MEMÓRIA

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Benvenuti, doutores

Vinda de médicos italianos na virada do século XX para São Paulo teve impacto no ensino e na pesquisa médica

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | ED. 252 | FEVEREIRO 2017

 

Vista aérea do conjunto de prédios da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, criada em 1912, na Av. Dr. Arnaldo

Vista aérea do conjunto de prédios da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, criada em 1912, na Av. Dr. Arnaldo

A expansão da cultura cafeeira pelo interior de São Paulo no final do século XIX desencadeou um intenso fluxo migratório de trabalhadores europeus, sobretudo italianos, em busca de melhores condições de vida. A vinda desses imigrantes para trabalhar na agricultura e nas fábricas que começavam a se multiplicar nas cidades contribuiu para o desenvolvimento econômico e para a expansão demográfica do estado. Pouco conhecida, no entanto, é a trajetória dos médicos italianos que também chegaram a São Paulo motivados pela ampliação do seu campo de atuação, em decorrência da criação de instituições de saúde pública. Estima-se que cerca de 250 médicos formados na Itália se estabeleceram em terras paulistas entre 1880 e 1930. Pode parecer pouco, mas vários deles tiveram participação de destaque na formação e no desenvolvimento da pesquisa científica paulista, deixando sua marca na história da saúde do estado.

Em fins do século XIX, São Paulo passou a enfrentar as mesmas moléstias que castigavam a cidade do Rio de Janeiro. A eclosão de epidemias de febre amarela, peste bubônica, varíola, entre outras, desencadeadas por péssimas condições sanitárias e disseminadas pela intensa movimentação de pessoas entre as cidades e o campo, alterou as condições sanitárias do estado. Diante da degradação das condições de vida da crescente população, o governo italiano, baseado em relatórios de agentes enviados para inspecionar a situação de vida e trabalho dos imigrantes, passou a desaconselhar a ida para o Brasil. Pressionado pelo surgimento de surtos e epidemias, que afetavam não só a população, mas também o desenvolvimento econômico, o governo de São Paulo elaborou uma série de medidas de reforma da saúde pública.

Gravura do prédio do Instituto Vacinogênico produzida pelo artista paulista Wasth Rodrigues

Gravura do prédio do Instituto Vacinogênico produzida pelo artista paulista Wasth Rodrigues

As ações culminaram na criação de instituições como o Instituto Bacteriológico, em 1893, e o Instituto Vacinogênico, em 1894. Essas instituições mais tarde se fundiram sob o nome de Instituto Butantan. Em 1940, no entanto, ao se desligar do Butantan, o Instituto Bacteriológico passou a se chamar Instituto Adolfo Lutz. “São Paulo foi o estado que mais investiu em saúde pública e no combate a doenças epidêmicas na virada do século passado”, afirma o historiador Claudio Bertolli Filho, professor do Programa de Pós-graduação em Educação para a Ciência da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru, interior paulista. Segundo ele, a gravidade das epidemias acelerou o ritmo dos avanços institucionais nessa área e ampliou a demanda por profissionais de saúde. Atraídos pelas novas condições, médicos italianos já estabelecidos no país se mudavam de outros estados para São Paulo ou vinham diretamente do exterior.

A participação de empresários de origem italiana na indústria paulista, como Francesco Matarazzo (1854-1937), estimulou a criação de hospitais, casas de beneficência e sociedades de socorro mútuo, como a Sociedade Italiana de Beneficência em São Paulo — mantenedora do Hospital Umberto I, que funcionou no bairro da Bela Vista entre 1904 e 1993 —, atraindo ainda mais os profissionais estrangeiros. “Os médicos italianos já tinham algum conhecimento em microbiologia e doenças tropicais”, diz Bertolli. “Outros vieram acreditando que sua clientela cativa seria formada pelos imigrantes italianos, mas logo passaram a atender toda a população.”

