NOTÍCIAS

Print Friendly

Estudo mostra por que o olfato varia ao longo da vida

Influências genéticas e ambientais determinam a construção do órgão detector de odores no nariz

MARIA GUIMARÃES | Edição Online 15:00 26 de abril de 2017

 

Epitélio olfatório de camundongo, localizado no fundo da cavidade nasal

Epitélio olfatório de camundongo, localizado no fundo da cavidade nasal

A capacidade de perceber odores não permanece constante ao longo da vida, e um estudo feito por pesquisadores da Inglaterra, dos Estados Unidos e do Brasil indica por quê. “A construção celular e molecular do epitélio olfatório depende de instruções genéticas e também se altera conforme a experiência de vida do indivíduo”, afirma o biólogo Fabio Papes, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), um dos autores do trabalho. Além do componente genético responsável por moldar o sistema olfatório, os dados indicam que o ambiente também desempenha um inusitado papel, conforme descreve artigo publicado no dia 25 de abril na revista científica eLife.

Os pesquisadores destrincharam a contribuição dos genes e do ambiente na formação do olfato, sentido responsável por avaliar a qualidade dos alimentos, potenciais parceiros sexuais, competidores e predadores nos arredores. Para tanto, lançaram mão de duas linhagens distintas de camundongos, cada uma delas com todos os representantes geneticamente idênticos.

O sequenciamento do RNA desses animais permitiu caracterizar de forma completa a expressão gênica nos neurônios do tecido olfatório. Com essa abordagem, o grupo demonstrou que a construção dos neurônios que detectam odores dentro do nariz é diferente entre animais das duas linhagens, mesmo quando criados no mesmo ambiente.

Acontece que cada neurônio vive apenas alguns meses, em média, antes de ser substituído. Os experimentos mostraram que essa substituição, embora dependa dos genes, não é aleatória nem pré-determinada. A vida em ambientes diferentes parece direcionar os tipos de neurônios olfatórios formados, garantindo uma maior capacidade de reconhecimento dos odores comuns no ambiente.

Algo semelhante pode acontecer com os demais sentidos, Papes afirma, inclusive no ser humano. Ele também enxerga um impacto potencial na medicina personalizada, que leva em conta as reações de cada pessoa aos medicamentos e às estratégias de tratamento. Reações que podem ser distintas em parte devido às características individuais do sistema sensorial. “Eventualmente, fármacos poderão ser desenvolvidos para tratar distúrbios sensoriais ou modular comportamentos em grupos específicos de pessoas”, afirma.

Artigo científico
IBARRA-SORIA, X. et al. Variation in olfactory neuron repertoires is genetically controlled and environmentally modulated. eLife. v. 6, e21476. 25 abr. 2017.


Matérias relacionadas

BIOLOGIA CELULAR 
Estruturas explicam funcionamento dos neurônios que detectam odores
CAPA
Brasileira ajuda a desvendar as bases neurológicas e genéticas do olfato
RATOS
Pesquisadores identificam receptores do órgão vomeronasal