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Fonte de riqueza

Melhoramento genético transforma o cultivo de soja, milho, feijão e algodão no país

RICARDO ZORZETTO | IAC 130 anos | SETEMBRO 2017

 

Vagens de feijão-carioca colhidas na plantação experimental em Campinas

O agrônomo Alisson Chiorato se orgulha das variedades de feijão que ajudou a desenvolver no Centro de Grãos e Fibras do IAC. Ele estuda o melhoramento genético do feijoeiro há quase uma década e, com sua equipe, trabalhou na geração de 16 novas cultivares dessa leguminosa. É uma tarefa que exige conhecimento e paciência. Para se obter plantas cada vez mais produtivas e resistentes a pragas e doenças, é preciso cruzar variedades já conhecidas, gerar sementes, plantá-las em diferentes condições de solo e clima e aguardar o resultado, o que consome anos de testes. Em abril deste ano, Chiorato apresentou na Agrishow, a maior feira de tecnologia agrícola da América Latina, realizada em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, duas novas variedades de feijão gourmet, destinadas à exportação. Uma é a cultivar IAC Tigre, que produz um feijão rajado de grão mais alongado, muito consumido no México e na Europa. A outra, a cultivar IAC Nuance, é a primeira variedade nacional de um feijão do tipo cranberry, com grãos de casca cor de avelã e listras púrpura, bastante aceito nos Estados Unidos, no Canadá e também na Europa. “Antes de criarmos essa cultivar, quem plantava esse feijão no Brasil usava sementes importadas”, conta Chiorato.

No ano anterior, ele e sua equipe já haviam lançado na Agrishow outra variedade do feijão-carioca, há tempos o preferido dos brasileiros. É a IAC Sintonia, que gera um feijão com casca creme rajada de marrom e alta produtividade. A depender da época de plantio, essa variedade rende quase 4 toneladas por hectare (ton/ha), cerca de 12% mais do que a cultivar Milênio, da geração anterior. “Conseguimos uma planta de porte ereto, sistema radicular robusto, resistência à seca e às pragas, além de maior produtividade por área plantada”, explica Chiorato, atual diretor do Centro de Grãos e Fibras.

Com a Sintonia, o IAC chegou à 12a geração de cultivares de feijoeiro tipo carioca, resultado de quase cinco décadas de melhoramento dessa variedade da leguminosa. “O melhoramento do feijão começou em 1932, mas o grande impulso dado a essa cultura aconteceu no final dos anos 1960, quando o IAC lançou a variedade de feijão-carioca”, conta o agrônomo Sergio Augusto Morais Carbonell, diretor-geral do IAC e pesquisador especializado em feijão.

Em meados dos anos 1960, equipes do instituto identificaram em uma fazenda no município de Palmital, no oeste de São Paulo, uma variedade de feijoeiro mais produtiva que as então cultivadas no país. Era uma planta que dava grãos com casca de cor creme e listras marrons, apelidada de carioquinha pelo dono da propriedade, por lembrar a pelagem dos porcos dessa raça criados ali e não por ter algo a ver com o Rio de Janeiro. Após testes e cruzamentos feitos por equipes do instituto, ela foi lançada como cultivar em 1969 e, seis anos mais tarde, já era a mais plantada em todo o estado. Hoje 70% do feijão produzido no país é do tipo carioca.

“Esse trabalho fez o consumo do feijão-carioca superar o das variedades antes tradicionais, como o rosinha, o roxinho, o manteiga e o jalo, e permitiu que o cultivo se tornasse um negócio viável no Brasil”, afirma Chiorato. Os feijões cultivados antes do carioca apresentavam baixa produtividade (500 quilos por ha). Hoje o país é o terceiro maior produtor de feijão no mundo. São quase 3 milhões de ha plantados que devem resultar na colheita de 3,3 milhões de toneladas de feijão – estima-se que quase 20% sejam cultivares desenvolvidas no IAC.

Sementes de feijão que integram a coleção do Centro de Grãos e Fibras

Plumas do campo
A maior parte do trabalho no Centro de Grãos e Fibras consiste no melhoramento genético e no desenvolvimento de cultivares não apenas de feijoeiro, mas também de algodoeiro, amendoinzeiro, arroz, aveia, trigo, milho e outros grãos e plantas fibrosas. No caso do algodoeiro, o esforço de aumentar a área plantada e a produtividade começou no IAC com o engenheiro-agrônomo maranhense Raimundo Cruz Martins. Em 1924, ao retornar de um período de estudos nos Estados Unidos, Martins passou a selecionar as variedades de algodoeiro mais produtivas entre as existentes em São Paulo e a distribuir as sementes melhoradas, para alavancar a produção da fibra no estado.

