual não deixasse de ocorrer. A de 1977, proibida inicialmente pelo governo federal de se realizar em Fortaleza, ocorreu na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e foi especialmente conturbada, com a invasão do campus pela polícia. “Ele presidiu a SBPC com ousadia e habilidade em um período difícil da vida brasileira, resistindo ao arbítrio e defendendo o desenvolvimento da ciência no Brasil”, diz Brito Cruz. “Mais ainda, Sala foi um dos grandes cientistas brasileiros, aliando excelência científica e liderança institucional e sendo um modelo de carreira para gerações mais jovens.”