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Universidade diversa

Aos 40 anos, Unesp avança em pesquisa e pós-graduação e se mantém como referência em 24 cidades

FABRÍCIO MARQUES | ED. 241 | MARÇO 2016

 

028-032_Unesp_241-01O 12º andar do prédio da Reitoria da Universidade Estadual Paulista (Unesp), no centro de São Paulo, abriga um espaço bastante concorrido. Trata-se de uma sala de reuniões, com vista para a avenida 9 de Julho, dotada de câmeras de vídeo, duas grandes telas planas de TV na parede e um grande logotipo da Unesp ao fundo. Ali, pró-reitores e funcionários da reitoria precisam disputar horários para fazer videoconferências com interlocutores distribuídos pelas 24 cidades que abrigam institutos e unidades da Unesp. A distância física entre os participantes das reuniões virtuais pode chegar a 805 quilômetros – como no caso dos campi de Ilha Solteira, na divisa com Mato Grosso do Sul, e de Guaratinguetá, no Vale do Paraíba. “O sistema de videoconferência custou caro quando foi implantado, alguns anos atrás, mas teve impacto no dia a dia de uma universidade que nasceu descentralizada”, comenta Marilza Vieira Cunha Rudge, vice-reitora da Unesp.

Num dia, veem-se nos aparelhos de TV os coordenadores de cursos de pós-graduação de certa área. No outro, é a vez de gestores de unidades discutirem assuntos administrativos. “A possibilidade de se reunir a distância, além de reduzir custos e derrubar barreiras, permite compartilhar experiências e vem ajudando a moldar uma identidade para a Unesp”, diz Marilza, que é professora da Faculdade de Medicina, campus de Botucatu. A Unesp, que completou 40 anos no dia 30 de janeiro, demorou para construir essa identidade, observa Marilza. Até alguns anos atrás, alunos e professores ainda não se reconheciam como parte da universidade e diziam pertencer aos institutos isolados ou faculdades de filosofia espalhados por cidades como Jaboticabal, Araraquara, Franca e Assis, cada qual com história e cultura acadêmica particulares, que foram reunidos em 1976 graças a uma lei proposta pelo então governador Paulo Egydio Martins. “Hoje, todos dizem que são da Unesp”, afirma a vice-reitora.

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De um consórcio de instituições regionais, a Unesp cumpriu uma trajetória singular, transformando-se numa das principais universidades de pesquisa do país. Manteve-se, porém, como ponto de referência em produção do conhecimento e em ensino superior público no interior de São Paulo, com 37 mil alunos matriculados em 134 cursos de graduação e 3.880 docentes. “Ao traçarmos um círculo com raio de 100 quilômetros ao redor de cada uma dessas 24 cidades, veremos que ocupamos praticamente todo o mapa do estado de São Paulo”, diz o reitor da Unesp, Julio Cezar Durigan. “Se a USP foi criada para ser uma grande universidade e a Unicamp, uma universidade inovadora, a Unesp teve outra proposta: ser a universidade de todo o estado de São Paulo. Isso cria muitos problemas logísticos, mas a interação que temos com todas as regiões é uma riqueza que não tem preço.”

Responsável por 8% da produção científica brasileira, a Unesp publicou, entre 2011 e 2015, uma média anual de 2.927 artigos científicos, segundo dados da base Web of Science. O patamar é três vezes superior ao do período de 2001 a 2005 (ver gráficos nas páginas 32 e 33). De 2007 a 2014, dobrou o número de artigos publicados em colaborações internacionais. A instituição também é forte na formação de pesquisadores. Seus 141 programas de pós-graduação formaram, em 2014, 1.970 mestres e 999 doutores, contingente superado no Brasil apenas pela Universidade de São Paulo (USP). A qualidade dos programas vem melhorando. Na última avaliação trienal da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), divulgada em 2014, pela primeira vez mais da metade dos programas da Unesp foi classificada com as notas mais elevadas (5, 6 e 7).