As cultivares de algodoeiro do IAC substituíram, em parte, os cafezais e deram novo fôlego à agricultura paulista depois da crise da bolsa de Nova York de 1929. “As duas culturas criaram as condições básicas para a industrialização de São Paulo, porque geravam riquezas e introduziam moedas fortes. Fazendeiros e empreendedores conseguiram comprar equipamentos”, escreveu Armando Conagin, engenheiro-agrônomo e estatístico do IAC, no livro Ciência da terra, publicado em 2008 em homenagem aos 120 anos do IAC.

As lavouras de algodoeiro, inicialmente restritas à região de Campinas e Americana, espalharam-se por todo o interior. Nas décadas de 1950 e 1960, os algodoeiros ocuparam 1 milhão de ha de terras paulistas. “Antes do surgimento da Embrapa e do Instituto Agronômico do Paraná, nos anos 1970, todo o algodão plantado no Brasil tinha como origem o IAC”, afirma o engenheiro-agrônomo Edivaldo Cia, que iniciou sua carreira de pesquisador no IAC em 1967 e há dois anos está aposentado. “Fornecíamos semente para todo o país”, lembra.

O programa de melhoramento do algodoeiro nunca foi interrompido e gerou 30 cultivares da planta. Os mais recentes, como o IAC RDN, de 2016, e o IAC FC 1 e o IAC FC2, que produzem fibras coloridas, são resistentes a múltiplas doenças e pragas. Nos anos 1980, a chegada de uma nova praga ao país – o bicudo (Anthonomus grandis), besouro que danifica o botão do algodoeiro – fez essa cultura migrar de São Paulo e do Paraná para os estados do Centro-Oeste e do Nordeste. Na década seguinte, multinacionais produtoras de sementes entraram no mercado nacional e disseminaram as variedades de algodão transgênico, resistentes a lagartas e ao uso de herbicidas, que hoje dominam o cultivo do algodão no Brasil. Em cinco décadas, a quantidade de semente usada diminuiu 85% e a produtividade aumentou quase 40% – hoje é de 3,7 ton/ha. A área plantada no país continua na casa de 1 milhão de ha e o Brasil é o quinto maior produtor do mundo. “Nossas variedades são tão produtivas quanto as transgênicas, desde que se faça o controle adequado de pragas e plantas daninhas”, afirma Cia.

Plumas de fibra colorida produzidas por uma variedade de algodoeiro desenvolvida recentemente

Fora de época
A equipe do IAC voltou a fazer história no início dos anos 1990, quando o governo federal extinguiu a Comissão para a Compra do Trigo Nacional (Cetrin), órgão ligado ao Banco do Brasil e responsável por adquirir a produção brasileira do grão, cultivado nos estados da região Sul logo após a colheita da soja. Sem o estímulo da compra garantida, agricultores do Paraná, do sudoeste de Mato Grosso do Sul e de São Paulo substituíram o trigo pelo milho. Passaram a usar a sobra das sementes do plantio tradicional, feito no verão, em um segundo plantio, no outono-inverno, que resultava em uma produção menor, a chamada safrinha.

À época, recém-formado e contratado pelo IAC, o engenheiro-agrônomo Aildson Pereira Duarte trabalhava na região de Assis, no oeste paulista, quando esse movimento começou. Ele percebeu a transição e decidiu ajudar. Com sua equipe no IAC, iniciou experimentos para selecionar as cultivares mais adequadas ao plantio fora de época e realizou testes para definir a melhor estratégia de adubação e de controle de pragas, doenças e plantas daninhas. O trabalho desse e de outros grupos fez a produtividade do milho safrinha dobrar em pouco mais de duas décadas, alcançando os atuais 5,5 ton/ha, e contribuiu para mudar o padrão de cultivo desse cereal no país. “Houve uma migração temporal e espacial da produção do milho”, resume o pesquisador.