Alfonso Bovero criou e organizou o Departamento de Anatomia da Faculdade Medicina da USP

Alfonso Bovero criou e organizou o Departamento de Anatomia da Faculdade Medicina da USP

A situação da ciência e da clínica médica italiana se distinguia da do resto da Europa em fins do século XIX, conforme verificou a socióloga Maria do Rosário Rolfsen Salles, da Universidade Anhembi Morumbi, no livro Médicos italianos em São Paulo (1890-1930): Um projeto de ascensão social (Sumaré, 1997). Segundo a pesquisadora, a laicização do atendimento médico que se seguiu à reforma protestante na Europa não se aplicou à Itália. “O controle exercido pela Igreja nos hospitais e sobre as práticas médicas dificultava a ascensão profissional dos médicos no país e a aplicação do conhecimento adquirido”, diz. A opção pela emigração, desse modo, encontrou sua razão também nas condições de desenvolvimento da ciência e da prática médica italianas.

À época, os médicos paulistas cursavam escolas de medicina no Rio ou na Bahia. Em raros casos, iam estudar no exterior. “Ao trazer e disseminar novos conhecimentos e práticas da Europa, os médicos italianos tiveram um papel importante no ensino e na pesquisa médica desenvolvida em São Paulo”, conta o sociólogo Luiz Antonio de Castro Santos, professor do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Castro Santos estudou a trajetória dos médicos italianos em São Paulo na Primeira República ao lado de Salles, entre elas a de Giovanni Sanarelli, conhecido por ter isolado o bacilo icteroide, considerado o causador da febre amarela — hoje se sabe que a doença é causada por um arbovírus do gênero Flavivírus.

No bairro da Bela Vista, em São Paulo, Hospital Umberto I atraiu médicos italianos espalhados pelo Brasil

No bairro da Bela Vista, em São Paulo, Hospital Umberto I atraiu médicos italianos espalhados pelo Brasil

Sanarelli desembarcou em São Paulo em 1898 e participou intensamente da campanha de erradicação da febre amarela em São Carlos do Pinhal, no interior do estado. A partir de 1900 começaram a chegar outros médicos da Itália, como Alfonso Splendore. Aos 22 anos de idade, Splendore se envolveu nas atividades do Instituto Bacteriológico, então chefiado pelo médico Adolfo Lutz (1855-1940), pesquisando e escrevendo sobre toxoplasmose, leishmaniose, blastomicose sul-americana — um tipo de infecção causada por fungo — e sífilis, uma das doenças consideradas vilãs da saúde pública no Brasil nas primeiras duas décadas do século XX.

O peso das doenças dos olhos entre os imigrantes italianos foi responsável pela vinda de oftalmologistas como Giuseppe Zaccaro, que participou da erradicação da epidemia de conjuntivite granulosa, também conhecida como tracoma, em Taquaritinga. O tracoma atingiu um número considerável de pessoas no interior de São Paulo naquele período. A intensa propagação da doença fez com que, em 1906, as autoridades estaduais criassem comissões de tratamento e profilaxia do tracoma, um serviço custoso que exigia a instalação de postos de tratamento espalhados por municípios que, em alguns casos, chegavam a mais de 400 quilômetros da capital.

Fachada do Instituto Pasteur de São Paulo, inaugurado em agosto de 1903, na capital

Fachada do Instituto Pasteur de São Paulo, inaugurado em agosto de 1903, na capital

Três anos antes, em novembro de 1903, o oftalmologista italiano Francisco Pignatari já havia se antecipado às ações do Serviço Sanitário de São Paulo na assistência às pessoas com tracoma ao fundar o Hospital Ophtálmico do Morro Vermelho, o primeiro de São Paulo, segundo a pesquisadora Soraya Lodola, do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O hospital dispunha de capacidade para atender 314 pacientes, amplos salões e quartos apropriados a diversos tipos de enfermidades oftálmicas. “Em poucos meses o hospital se tornou um importante centro de assistência às pessoas com tracoma”, diz Soraya. Em 1906, segundo ela, foram atendidos 2.934 pacientes, dos quais 2.390 tinham tracoma e 544 outras doenças oftalmológicas. “As contribuições de Pignatari foram de grande valia para a história do combate à epidemia de tracoma”, afirma.

