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Temático

Brasileiros e argentinos: uma união muito difícil

Antropólogo formado pela Universidad Nacional de La Plata, Argentina, em 1971 e, até 1986; etnólogo dedicado ao estudo de grupos de índios brasileiros, Guillermo Raul Ruben fez sua travessia para a especialidade que hoje se chama Antropologia Empresarial com um prolongado trabalho de campo, entre 1987 e 1991, junto a uma joint venture argentino-brasileira do setor metalúrgico – hoje líder no segmento de produção de cozinhas profissionais.

“Acompanhei nesse período as dificuldades quase intransponíveis para que a empresa decolasse’: diz ele. E esse processo era “muito estranho, porque aparentemante a joint venture tinha todas as condições objetivas para dar certo: capital, tecnologia, produto e mercado. Mas o ‘take-off’ não acontecia “. O pesquisador via os sócios de duas diferentes nacionalidades envolverem-se “em discussões lancinantes, engatilhadas por desconfianças mútuas, que emergiam a despeito dos interesses convergentes e da boa vontade existente de cada lado”.

Guillermo Ruben, mestre e doutor pela École Pratique des Hautes Études en Sciences Sociales, Universidade de Paris, observou que as diferenças culturais entre os argentinos e os brasileiros expressavam-se em um grande número de concepções diferentes sobre categorias que integram normalmente as discussões no meio empresarial: tempo, trabalho, trabalhador; trabalho feminino, lazer; sindicatos, sociedade, nação etc. O grupo que apresentava tamanha cisão era formado, pelo lado argentino, por dois empresários experientes, mas pelo lado brasileiro, à exceção de um investidor; todos eram profissionais que estavam fazendo sua primeira investida como empresários dos engenheiros e um especialistas da área de marketing.

Segundo Guillermo Ruben, foi necessária uma inesperada “ameaça externa” para que as diferenças fossem ultrapassadas e a empresa finalmente decolasse.“Essa ameaça foi o confisco do governo Collor; que os obrigou a tomar decisões rápidas. Foi nesse momento, por exemplo, que o grupo brasileiro, que queria manter os escritórios da empresa num espaço luxuoso, separado da fábrica em Alphaville, abriu mão de tal exigência e concordou com a reunião de todas as atividades empresariais exatamente em Alphaville, como desejavam os argentinos”, conta Guillermo Ruben.

O pesquisador; que se transferiu para o Brasil em 1977, trabalhou inicialmente na Universidade Federal da Paraíba e desde 1980 é professor na UNICAMP, explica que o temático que ora coordena foi propiciado em grande parte pela bagagem prática que acumulou com o acompanhamento do caso dessa joint-venture. A isso ele soma o aprofundamento teórico que o trabalho de orientação de dissertações no campo de nacionalidades e identidades, no mesmo período, lhe possibilitou e, finalmente, o ambiente receptivo ao tema da cultura empresarial na UMCAMP – em 1993, por exemplo, quando ele era chefe do Departamento de Antropologia Social, “a Reitoria apoiou decisivamente a realização de um workshop entre antropólogos e 50 grandes empresários sobre a importância da cultura empresarial na vida dos negócios”, diz.

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