O plantio do safrinha se disseminou por São Paulo, Mato Grosso do Sul e pelo Paraná, tradicionais produtores do cereal, e avançou por Goiás, Mato Grosso e, mais recentemente, Rondônia, Tocantins, Maranhão e Piauí. Dos 17 milhões de hectares de milho hoje cultivados no Brasil, o terceiro produtor mundial do grão, 63% são de milho safrinha, que deve responder por dois terços dos 97 milhões de toneladas previstas para serem colhidas em 2017.

Antes plantado a partir de março, o milho safrinha agora é semeado também em janeiro e fevereiro. Usa-se o sistema de plantio direto, no qual as máquinas depositam sementes no solo logo após a colheita da soja, sem a necessidade de revolver a terra, como antes. Foi uma transformação com múltiplos ganhos: diminuiu a perda de água do solo e a necessidade de adubação tornou-se menor do que a do milho plantado no verão, porque bactérias das raízes da soja ajudam a fixar nitrogênio no solo. “Entender como funcionava a sucessão dessas duas culturas foi importante para aumentar a produção”, conta Duarte.

O trabalho de adaptação e melhoramento do milho safrinha é desdobramento de uma história iniciada em 1932, quando o engenheiro-agrônomo Carlos Krug e sua equipe de pesquisa implantaram no IAC um programa – o segundo do mundo – para a produção de híbridos de milho, até então plantavam-se apenas variedades de linhagem pura. Adaptadas ao uso de fertilizantes e herbicidas, as cultivares do IAC predominaram no mercado nacional até a década de 1970 – uma delas, a HMD 7974, foi comercializada durante 10 anos, três vezes mais que a média das cultivares atuais. Hoje o mercado de sementes é dominado por híbridos, principalmente transgênicos, de empresas estrangeiras. Depois de produzir cultivares convencionais resistentes à seca e tolerantes à presença de alumínio no solo, o que permitiu a expansão dessa cultura para áreas de menor fertilidade natural, o IAC passou a se dedicar, sob a coordenação dos pesquisadores Eduardo Sawazaki e Maria Elisa Paterniani, ao desenvolvimento de cultivares de milhos especiais, como o milho-branco, para canjica, o milho-verde e o milho-pipoca.

Casa de vegetação na qual se iniciou, nos anos 1950, o desenvolvimento de cultivares de soja adaptadas aos trópicos

O grão do século
De todos os programas de melhoramento do IAC, o que possivelmente gerou maior impacto na economia nacional foi o da adaptação da soja ao Cerrado. De origem asiática e cultivada há quase 3 mil anos, a soja cresce bem em regiões de clima temperado, com dias curtos e noites longas. Chegou à Europa no século XVIII e em 1882 já era plantada de forma experimental na Bahia. Em 1889, o químico austríaco Franz Wilhelm Dafert (1863-1933), primeiro diretor da Imperial Estação Agronômica, iniciou os primeiros testes em Campinas com o grão, que na virada do século passou a ser distribuído pela Secretaria de Agricultura do estado para quem quisesse plantá-lo. Em meados dos anos 1920, pesquisadores do IAC começaram a indicar o cultivo da soja para a recuperação de terras exauridas de nutrientes, mas levaria tempo para que uma transformação radical ocorresse.

Em 1952, o engenheiro-agrônomo Shiro Miyasaka (1925-2017), o primeiro imigrante japonês a doutorar-se em agronomia no Brasil, iniciou o programa de melhoramento da soja usando sementes trazidas dos Estados Unidos e do Japão. Em 1957, ele identificou variedades menos sensíveis a períodos mais longos de luz e às baixas temperaturas que na década seguinte serviriam de base para o trabalho de melhoramento dos engenheiros-agrônomos Romeu Kiihl, então pesquisador do instituto, e Manoel Albino Coelho de Miranda. Associados à seleção de variedades, estudos de adubação e de características do solo, feitos por Hipólito Mascarenhas e Eli Sidney Lopes, em paralelo com pesquisas realizadas na Embrapa, permitiram demonstrar que seria viável plantar soja nas terras mais ácidas e ensolaradas do Cerrado, revolucionando o cultivo do grão no país. Hoje o Brasil é o segundo produtor mundial de soja, que desempenha na economia nacional o papel que o café teve há um século. Em 2017, foram colhidas 114 milhões de toneladas de soja – o equivalente a 48% da safra nacional de grãos. Metade desse volume vem do Cerrado.


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