BOAS PRÁTICAS

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O perigo de publicar em revistas predatórias

ED. 249 | NOVEMBRO 2016

 

009_290_BoasPraticas_249Existem publicações acadêmicas, apelidadas de revistas predatórias, que são conhecidas por divulgar papers sem submetê-los a uma genuína revisão por pares – basta pagar para ver o artigo publicado. O pesquisador Alexander Martin, do Colégio de Engenharia da Universidade de Kentucky, nos Estados Unidos, mostrou que o espectro de problemas causados por essas revistas pode ser mais sério do que se imaginava.

Martin selecionou revistas de uma lista de mais de mil periódicos, provavelmente predatórios, que é atualizada por pesquisadores da Universidade do Colorado. A meta do pesquisador era submeter aos editores dessas revistas papers que, em condições normais, jamais seriam aceitos para publicação – e ver qual seria a reação deles. A primeira tentativa se deu com uma revista on-line chamada International Journal of Comprehensive Research in Biological Sciences, sediada na Índia. Martin enviou um manuscrito de 153 palavras cujo conteúdo fora copiado de um trabalho de escola feito por seu filho Tristan, de 7 anos, sobre morcegos. O texto reproduzia frases escritas pelo garoto, como “morcegos são animais muito legais” ou “dormem durante o dia e voam à noite”. A revista logo enviou um e-mail pedindo para os autores acrescentarem pelo menos cinco referências. Martin atendeu o pedido. Um novo e-mail informou que o artigo havia sido preliminarmente aceito para publicação. Em anexo, vinha a cobrança de uma taxa de US$ 60.

“Esperava que algumas revistas aceitassem esse tipo de artigo, considerando experiências anteriores, mas isso aconteceu já na primeira tentativa”, disse Martin ao site Retraction Watch, referindo-se a casos como a publicação de artigos falsos e sem sentido produzidos por um programa de computador (ver Pesquisa FAPESP nº 219).

Martin não pagou a taxa. Semanas depois, recebeu um segundo e-mail do editor, cobrando novamente os US$ 60 e apresentando uma nova versão do texto, essa já revisada e pronta para publicação. O manuscrito havia sido completamente reescrito em um linguajar científico – só o título e os autores permaneceram. Sua primeira impressão foi boa, mas logo ele descobriu que havia algo errado: o artigo tornara-se uma colagem de trechos plagiados de dois outros papers, numa fraude praticada pelos próprios editores da revista. “Fiquei chocado ao imaginar que alguém pudesse fazer uma coisa dessas”, disse. “Essas revistas têm um impacto muito negativo na comunidade científica e todos precisam estar conscientes disso.” A revista indiana deixou de existir – seu site saiu do ar em janeiro. Martin registrou as lições tiradas do episódio num artigo publicado na revista Learned Publishing.

Artigo científico
Martin, A. et al. A not-so-harmless experiment in predatory open access publishing. Learned Publishing. v. 29, n. 4, p. 301-05. out. 2016.


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