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Divulgação científica

Pint of Science brasileiro é um dos maiores do mundo

Em sua terceira edição no país, evento que discute ciência em bares ocorreu em 56 cidades

O oftalmologista Paulo Schor no Quintal do espeto, Vila Mariana

Priscilla Person Genioli/ Senac

De 14 a 16 de maio, pesquisadores das mais diversas áreas da ciência foram a bares e restaurantes em vários países para falar sobre suas especialidades a quem estivesse por lá. Criado em 2012 na Inglaterra, esse encontro – o Pint of Science – é realizado desde 2015 no Brasil. Neste ano, ocorreu em 56 cidades brasileiras, de Florianópolis (SC) a Manaus (AM) – mais do que o dobro de 2017. “Estamos empatados com a Espanha como o maior Pint do mundo em número de cidades”, afirma a geneticista Natalia Pasternak Taschner, coordenadora nacional do evento e pesquisadora em estágio de pós-doutorado no Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP).

Natalia diz que foram mais de 500 eventos, com 885 palestrantes e por volta de 750 voluntários. Várias cidades conseguiram intérpretes de libras, para deficientes auditivos, por meio de acordos. “Foi muita gente trabalhando de graça”, comemora, um sinal de que vem ganhando força a percepção da importância de os cientistas irem aonde as pessoas estão. Ela conta que em cidades menores aconteceu de, depois da palestra no bar, pesquisadores serem convidados a conceder entrevistas a radialistas e jornalistas. “Ou seja, o trabalho de divulgação científica continuou depois.”

O sucesso do evento não significa que ciência seja a conversa de botequim mais apreciada – grande parte da frequência dos bares nesses dias de início de semana foram de pessoas já iniciadas no assunto. Embora os dados ainda não tenham sido analisados, e os frequentadores quantificados e qualificados, algumas barreiras vão sendo rompidas. O zoólogo Eduardo Bessa, professor da Universidade de Brasília (UnB) e coordenador do Pint of Science no Centro-Oeste, conta que ouviu reclamações de demora na entrega dos petiscos em um bar. “Quando fui verificar na cozinha, vi três cozinheiras espiando a palestras pela fresta do passa-pratos”, relata.

De acordo com Natalia, em quase todas as cidades o evento foi apoiado por alguma universidade, com um número crescente de participantes. “Em São Paulo a USP dominava até o ano passado, mas neste ano tivemos a presença forte de outras instituições”, conta. Uma delas foi o Centro Universitário Senac, do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial. Entre outras participações, estudantes do curso de Bacharelado em Fotografia registraram alguns eventos como atividade de extensão universitária.

Variedade de assuntos
A Universidade Federal de São Paulo dominou a região da Vila Mariana, onde fica seu campus paulistano. Em um deles, a bióloga Vânia D’Almeida contou como as experiências ao longo da vida podem alterar a química dentro das células e a atividade dos genes. “Lamarck também tinha razão”, concluiu, em referência à teoria do naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829) por muito tempo desacreditada de que alterações adquiridas em vida poderiam ser transmitidas de uma geração para outra. Na mesma noite o oftalmologista Paulo Schor falou sobre o uso de substâncias pouco usuais, como o açaí, para cirurgias de correção de uma deformação da córnea chamada ceratocone.

Roberta Sales Encontro discutiu a presença de mulheres na ciênciaRoberta Sales

A terceira edição no país também explorou temas como a biópsia líquida de tumores e seu potencial uso no diagnóstico e tratamento de cânceres, a engenharia da produção de vacinas, o papel dos diferentes ingredientes na fabricação de cervejas e a edição gênica usando a tecnologia CRISPR-Cas9. Houve espaço, ainda, para discutir como ocorrem os processos de remoção e reintegração habitacional e até um bate-papo sobre o legado de Stephen Hawking, físico inglês falecido em março deste ano.

