RESENHAS

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A biografia política de Caio Prado Jr.

Caio Prado Júnior: Uma biografia política | Luiz Bernardo Pericás | Boitempo | 504 páginas | R$ 63,00

PAULO IUMATTI | ED. 247 | SETEMBRO 2016

 

092_resenha_247_290No livro Caio Prado Júnior: Uma biografia política, Luiz Bernardo Pericás, professor do Departamento de História da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), procura dar uma nova interpretação para a trajetória do historiador, filósofo e editor Caio Prado Jr., com ênfase em sua dimensão política. Nela, fica ressaltada a fidelidade do intelectual aos autores clássicos do marxismo – Marx, Engels e Lenin – e ao comunismo (para Pericás, Caio Prado foi um pensador livre e heterodoxo e, nisso, mais fiel aos “clássicos” do que muitos de seus interlocutores). Destaca-se o detalhamento factual de episódios ou – e aqui está, talvez, sua maior contribuição – de fases inteiras da vida de Caio Prado, relacionados a sua militância e a outros eventos até hoje ignorados ou pouco valorizados pelos estudiosos: suas viagens a países socialistas; as várias prisões; o exílio no Chile; a atuação em diversas organizações; e as muitas intervenções em palestras, cursos e eventos de todo tipo etc. Ao mesmo tempo, o autor esmiúça todo um universo de relações intelectuais, políticas e mesmo familiares.

Em relação aos anos de 1920 a 1940, a biografia faz leituras seletivas (o autor optou, por exemplo, por não utilizar as partes inéditas dos Diários políticos, bem como outros textos políticos do intelectual), sobressaindo, além do detalhamento de alguns episódios biográficos, a análise da primeira viagem à extinta URSS e o peso dado à leitura que Caio Prado fez dos escritos do intelectual russo Nikolai Bukharin. A maior contribuição da obra diz respeito ao pós-Segunda Guerra (embora não se demore muito na atuação do biografado como parlamentar, em 1947). Com relação ao período, o livro consegue mostrar, para além da idealização, por Caio Prado, os regimes totalitários do “socialismo real”, a importância e a complexidade de suas relações com tais regimes ao longo da vida. Ademais, é relevante a ênfase dada às reações do historiador às revelações de Kruschev e, depois, à repressão à Primavera de Praga.

De uma forma geral, Pericás consegue adentrar o intrincado mundo das concepções políticas, dos debates e do contexto social e ideológico do Caio Prado militante – e, ao mesmo tempo, voz dissonante – do Partido Comunista Brasileiro (PCB), colaborando para situar traços de seu pensamento político, como sua defesa da “democracia parlamentar” (voltada para a construção do socialismo) e seu conceito de revolução, e evidenciando, noutro plano, suas conexões com intelectuais latino-americanos e do mundo socialista. Nesse sentido, o livro dá subsídio à história do marxismo, abordando algumas interlocuções e parte da recepção internacional das obras de Caio Prado. Procura, por outro lado, transcender tal enfoque, ao inserir o intelectual em meio a certa linhagem marxista nas Américas (Daniel De Leon, José Carlos Mariátegui, Octávio Brandão etc.), para além das evidências efetivas de contato e diálogo.

A escassa ou seletiva atenção à bibliografia secundária é de certa forma compensada pela exploração das fontes primárias. Entre estas, destacam-se os documentos do Fundo Caio Prado Jr. do Instituto de Estudos Brasileiros da USP – onde o autor fez pós-doutorado com bolsa FAPESP. Trata-se do primeiro estudo publicado que se beneficia de forma mais ampla e sistemática da organização quase completa do fundo.

O uso de avultada documentação primária (memórias, “depoimentos” e, em especial, correspondência) merece algumas ponderações. Sem chegar a comprometer as muitas qualidades da obra, é importante notar que, com algumas exceções (os documentos produzidos pela polícia política, por exemplo), não há nela uma reflexão mais detida sobre a natureza das fontes em que se apoia. Documentos como as cartas parecem ser tomados, por vezes, como manifestações excessivamente transparentes. Já em relação aos depoimentos e memórias do próprio biografado, seria interessante levar em conta a possibilidade de racionalizações a posteriori, ainda maior em contextos de luta política.

Tudo isso, porém, não chega a prejudicar as contribuições que o livro, em esmerada edição da Boitempo, traz não só aos estudos sobre Caio Prado, mas também à reflexão sobre o Brasil contemporâneo, no que tange à natureza das nossas instituições e aos impasses das lutas contra as desigualdades sociais e do próprio pensamento de esquerda no país.

Paulo Iumatti é professor do Instituto de Estudos Brasileiros da USP.


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