ARTE

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Imagens para a história

Filme confronta sobreviventes da luta armada e documentos dos arquivos de órgãos de segurança

MÁRCIO FERRARI | ED. 234 | AGOSTO 2015

 

Acima, a foto  em que Guarany figura entre os presos trocados pelo embaixador suíço em 1970

Acima, a foto em que Guarany figura entre os presos trocados pelo embaixador suíço em 1970

Por mais que hoje isso pareça intrigante, os órgãos de repressão da ditadura militar costumeiramente documentavam e guardavam registros de boa parte das ações violentas ocorridas em quartéis e delegacias. Durante quatro anos, Anita Leandro, professora da Escola de Comunicação (ECO) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), cineasta e editora de imagens, vasculhou os acervos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) do antigo estado da Guanabara, do Serviço Nacional de Informação (SNI) e do Superior Tribunal Militar. Do grande volume de material que passou por suas mãos, ela escolheu quatro vidas para narrar no documentário Retratos de identificação – histórias entrecruzadas de militantes de grupos que pretendiam combater o regime pela luta armada.

Os personagens são Antônio Roberto Espinosa, Maria Auxiliadora (Dora) Lara Barcelos e Chael Charles Schreier, do grupo Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), e Reinaldo Guarany, da Aliança Libertadora Nacional (ALN). Schreier foi morto durante tortura (segundo a versão aceita atualmente) e Dora se suicidou em 1976, jogando-se em frente a um trem de metrô em Berlim. No filme, os dois sobreviventes são confrontados com documentos e fotos que não conheciam, colhidos pela cineasta. Anita não fez perguntas, deixando a câmera registrar as reações e os depoimentos espontâneos. “O encontro com as fotografias é a base do método de trabalho que desenvolvi”, diz. “O personagem principal é a imagem, o arquivo, que desencadeia a fala.”

Acima, o retrato de Dora nos arquivos do Dops...

Acima, o retrato de Dora nos arquivos do Dops…

Diante das fotos, Guarany, companheiro de Dora no exílio, emociona-se e conta que preferiu não guardar imagens dela (com uma exceção). Espinosa constata que, no seu retrato de identificação no Dops, o pescoço aparece fartamente ensanguentado – marca de tortura. Guarany vê pela primeira vez uma foto de 1970, no aeroporto do Galeão (Rio), em que ele aparece no grupo de presos políticos trocados pela libertação do embaixador suíço no Brasil, Giovanni Bucher, sequestrado por guerrilheiros.

Tão rico e revelador é o material colhido por Anita que foi possível mostrar o caminho percorrido por Dora ao sair de casa, numa manhã no Rio de Janeiro, pela sequência de fotos tiradas por um policial que vigiava seus passos. Entretanto, a ideia de que os arquivos podem por si mesmos reconstituir a história com exatidão é questionada pela própria diretora, em parte porque muitos documentos estão em estado de decomposição. “A prática corrente dos documentaristas, ao lidar com montagem de arquivo, é criar um texto que unifique o discurso e usar as imagens como ilustração”, diz Anita. “Mas essas imagens que sobraram criam vazios irremediáveis, e procurei mostrar que as lacunas fazem parte da narrativa.” O recurso usado foram intervalos em que a tela aparece totalmente negra. “Essa opção valorizou a singularidade de cada imagem e seu valor documental específico.”

... Chael Schreier, cuja morte o filme investiga

… Chael Schreier, cuja morte o filme investiga

Para Anita, os filmes podem ser documentos históricos, embora não necessitem ter a forma “acabada” de um compêndio ou de uma tese derivada de arquivos textuais. “As imagens não trazem informação tão imediata e exigem um olhar mais atento e prolongado”, diz. Uma demonstração da validade do cinema para esclarecer o passado é o fato de o filme ter comprovado que a morte de Chael Schreier não foi, como sustentava a versão oficial, consequência de ferimentos ocorridos em um confronto com a polícia, uma vez que documentos dos arquivos do Instituto Médico Legal (IML) não evidenciam lesão alguma. No filme, Espinosa descreve as sessões de tortura de que foi vítima ao lado de Schreier e Dora (de quem era companheiro na época). Também fazem parte do filme trechos de entrevistas da ex-guerrilheira no exílio, para um documentário chileno e outro americano, em que fala de Schreier. O material que Anita reuniu sobre o guerrilheiro morto foi solicitado pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) instituída pela presidente Dilma Rousseff. O capitão do Exército Celso Lauria, que assinou o relatório do Inquérito Policial Militar sobre a morte do guerrilheiro, foi convocado a depor na CNV, mas não compareceu.

Anita iniciou a pesquisa que resultou no filme – e em uma exposição realizada no Rio em 2014 – no programa de pós-graduação da ECO-UFRJ, para um estudo sobre a palavra filmada e a edição de material de arquivo em filmes documentários. O foco na ditadura militar e nas violações de direitos humanos do período foi escolhido por seu interesse em uma época que considera mal conhecida ou mesmo ignorada pela maior parte dos brasileiros. Realizado com recursos próprios, o filme obteve verba de finalização (cerca de um terço do orçamento total) de uma parceria da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça com a UFRJ. Retratos de identificação vem participando de mostras no Brasil e no exterior e não tem data de estreia no circuito comercial.


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