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Hercule Florence

Exposição reúne obra de Hercule Florence

Desenhos e notas de diário narram experiências de viagem do desenhista francês com grupos indígenas brasileiros durante missão científica no século XIX

Ilustração de Hercule Florence Apiacás. Habitation des Apiacás Sur l'Arinos, Avril, 1828. Aquarela sobre papel, 40,8 x 51,0 cm

Coleção Academia de Ciências da Rússia Ilustração feita por Hercule Florence Apiacás. Habitation des Apiacás Sur l’Arinos, Avril, 1828.
Aquarela sobre papel, 40,8 x 51,0 cmColeção Academia de Ciências da Rússia

Em abril de 1824, um mês e meio após partir de Toulon, França, a bordo da fragata Marie Thérèze, o jovem Hercule Florence desembarcou no Rio de Janeiro, capital da Corte portuguesa. Com apenas 20 anos, foi pouco depois contratado como segundo-desenhista pelo médico e naturalista Georg von Langsdorff, o conde de Langsdorff, líder da missão científica que percorreu o interior do Brasil entre 1825 e 1829 e que realizou, no século XIX, vasto levantamento de dados geográficos e etnográficos do país. Ao registrar em desenhos e aquarelas as paisagens, pessoas e cenas cotidianas dos locais por onde passava, Florence criou um valioso material iconográfico, especialmente sobre as populações indígenas que, à época, habitavam o território brasileiro. Suas notas e desenhos são agora o fio condutor da exposição O olhar de Hercule Florence sobre os índios brasileiros, promovida pelo Instituto Hercule Florence (IHF), em parceria com o governo do estado de São Paulo, por meio da Secretaria da Cultura.

Com curadoria de Glória Kok, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP), eFrancis Melvin Lee, do Instituto Hercule Florence, a exposição reúne uma seleção de desenhos e trechos do manuscrito L’Ami des arts livré à lui-même, no qual Florence narra suas experiências de viagem, além de fotografias e obras de outros viajantes, peças etnográficas dos grupos indígenas e informações sobre como eles estão atualmente.

Folha de rosto do manuscrito L'Ami des arts livré à lui-même..., 1837-1859 Tinta ferrogálica sobre papel

Acervo Instituto Hercule Florence Folha de rosto do manuscrito L’Ami des arts livré à lui-même, 1837-1859 Tinta ferrogálica sobre papelAcervo Instituto Hercule Florence

Para as curadoras, o material exposto é um testemunho importante da situação dos grupos indígenas nas primeiras décadas do século XIX, configurando-se, assim, como fonte documental relevante. “Seu acervo pode ser considerado um veículo para a construção da memória e identidade dos grupos indígenas na atualidade”, afirma. A seleção do material priorizou o olhar de Florence e suas descrições sobre a riqueza cultural dos grupos indígenas Coroado-Kaingang, Xavante Paulista (Oti e Ofayé), Kayapó do Sul-Panará, Guaikuru-Kadiwéu, Bororo, Apiaká e Munduruku, todos visitados por Florence durante a missão científica.

Nascido em Nice, França, em 1804, Hercule Florence desde cedo exibiu talento para o desenho. Tinha uma autodisciplina que lhe permitiu se aprofundar, por conta própria, em estudos de matemática, física e geografia. Isso contribuiu para a formação de seu olhar científico, qualidade percebida por Langsdorff quando o contratou para a missão científica. Florence também foi um dos pioneiros da fotografia. Na mesma época em que era desenvolvida na Alemanha, França e Inglaterra, o desenhista fazia experimentos bem-sucedidos com a camera obscura na cidade de Campinas, em São Paulo (ver Pesquisa FAPESP nº150).

Indien Mandurucú. Fait près du Salto Augusto, ou quelques uns de ces Indiens etaient de passage. Mai, 1828. Aquarela e nanquim sobre papel, 28,5 x 30,0 cm.

Acervo Arquivo da Academia de Ciências (São Petersburgo) Indien Mandurucú. Fait près du Salto Augusto, ou quelques uns de ces Indiens etaient de passage. Mai, 1828. Aquarela e nanquim sobre papel, 28,5 x 30,0 cm.Acervo Arquivo da Academia de Ciências (São Petersburgo)

Em seus desenhos transparece o rigor documental. Por isso, as obras constituem uma contribuição importante para o conhecimento de grupos indígenas brasileiros que se encontravam até então ausentes do panorama iconográfico. “Hercule Florence relata o cotidiano vivido no percurso de mais de 13 mil quilômetros, a maior parte navegando pelos rios Tietê, Paraná, Paraguai, Tapajós e seus afluentes”, segundo elas.“Há também descrições da fauna e flora, fazendas, vilas, dados sobre as populações indígenas do sertão, reflexões sobre a escravidão e a ocupação territorial do Brasil.”

A exposição O olhar de Hercule Florence sobre os índios brasileiros fica em cartaz de 6 de maio a 30 de junho na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, na Cidade Universitária, São Paulo. Para mais informações, acesse: www.bbm.usp.br