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Projeto Especial

Radares metereológicos garantem um surpreendente retorno econômico

Um radar meteorológico implantado em Bauru, graças a um projeto especial da FAPESP, em 1974, foi o ponto de partida da atual rede paulista de radares. Hoje, passadas pouco mais de duas décadas e investidos pela Fundação cerca de US$1,2 milhão na montagem física da rede e no financiamento contínuo de uma série de pesquisas a ela articuladas, são indiscutíveis os beneficios sociais e os resultados científicos produzidos por aquela iniciativa. Do ponto de vista social, basta lembrar que os três radares da rede paulista fornecem dados cruciais para a Defesa Civil em caso de enchentes e ventos fortes, situando-se, portanto, num esquema direto de proteção à vida. Observações de radar são também de alta relevância para a aviação, o que neste caso inclui a segurança das operações aeroportuárias na Capital.

Já no inventário dos resultados científicos do projeto Radasp (Radar em São Paulo), há que se alinhar, entre outros, a contribuição de pesquisadores paulistas, em escala internacional, para uma nova técnica de quantificação de chuva com radar. O trabalho foi tese de doutorado do professor Roberto Vicente Calheiros, titular do Instituto de Pesquisas Meteorológicas da UNESP, em Bauru e suas conclusões foram publicadas no Joumal of Climate and Applied Metheorology. No mesmo inventário, em breve será possível incluir a validação do radar como estimador de ventos na vertical, em ar claro – está em fase de conclusão a primeira experiência sistemática já efetuada nesse sentido.

Há mais ainda: um avançado projeto destinado a integrar as informações de radar à chamada previsão numérica do tempo, que está sendo iniciado sob a coordenação do professor Calheiros e em cooperação com a Universidade Mcgill, no Canadá, poderá contribuir muito para o aperfeiçoamento das previsões e informações sobre o tempo e, particularmente, para a montagem de um poderoso sistema de alerta meteorológico. Finalmente, há que se destacar a transferência da experiência acumulada com o Radasp para projetos regionais no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro, Ceará e Amazônia (projeto Sivan), além da contribuição para a rede nacional de radares meteorológicos da Aeronáutica, em implantação no país.

Mas se tudo isso resulta num consenso quanto à importância social e científica da rede paulista de radares, persistem dúvidas quanto a seu caráter econômico. Afinal, segundo o senso comum, os radares meteorológicos – componente essencial dos serviços de previsão e informação do tempo no mundo inteiro – implicam sempre custos elevados para o Estado, sem a contrapartida de retornos diretos adequados.

O custo de operação e manutenção dos radares do Estado de São Paulo, por exemplo – um em Bauru, outro em Presidente Prudente, operados ambos pela UNESP e um terceiro em Ponte Nova/Salesópolis, operado pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica, DAEE – é da ordem de US$2 milhões por ano. E nem de longe os pagamentos simbólicos efetuados pelos usuários regulares de suas informações (cerca de 70, no caso dos radares de Hauro e Presidente Prudente) e mais clientes eventuais, poderiam cobrir tal despesa.

Trata-se, portanto, de um serviço deficitário, certo? Errado. A rigor, essa é uma falsa visão do problema. Numa abordagem macro-econômica, os radares meteorólogicos revelam-se responsáveis por um considerável retorno econômico para o Estado e não por deficits operacionais.”A rede paulista de radares apresenta um benefício/custo econômico de 15 para 1. Ou seja, para cada unidade monetária investida, incluindo custos diretos e indiretos, além de investimentos, retomam pelo menos 15 unidades”, resume o professor Calheiros. Ele parte de uma uma sólida base ao fazer essa afirmativa, porque entre as várias pesquisas e estudos com radares meteorológicos a que vem se dedicando desde os anos 70, coordenou o primeiro estudo específico já realizado no país para avaliar a relação custo/beneficio dos serviços de previsão de tempo de curto prazo.Concluído há alguns anos, esse estudo financiado pela FAPESP (US$140 mil), mostrou que “o beneficio econômico potencial estimado, decorrente do uso da rede de radares no Estado de São Paulo é, conservadoramente, de pelo menos US$30 milhões por ano”.

