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Compositor Bob Dylan ganha o Nobel de Literatura

Prêmio rompe com a tradição ao distinguir uma obra realizada principalmente no campo musical

MÁRCIO FERRARI | Edição Online 0:49 14 de outubro de 2016

 

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O prêmio Nobel de Literatura de 2016 foi concedido ao compositor e cantor norte-americano Bob Dylan, de 75 anos. Segundo o anúncio da Academia Sueca, feito em Estocolmo nesta quinta-feira, 13, Dylan foi escolhido por “ter criado novas expressões poéticas dentro da grande tradição da canção norte-americana”, deixando claro que o prêmio foi concedido principalmente pelas letras das músicas de Dylan, que também publicou livros como Tarântula (1971), de prosa poética, e a autobiografia Crônicas – Vol. 1 (2004), ambos com edições brasileiras esgotadas.

Embora o prêmio pareça uma surpresa, o compositor já constava da lista de favoritos ao Nobel há alguns anos. Um membro da Academia Sueca, o escritor Per Wästberg, afirmou que “ele provavelmente é o maior poeta vivo”. Sobre o caráter não impresso da produção principal de Dylan, a secretária permanente da academia e professora de literatura Sara Daniu comparou-a à obra dos poetas gregos Homero e Safo, que era divulgada oralmente. Em 1913, outro músico, Rabindranath Tagore, autor do hino nacional da Índia, havia sido premiado com o Nobel, mas era conhecido internacionalmente por sua poesia escrita.

“Dylan gravou um grande número de álbuns tratando de assuntos como condições sociais, religião, política e amor”, diz a nota biográfica divulgada pela comissão julgadora junto com o anúncio. “Ele tem o status de ícone. Sua influência na música contemporânea é profunda e sua obra tem sido objeto contínuo de estudos literários.” Entre os mais importantes dos 69 álbuns de Dylan – gravações de estúdio, registros ao vivo e coletâneas –, estão Bringing It All Back Home e Highway 61 Revisited (1965), Blonde on Blonde (1966), Blood on the Tracks (1975) e Time out of Mind (1997). O mais recente, Fallen Angels, o segundo dedicado a canções do repertório de Frank Sinatra (1915-1998), foi lançado este ano. Algumas de suas canções – como Blowing in the wind, Like a rolling stone e The times they are a-changing – tornaram-se símbolos do pacifismo e do movimento norte-americano pelos direitos civis nos anos 1960. Desde 1988, o artista tem se apresentado em uma média de 100 shows por ano.

“O prêmio tem muita importância para a indústria cultural, que vai produzir muita coisa em torno dele, como faz em todos os anos, mas creio que numa escala diferente”, diz Alcir Pécora, professor do Instituto de Estudos de Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (IEL-Unicamp). “Dylan não é figura importante apenas do ‘mundo literário’, mas de qualquer mundo conhecido. Seja como for, a premiação dá uma rejuvenescida ao próprio Nobel, cujas escolhas em literatura ultimamente pareciam muito voltadas para o ativismo e a edificação política.” As letras de Dylan “sustentam-se muito bem como poesia, separadas de toda execução musical”, diz Pécora. “Em termos literários, o que há de melhor nele é a retomada da tradição inglesa do bardo, arcaica e popular, que canta ou declama os seus versos simbólicos, obscuros, com dicção e ritmos bem marcados da poesia oral.”

O nome de batismo de Dylan é Robert Allen Zimmerman, nascido em 24 de maio de 1941 em Duluth, estado de Minnesota, numa família judia de classe média. Como cantor, guitarrista e gaitista, desde a adolescência Dylan integrou bandas influenciadas pelo músico folk Woody Guthrie e pelos poetas da geração beat, como Allen Ginsberg. Depois de abandonar a universidade, em 1959, aos 18 anos, começou a se apresentar, com sua voz marcante e áspera, no circuito folk de Nova York. Aos 21 anos assinou contrato para o primeiro disco, que levou apenas seu nome na capa, e no ano seguinte, 1963, participou da Marcha por Empregos e Liberdade de Washington ao lado de outros artistas, entre eles a cantora Joan Baez, que gravaria várias de suas canções.

Em 1965, o compositor foi vaiado por seu público tradicional ao se apresentar com guitarras elétricas no Festival Folk de Newport. Depois de um acidente de motocicleta em 1966, Dylan ficou cerca de dez anos sem se apresentar ao vivo. “No fim dos anos 1960, Dylan passou por uma crescente frustração com o que ele veio a considerar uma tendência panfletária, dogmática e doutrinária de esquerda no ambiente da música folk”, escreveu o jornalista Giles Harvey na The New York Review of Books em 2010. Segundo Harvey, nessa época o artista começou a compor “versos visionários e obscuros” com “uma reunião de personagens da história, da literatura, de lendas, da Bíblia e de muitas outras origens”. Para Pécora, os versos de Dylan têm “ameaçadores acentos proféticos”. Ele acrescenta: “Não se sabe bem o que significam, uma vez que são obliquamente alegóricos, mas sabe-se bem que o conjunto nos ameaça com um desastre iminente. Num tempo em que o futuro parece suspenso, Dylan é o apocalítico certo para ser premiado.”

Antes do Nobel, Dylan havia recebido, entre outros prêmios para sua música, um Pulitzer (voltado para literatura e jornalismo) especial “por sua contribuição à música e à cultura norte-americanas”, em 2008, e uma Medalha Especial da Liberdade do presidente Barack Obama, em 2012. Com o prêmio desta semana ele recebe 8 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 3 milhões).


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