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Medicamentos em detalhes

Pesquisadores do departamento criado por Oswaldo Vital Brazil estudam mecanismo de ação e estratégias de uso de remédios

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | Unicamp 50 anos | SETEMBRO 2016

 

Toxinas presentes no veneno de serpentes são pesquisadas há mais de 50 anos

Toxinas presentes no veneno de serpentes são pesquisadas há mais de 50 anos

Em meados de 2010, em uma conversa informal com biólogos em um macacário no Rio de Janeiro, o médico e farmacologista Gilberto De Nucci surpreendeu-se ao descobrir que os répteis talvez tenham sido os primeiros animais a desenvolver pênis, e que as cascavéis são capazes de manter uma ereção por até 20 horas. Na época, De Nucci trabalhava na produção de um medicamento para tratar a disfunção erétil e passou a tentar entender como funcionavam em diferentes espécies animais os mecanismos relacionados à ereção, evento fisiológico complexo que, no caso dos seres humanos, envolve a ação orquestrada de aspectos psíquicos, neurais e vasculares. Em uma de suas linhas de pesquisa no Departamento de Farmacologia da Faculdade de Ciências Médicas (FCM), sua equipe estuda canais de sódio acoplados à musculatura lisa do corpo cavernoso do pênis, que nas cobras e serpentes é um órgão bifurcado, chamado hemipênis.

O pênis humano e o de outros mamíferos produz a ereção quando seus corpos cavernosos relaxam e se enchem de sangue. Esse efeito é consequência da ação de compostos que bloqueiam os canais de sódio, como a tetrodotoxina, uma potente neurotoxina. Logo que começou a trabalhar com as cascavéis, De Nucci e seu grupo observaram que o mecanismo de ereção desses répteis era diferente. De modo diverso ao que ocorre com os mamíferos, a tetrodotoxina não causa relaxamento e intumescimento do hemipênis das cobras e de outros répteis. “Entender como funcionam esses e outros mecanismos associados à ereção desses animais pode ampliar a perspectiva de desenvolver novas formas de tratamento para a disfunção erétil em humanos”, diz o pesquisador, que há 20 anos trabalha na concepção de fármacos e já desenvolveu três medicamentos, um deles, o lilalfil, produzido pelo laboratório nacional Cristália.

Os répteis ocupam hoje um lugar central na vida de De Nucci, assim como o fizeram na do farmacologista Oswaldo Vital Brazil (1912-2008), fundador do Departamento de Farmacologia da Unicamp, em 1964 – àquela época o departamento integrava a Faculdade de Medicina de Campinas, criada em 1963. Filho do herpetólogo e higienista Vital Brazil (1865-1950), primeiro diretor do Instituto Butantan, em São Paulo, Oswaldo estudou os efeitos neurotóxicos de peçonhas de cobras, aranhas e escorpiões.

O médico Oswaldo Vital Brazil (à esq.) e a farmacologista Julia Franceschi (de blusa clara) na década de 1970

O médico Oswaldo Vital Brazil (à esq.) e a farmacologista Julia Franceschi (de blusa clara) na década de 1970

Relaxante muscular
Natural de São Paulo, Oswaldo Vital Brazil formou-se em medicina no Rio de Janeiro, onde fez pesquisas com botânicos, químicos, médicos e veterinários no Instituto Vital Brazil, em Niterói, fundado por seu pai. Um dos trabalhos de Oswaldo Brazil resultou na identificação da ação neuromuscular da estreptomicina, um composto identificado pelo bioquímico ucraniano Selman Waksman nos anos 1940 e por muito tempo usado como antibiótico contra a tuberculose. “O estudo que identificou o mecanismo de toxicidade aguda da estreptomicina foi publicado em 1957 no Journal of Pharmacology and Experimental Therapeutics e revelou-se uma das pesquisas de maior relevância em farmacologia na década”, afirma a farmacologista Julia Prado-Franceschi, fundadora da Sociedade Brasileira de Toxinologia em 1989 e que durante 40 anos trabalhou com o pesquisador na Unicamp.

Oswaldo Vital Brazil chefiou o Departamento de Farmacologia de 1964 a 1982. Nesse período, sua equipe esclareceu os mecanismos de ação de diversos venenos e toxinas das serpentes. Entre as principais contribuições estão a caracterização farmacológica da crotoxina, da crotamina e da convulxina, importantes neurotoxinas da peçonha da cascavel, e a da bothropstoxina-I, do veneno da jararacuçu, realizada pela farmacologista Lea Rodrigues Simoni. As pesquisas em toxinologia, reconhecidas internacionalmente, criaram as condições para os estudos em farmacologia clínica, área que investiga o mecanismo de ação e as estratégias de administração de fármacos. “Essas são hoje as duas linhas de pesquisa que se destacam no departamento”, afirma o farmacologista Edson Antunes, que estuda, em modelos experimentais, a fisiopatologia da incontinência urinária e a asma alérgica no diabetes tipo 2.

Antunes está no departamento desde 1981. Segundo ele, o trabalho em farmacologia clínica permitiu formar no início dos anos 1990 uma geração de pesquisadores especializados em ensaios de bioequivalência – subárea da farmacologia, então quase desconhecida no Brasil. Os testes de bioequivalência avaliam se duas preparações liberam no organismo as mesmas quantidades de um determinado composto, mantendo sua eficácia e segurança. Esse tipo de ensaio é fundamental para garantir que medicamentos genéricos funcionem tão bem quanto os originais ou medicamentos de marca. Para Antunes, a consolidação dessa especialidade na Unicamp ajudou a conscientizar o Ministério da Saúde, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a indústria farmacêutica da importância de criar meios para monitorar a qualidade dos medicamentos. “Isso permitiu criar leis federais específicas para o controle da qualidade dos fármacos no Brasil e a introdução da lei de genéricos, o que proporciona enorme economia para os governos federal e estadual”, afirma o farmacologista.


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