O valor foi estimado considerando-se ganhos de produtividade e prevenção de perdas econômicas com o uso adequado das informações meteorológicas de curto prazo apenas em atividades produtivas que delas precisam – agricultura, geração de energia hidrelétrica, indústria de transformação e construção civil. E para fazer os cálculos, o professor Calheiros contou com dados do Instituto Agronômico de Campinas, IAC, do Instituto de Economia Agrícola, IEA, do DAEE e da indústria de construção civil.

“Constatamos que a rede paulista está muito bem. Comparativamente, no Reino Unido, uma rede de 12 radares apresenta um beneficio/custo geral de 20 sobre um”, diz o professor Calheiros. Na verdade, esse desempenho dos radares acompanha uma característica geral dos múltiplos serviços meteorológicos. Os levantamentos coordenados pelo professor Calheiros mostram que o retorno econômico potencial estimado para as previsões meteorológicas em seu todo (serviço de radares incluído), no âmbito do Sistema Paulista de Meteorologia, SIPMET, é de nada menos que US$500 milhões por ano, contra um investimento total de implantação do sistema de US$20 milhões e mais um custo anual de operação de US$8 milhões.

“Mesmo admitindo-se que a eficiência de aproveitamento efetivo desse beneficio potencial seja de 50% do total possível, teremos um retorno de US$250 milhões” diz o pesquisador, sempre tomando o mesmo universo específico das atividades produtivas consideradas no estudo. “Vamos supor – continua ele – que o investimento global na implantação do sistema seja amortizado em 10 anos, o que significa despesa de US$2 milhões por ano, ao longo do período. Somando-se isso com os US$8 milhões anuais da manutenção, chegamos a US$10 milhões de custo anual, para um benefício de US$250 milhões anuais”, completa.

Isso leva a uma relação benefício/custo de 25, ou seja, 25 dólares de retorno para cada dólar investido no sistema global, “coincidentemente, o mesmo índice apresentado pelo Centro Europeu de Previsão de Tempo a Médio Prazo”. Quando o professor Calheiros se refere ao sistema de previsão do Estado, o SIPMET, ele está tratando de um programa ainda em curso, sob a coordenação da Secretaria da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico e que demandará mais algum tempo até a completa implantação. “Temos feito as estimativas considerando, por exemplo, 50 estações de superfície, quando hoje temos cerca de 35 implantadas”, esclarece.

O sistema envolve, além dessas estações e dos radares, várias outras instalações, como três estações de rádio-sonda, unidade de controle e gerenciamento de dados (cujo núcleo inteligente está instalado no Instituto Astronômico e Geofisico, o IAG da USP), centro de recepção de dados de satélite (instalado no Centro de Ensino e Pesquisa em Agricultura, CEAGRI, na UNICAMP) etc.

Desde o começo das operações do radar de Bauru, segundo o professor Calheiros, foram se evidenciando suas aplicações para o setor produtivo, destacando-se nesse primeiro momento as cooperações com usinas de cana-de-açúcar e com as Centrais Elétricas de São Paulo, CESP. Posteriormente, os usuários das informações do radar foram aumentando e se diversificando e, hoje, dezenas deles, depois de um treinamento específico, utilizam sistematicamente as informações que lhes chegam como imagens de computador, acompanhadas por tabelas com estimativas de intensidade de chuvas, velocidade e direção dos ventos.

São dados que lhes permitem tomar decisões rápidas. “Na colheita de cana, por exemplo, a informação sobre uma chuva forte pode levar o usineiro a evitar o deslocamento de um grande contingente de trabalhadores para uma área de onde mais tarde não se poderá tirar a cana cortada, porque as estradinhas ficam intransitáveis”, diz o professor Calheiros.É justamente o que vem ocorrendo na Fazenda São Domingos, em Catanduva, onde, segundo o diretor agricola, Paulo rastilho, a programação das queimadas e do corte da cana ficaram mais racionais depois da assinatura dos serviços de radar, há um ano. “Com 15 mil hectares plantados e até 2 mil funcionários no período da safra, temos agora mais facilidade para decidir qual o local para onde devemos mandar as equipes, num raio de até 80 quilômetros”, diz ele.