Em outubro de 1975, o governador Paulo Egydio Martins entregou à Assembleia Legislativa de São Paulo o projeto de criação da Unesp

Em outubro de 1975, o governador Paulo Egydio Martins entregou à Assembleia Legislativa de São Paulo o projeto de criação da Unesp

A pró-reitora de Pesquisa da Unesp, Maria José Soares Mendes Giannini, ressalta que algumas unidades se destacam pela produção científica, mas que todas têm contribuído para ampliar o protagonismo acadêmico da Unesp. “Os institutos de Química, em Araraquara, de Física Teórica, em São Paulo, e de Biociências, tanto de Botucatu quanto de Rio Claro, estão entre as unidades com pesquisas mais internacionalizadas”, afirma. A última edição do Webometrics Ranking of World Universities apontou os cientistas brasileiros mais citados de acordo com o Google Scholar Citations (GSC), indexador acadêmico do Google. Entre os primeiros nomes da lista, há alguns pesquisadores da Unesp, como Sérgio Novaes e Nathan Berkovits, do Instituto de Física Teórica (IFT), José Arana Varela, professor do Instituto de Química de Araraquara e vice-diretor do Centro de Desenvolvimento de Materiais Funcionais (CDMF), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela FAPESP, além de Célio Haddad e Mauro Galetti, do Instituto de Biociências de Rio Claro.

Entre os 14 campi que se aglutinaram em 1976, vários já tinham pesquisa e ensino de qualidade reconhecida, casos por exemplo de Araraquara, nas áreas de farmácia, odontologia e química, de Botucatu, em medicina, ou de Jaboticabal, em ciências agrárias. Ao longo dos anos, a Unesp chegou a outras 10 cidades depois de criar unidades em municípios como São Vicente e Tupã e incorporar instituições como a Universidade de Bauru, com cursos em ciências, engenharias, artes e comunicação, e o Instituto de Física Teórica, na capital paulista, em meados dos anos 1980. “O IFT era uma instituição de pesquisa respeitada internacionalmente que começou a sofrer com a falta de financiamento federal”, lembra Jorge Nagle, reitor da Unesp entre 1984 e 1988. “Com cerca de 15 físicos, tinha uma produção científica superior à de todos os físicos da Unesp. A incorporação foi muito importante tanto para o IFT quanto para a Unesp”, diz.

Em 30 de janeiro de 1976, ele sancionou a lei, num palanque em Ilha Solteira

Em 30 de janeiro de 1976, ele sancionou a lei, num palanque em Ilha Solteira

Nagle conta que, em sua gestão, foi possível modificar pela primeira vez a estrutura da jovem universidade. “O poder estava concentrado em um conselho universitário com poucos professores titulares, em geral resistentes a mudanças”, lembra. “Mesmo sob a égide de uma universidade, os institutos ainda se consideravam instituições separadas.” O apoio do então governador André Franco Montoro foi importante para dar um norte para a instituição. “Conseguimos recursos para contratar mais 40 professores titulares e criamos um novo Estatuto, permitindo a participação de alunos e servidores. Isso ajudou a oxigenar o conselho e envolveu mais unidades no processo de decisão.” Obter recursos para a manutenção da universidade era uma missão trabalhosa. “Os reitores tinham de peregrinar em diversas secretarias para conseguir verbas para novos projetos e iniciativas e precisavam negociar o orçamento com o governo todos os anos”, afirma.

O panorama mudou em 1989, com o advento da autonomia universitária, no governo Orestes Quércia, que garantiu um quinhão fixo da arrecadação de impostos às três universidades estaduais paulistas. “A autonomia criou uma outra concepção de universidade”, diz o reitor Julio Cezar Durigan. “Antes dela, o reitor não fazia outra coisa senão correr com projetos para justificar os gastos no ano seguinte. Com a autonomia, foi possível planejar o futuro da instituição e isso mudou o perfil da Unesp por meio da corresponsabilidade.”

O salto na produção científica e na qualidade da pós-graduação veio nos anos 2000. Com a experiência de quem havia ajudado a criar e a coordenar o bem-avaliado programa de pós-graduação em zootecnia no campus de Jaboticabal, o professor Marcos Macari tornou-se pró-reitor de Pesquisa e Pós-graduação em 2001 e adotou uma estratégia para dar mais consistência aos mais de 180 programas de mestrado e doutorado da instituição. “Eu conhecia bem como funcionavam as regras da Capes, que na época dava notas A, B e C para os programas. Observei que muitos programas da Unesp eram mal avaliados porque não seguiam essas regras”, recorda-se. O primeiro passo foi reunir dados sobre cada um deles e iniciar uma peregrinação pelos campi. “Havia programas com grupos sólidos, que publicavam em boas revistas, mas se mesclavam com professores com produção científica irregular ou inexistente, que puxavam para baixo a avaliação.”