O movimento de interesse científico ligado à medicina e à saúde pública em São Paulo culminou na criação do Instituto Pasteur, em agosto de 1903, na capital. Voltado ao desenvolvimento da medicina laboratorial por meio da pesquisa bacteriológica, do ensino da microbiologia e da produção de imunizantes, o instituto criou um espaço de discussão, ensino e investigação científica, preenchendo, em certa medida, a falta de uma faculdade de medicina em São Paulo, que só viria a ser criada em 1912.

Médico italiano Alfonso Splendore trabalhou ao lado de Adolfo Lutz no antigo Instituto Bacteriológico

Médico italiano Alfonso Splendore trabalhou ao lado de Adolfo Lutz no antigo Instituto Bacteriológico

O instituto foi dirigido inicialmente pelo médico italiano Ivo Bandi, que deixou o cargo por divergências com o médico infectologista Emílio Ribas (1862-1925), então diretor do Serviço Sanitário paulista. Em 1906, Antônio Carini, bacteriologista italiano e diretor do Instituto de Bacteriologia, Soroterapia e Moléstias Infecciosas de Berna, na Suíça, aceitou o cargo de diretor do Pasteur, ampliando os trabalhos do instituto no tratamento antirrábico. “Os médicos brasileiros esperavam dos italianos um conhecimento médico mais aperfeiçoado do que aquele ensinado nas escolas médicas nacionais”, diz Bertolli. “Por isso os convidavam para vir para São Paulo.” Segundo Castro Santos, também se esperava desses profissionais uma formação clínica baseada em pesquisas em saúde pública, o que mais tarde contribuiu para a formação de médicos no Instituto de Higiene – atual Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) –, criado em 1918.

Em 1912 muitos dos profissionais italianos deixaram os institutos onde trabalhavam para lecionar na recém-criada Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, que começou a funcionar no ano seguinte. As disciplinas clínicas, em geral, eram ministradas por professores da elite médica paulista, enquanto as disciplinas básicas, como parasitologia, microbiologia, fisiologia, patologia e anatomia patológica, eram deixadas aos professores estrangeiros. Alessandro Donati se tornou professor de patologia geral e experimental e Carini deixou o Instituto Pasteur para ensinar microbiologia e imunologia na nova faculdade.

Em 1912, o bacteriologista Antônio Carini (à dir.) deixou a direção do Pasteur para lecionar na Faculdade de Medicina de São Paulo ao lado do patologista Alessandro Donati (à esq.)

Em 1912, o bacteriologista Antônio Carini (à dir.) deixou a direção do Pasteur para lecionar na Faculdade de Medicina de São Paulo ao lado do patologista Alessandro Donati (à esq.)

Outro nome importante para a consolidação do ensino médico paulista é o do anatomista italiano Alfonso Bovero, que se juntou ao corpo docente da nova faculdade a convite do médico Arnaldo Vieira de Carvalho (1867-1920), um dos idealizadores da Faculdade de Medicina e Cirurgia, uma das unidades que em 1934 formaram a USP. Bovero chegou a São Paulo como uma “estrela acadêmica” devido ao prestígio que obtivera na Europa. “O anatomista italiano criou e organizou o Departamento de Anatomia da faculdade, sendo um dos primeiros no Brasil a ensinar que a anatomia, enquanto disciplina, deveria ser entendida como um saber próprio e que ganhava importância quando associado a disciplinas como fisiologia e patologia”, escreveu Bertolli em um artigo publicado na revista História, Ciência, Saúde — Manguinhos com a psicóloga Ana Carolina Talamoni, tratando do ensino da anatomia no Brasil à luz das ideias de Bovero.

Bovero teve também campo fértil de pesquisa no Hospital Umberto I, e ao lado de outros médicos e pesquisadores ajudou a fundar a Revista ARS Médica. A publicação foi um importante veículo de discussão dos resultados de estudos desenvolvidos na Faculdade de Medicina e, ao mesmo tempo, aproximou as áreas de ensino e pesquisa, uma vez que grande parte dos trabalhos publicados era de professores da nova escola médica de São Paulo, segundo Salles. “A participação dos médicos italianos foi determinante para a formação da comunidade científica paulista, para o desenvolvimento da pesquisa científica e para a difusão da ciência microbiológica”, conclui.


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