Mas além disso, houve redução de perdas na aplicação de defensivos agrícolas. “Quando tínhamos uma chuva imprevista numa área recém-tratada, perdíamos o trabalho das últimas seis horas e o herbicida usado para o tratamento de 80 hectares”, observa rastilho. Traduzido monetariamente, eram perdas de R$ 2,5 mil em média, que podiam ocorrer várias vezes no ano. “Agora, uma única vez que evitemos essa perda basta para pagar o custo do serviço durante todo o ano”, calcula.

Outros exemplos dados pelo professor Calheiros: nas plantações de pêssegos, o produtor informado sobre chuvas pode proteger os frutos ou colhê-los precocemente e assim evitar perdas totais com a podridão parda. Em outras, a informação sobre ventos fortes pode evitar que se inicie uma queimada que fatalmente passaria para outras áreas não previstas para colheita ou mesmo outras propriedades. São apenas alguns exemplos, entre incontáveis outros que podem dar uma idéia do significado econômico dos serviços de radar.

CUSTO/BENEFÍCIO DOS SERVIÇOS
1. RETORNO POTENCIAL DAS PREVISÕES EM GERAL

US$500 milhões

2. EFICIÊNCIA ESTIMADA DE APROVEITAMENTO DE 50%
US$250 milhões

3. CUSTO DE IMPLANTAÇÃO DO SISTEMA ESTADUAL
US$20 milhões

4. CUSTO ANUAL DE OPERAÇÃO DO SISTEMA
US$8 milhões

5. INVESTIMENTO + OPERAÇÃO (10 anos)
US$10 milhões

6. BENEFÍCIO/CUSTO -25

7. RETORNO POTENCIAL DAS PREVISÕES DE RADAR
US$30 milhões

8. CUSTO ANUAL DA REDE DE RADARES
US$2 milhões

9. BENEFÍCIO/CUSTO DA REDE DE RADARES -15

Os radares ocupam um lugar especial dentro dos serviços de meteorologia. Porque enquanto estações de superfície, estações de rádio-sondagem, satélites e bases móveis (aviões, navios e bóias) compõem um grande grupo de fontes coletoras de indicadores para a previsão numérica do tempo, em larga escala espacial; num grupo à parte estão os radares, que trabalham com a detecção efetiva de menos meteorológicos em curso e, a partir daí, permitem esquemas de linear para o curto prazo.

A grande virtude do radar meteorológico é a precisão, ou a alta informação que capta. Detectando chuvas prestes a cair, ele fornece sobre as precipitações (em milímetros por hora) numa escala de quilômetro 0. Pode indicar dentro dessa área onde haverá e com que intensidade cairá a chuva, detectando a velocidade radial das gotas de chuvas, rastreando traçadores pássaros, matéria particulada, fumaça etc) ou detectando variações, mais índice de refratividade da atmosfera. O radar permite a identificação da velocidade do vento predominante também nessa escala de quilômetro e, só para comparar, estações de superfície e de rádio-sondagem, por terem informações com uma resolução muito inferior, em escala dessas regões, o radar as oferece para áreas de cidades.

Já o grande pecado do radar é o seu pequeno alcance temporal. As fisicamente captadas pelas microondas e quantificadas, até uma hora antes,podem ser projetadas com esquemas lineares para daí a meia hora, uma ou duas eventualmente seis, no máximo. É uma situação muito diversa do que ocorre na previsão numérica. Nesta, captados na troposfera sobre temperatura, pressão, umidade e ventos, além de mações de superfície sobre precipitação de chuvas, são postos por vias em modelos prévios, baseados em equações da fisica termodinâmica. Assim, os trabalhos vão fornecer cartas prognósticas – parâmetros que, tratados tisticamente, vão resultar na previsão de tempo para vários dias, com grau de tanto maior (destreza) quanto menor for o período da previsão (ver tabela) havendo todo um trabalho de cálculos e probabilidades que nada tem a ver com o de radares.

O grande desafio, hoje, no campo dos radares, é justamente tirá-los de sua solidão histórica e articulá-los com os esquemas de previsão numérica, em favor de um significativo aperfeiçoamento das previsões meteorológicas.

Destreza das previsões

BRASIL, AO SUL DE 15º S

Destreza / Período

90% / 24 horas
85% a 86% / 48 horas
70% a 72% / 72 horas
65% / 96 horas
52% a 56% / 120 horas

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