028-032_Unesp_241-02Macari visitou todos os programas e se reuniu com seus professores. Levava transparências que mostravam o desempenho de cada docente. “Eu falava com muita franqueza: esses professores precisam deixar o programa porque não têm produção científica e estão comprometendo a avaliação. Imagine só o tumulto que isso causava”, conta. “Às vezes, o professor havia montado o programa com um esforço enorme e aparecia o pró-reitor dizendo que ele devia ser descredenciado. Eu explicava que minha missão era mostrar como o sistema funciona”, afirma o professor. Em dois anos de trabalho os resultados apareceram. “Muita gente que não publicava deixou os programas. E muita gente que já produzia conhecimento começou a publicá-lo.”

Começaram a funcionar naquela época os embriões de alguns programas hoje consolidados na Unesp, como a oferta de uma contrapartida da universidade para pesquisadores que conseguissem financiamento para seus projetos de pesquisa. “No começo era de 10%, mas depois tivemos que mudar, quando os pesquisadores começaram a receber financiamentos vultosos, de projetos temáticos ou da Financiadora de Estudos e Projetos, a Finep”, diz. Da mesma forma, a Unesp se propôs a pagar as taxas de publicação de artigos e a tradução dos papers para o inglês. “O pessoal acabou gostando e utilizando esses recursos. E nós brigávamos para que os autores não se esquecessem de informar nos artigos que pertenciam à Unesp. Nessa época, era comum que os pesquisadores se dissessem vinculados à sua unidade, mas não à universidade.”

Macari lamenta não ter conseguido viabilizar uma de suas ideias: a criação de grupos virtuais de pesquisa. “Como há campi espalhados por várias regiões, a Unesp tem programas de pós-graduação semelhantes em diversas localidades. Há três programas em veterinária, três em agronomia, três em biologia. A ideia era juntar virtualmente pesquisadores desses programas para que desenvolvessem em conjunto projetos de grande porte. Ninguém aderiu, com exceção de um programa de mestrado e doutorado que reuniu pesquisadores de Presidente Prudente, Araraquara e Bauru por iniciativa do professor José Arana Varela”, recorda-se.

Em 2006, Macari se tornou reitor da Unesp e decidiu dividir em duas a Pró-reitoria de Pesquisa e Pós-graduação. Convidou José Arana Varela, professor do Instituto de Química, campus de Araraquara, para cuidar da pesquisa. “Criamos novos incentivos para que os pesquisadores publicassem em revistas de impacto, como Nature e Science”, diz Varela, que hoje é diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP. “A cada paper publicado, o pesquisador recebia uma quantia e podia usá-la em qualquer atividade de seu grupo: mandar um aluno para fora, fazer uma viagem ou usar no laboratório.” Nessa época, Varela ajudou a montar o núcleo de inovação tecnológica para auxiliar pesquisadores a obter patentes e fazer acordos de transferência de tecnologia com empresas. “Foi um trabalho árduo e logo se mostrou muito mais difícil do que publicar artigos”, lembra. O núcleo foi o embrião da Agência Unesp de Inovação, criada em 2010, coordenada por Varela depois que deixou a pró-reitoria. “Criamos uma estrutura enxuta e eficiente para a agência, e ela trabalhou de forma proativa. Seu mérito foi criar uma cultura de inovação dentro da universidade.”