Estendendo o período regulamentar do festival, no dia 17 pesquisadoras falaram sobre o papel e as dificuldades da atuação das mulheres na ciência. Uma cervejaria artesanal no bairro Sumaré, zona oeste de São Paulo, recebeu a jornalista especializada em ciência Sabine Righetti, a imunologista Denise Morais da Fonseca e a matemática Julia Jaccoud para uma roda de conversa sobre os desafios enfrentados pelas mulheres no mundo acadêmico. A discussão foi moderada por Ana Paula Morales, biomédica especializada em divulgação científica.

Nesse caso, o microfone não ficou restrito às mãos das debatedoras e circulou pelo espaço, dando voz a mulheres e homens presentes. Elas não apenas fizeram perguntas, mas também relataram trajetórias como pesquisadora, esposa e mãe. “Na medição da produtividade, a mulher será prejudicada por produzir menos durante a gravidez e o período dedicado a maternidade”, explicou Denise Morais, que é professora no ICB-USP. Para reduzir a desigualdade nesses casos, ela sugere a criação de novos critérios e linhas de fomento para flexibilizar o retorno das cientistas mães à vida acadêmica.

O número reduzido de mulheres em algumas áreas da ciência, como a matemática, em áreas tecnológicas e nas engenharias foi lembrado por Julia Jaccoud.  As mulheres também são minoria em cargos de liderança das instituições científicas. Por essa razão, de acordo com Sabine Righetti, poucas mulheres são entrevistadas em reportagens sobre ciência.

Em outro bar da zona oeste da capital, Luciano Queiroz, mestre em microbiologia e integrante do podcast de divulgação científica Dragões da Garagem, iniciou sua apresentação Zika: falando de ciência através da história, explicando que “a ciência é o fio condutor da história”. Ele optou por falar sobre o vírus a partir do olhar de mães infectadas durante a gestação.

Eduardo Bessa / UnB Resultados de questionário de avaliação em Brasília indicam a predominância do público de áreas científicasEduardo Bessa / UnB

Depois de Queiroz, o biólogo Christian Hoffmann, pesquisador associado ao Centro de Pesquisa em Alimentos, um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) apoiados pela FAPESP, falou sobre o microbioma, o conjunto de bactérias e outros microrganismos que habita o corpo humano. Por estar em contato direto com o ambiente, o microbioma da pele está mais sujeito a influências externas: um estudo, por exemplo, demonstrou que as bactérias da língua dos animais de estimação são as mesmas encontradas nas mãos de seus donos.

A dieta alimentar foi usada como exemplo para explicar como se forma a microbiota intestinal. “O que as pessoas têm hoje no intestino é resultado de seu padrão alimentar”, contou Hoffman. E completou: “Conseguimos segregar populações humanas somente com base em suas bactérias”. Segundo ele, baseado nas informações genéticas desses microrganismos, é possível identificar pelo menos dois grupos de pessoas: as que tendem a comer mais proteína e as que preferem carboidratos.

Os biólogos e divulgadores de ciência Rafael Arnoni, Camila Beraldo, Marcelo Sato e Lucas Andrade, do podcast Alô Ciência, aproveitaram a interação com o público de outra cervejaria para gravar um programa. Nele discutiram o papel da divulgação científica como ferramenta política. “Nós, cientistas, somos a sociedade, fazemos parte dela. Não podemos nos distanciar. Se a sociedade não se envolve com política, consequentemente o cientista não se envolve com política também”, refletiu Arnoni.

A equipe do Pint of Science Brasil planeja ampliar ainda mais o alcance do evento. “Já temos mais 36 cidades interessadas em participar em 2019, antes mesmo de iniciarmos a preparação do próximo encontro”, contou Luiz Gustavo de Almeida, coordenador do evento em São Paulo. O plano, segundo a coordenadora geral Natalia, é abrir um edital por volta de agosto para receber propostas, de maneira que em outubro as cidades participantes possam começar a organização.

Além de ampliar território, os organizadores têm outros desafios. Um deles é atrair um número maior de pessoas com pouco contato com a ciência. Outro é realizar o evento em lugares com comida e bebida mais baratas e, portanto, acessíveis a determinada parcela da população. Por fim, é desejável descentralizar os encontros, levando a iniciativa para as regiões periféricas.