028-032_Unesp_241-03Também em 2010, vários programas de incentivo à produção científica e à qualidade acadêmica articularam-se no Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) da Unesp, que chegou a ter orçamento de R$ 55 milhões – em 2016, por conta da queda geral na arrecadação do estado, foi fixado em R$ 35 milhões. A intenção do PDI é garantir que programas estratégicos para a universidade tenham recursos reservados e garantidos no orçamento. Há cerca de 20 iniciativas apoiadas. Uma delas buscou induzir a mobilidade dos docentes dos programas de pós-graduação, o que causou certa controvérsia. Os programas com notas 5, 6 e 7 da Capes conquistaram o direito de enviar, durante um mês, um de seus docentes ao exterior, para desenvolver projetos em colaboração, além de trazer um docente estrangeiro para a unidade. O incentivo era ainda maior para os programas com nota mais baixa – os de nota 3 poderiam mandar um docente para fora por até seis meses. “Reclamaram que estávamos protegendo os programas mais frágeis, mas não víamos dessa forma. Para esses programas, passar só um mês no exterior não era suficiente. Era preciso mais tempo para estabelecer laços lá fora”, diz Marilza.

Simultaneamente, a universidade investiu em renovação. Só na segunda metade dos anos 2000, mais de mil novos professores foram contratados. Também foram abertas vagas de professor direcionadas para departamentos vinculados a programas de pós-graduação de excelência – a ideia era gerar mais massa crítica e estimulá-los a crescer. A qualificação dos docentes deu resultados. Em 2001, apenas 40% dos docentes da Unesp participavam de programas de pós-graduação. Hoje, são cerca de 80%. Também foram investidos recursos para promover a internacionalização da universidade – em 10 anos, os convênios com universidades estrangeiras cresceram de 30 para 250. Já a criação de escritórios de apoio ao pesquisador em todas as unidades da Unesp buscou liberar os docentes para fazer pesquisa, reduzindo o trabalho de administrar os projetos.

Unesp_DSC_0241Como a produção científica da Unesp é fortemente concentrada em ciências da vida, foram criados programas para financiar a pesquisa nas áreas de engenharias e humanidades. Também se investiu no resgate de docentes que, envolvidos com ensino e gestão, tinham deixado de ter produção científica. “Uma das estratégias foi oferecer a eles recursos, incluindo bolsas de iniciação científica para seus alunos, de forma que se engajassem em linhas de pesquisa e programas de pós-graduação”, lembra a pró-reitora Maria José Giannini. No campo da pesquisa, foram criados quatro centros interunidades, dedicados a estudos avançados sobre o mar, bioenergia, biotecnologia e políticas públicas, e está sendo montada uma rede virtual de laboratórios multiusuários. “As instalações desses laboratórios poderão ser utilizadas pela web por pesquisadores de diferentes unidades”, diz a professora.

A meta para os próximos anos é expandir o alcance dos objetivos e ações do PDI, criando planos semelhantes no nível das unidades e dos departamentos. “Dessa forma, será possível fazer com que os mesmos estímulos se espalhem em todos os campi”, diz o reitor Júlio Cezar Durigan. Há outros desafios a enfrentar. A Unesp tem se esforçado em atender cada vez mais estudantes oriundos de escolas públicas – um sistema que reserva 50% das vagas para essa categoria de alunos estará implantado até 2018. Para a vice-reitora Marilza Rudge, também é preciso atrair jovens altamente talentosos para dar mais fôlego e diversidade ao ambiente acadêmico. “Precisamos garantir espaço para esses jovens na universidade”, afirma.

O reitor Durigan antevê uma agenda de desafios para os próximos anos. Ele diz, por exemplo, que é necessário mudar a forma de ensinar. “A formação dos estudantes deveria ser mais direcionada para a solução de problemas”, diz, mencionando um projeto-piloto em curso de engenharia civil do exterior que abriu mão de aulas formais e engajou alunos na busca de solução de problemas práticos, sob orientação de um professor. Durigan também acha que a pesquisa na Unesp precisa se transformar. “Não faz sentido um departamento ter mais de 30 linhas de pesquisa. É preciso ter mais foco, definir no máximo cinco linhas que tenham impacto na sociedade e mobilizar os docentes em torno delas.” E, no campo da extensão, a ênfase deveria ser menor na prestação de serviços à comunidade para privilegiar o que ele chama de “extensão inovadora”, definida como a transferência de conhecimento para a sociedade e o setor privado. Se conseguir superar esses desafios, diz o reitor, a Unesp poderá se transformar na maior universidade do país. “Como somos jovens e estamos distribuídos por várias cidades, temos ainda muito tempo e espaço para crescer”, afirma.

Esta é a primeira de uma série de reportagens sobre os 40 anos da Universidade Estadual Paulista, a Unesp


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