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Botânica

Estudo propõe exploração econômica de algas brasileiras

Pesquisadores do Instituto de Biociências da USP-Universidade de São Paulo realizaram o mais completo estudo sobre algas marinhas já feito no Brasil. Sob a coordenação do biólogo e professor Eurico Cabral de Oliveira Filho, o projeto temático Estudos Integrados de Algas Marinhas de Importância Econômica, financiado pela FAPESP, conseguiu ampliar o conhecimento biológico e ecológico e determinou técnicas de cultivo para o aproveitamento econômico desses vegetais.

Utilizadas há séculos na culinária oriental e cada vez mais presente como componente em alimentos industrializados, cosméticos e fármacos, as algas marinhas e as substâncias que se pode extrair delas passaram, nos últimos anos, a ser mercadoria importante no comércio internacional. O Japão, país campeão em consumo de algas, movimenta, somente com um tipo comestível usado para envolver bolinhos de arroz e conhecida como nori, de US$ 2 a US$ 3 bilhões por ano.

No Brasil, o consumo de derivados de algas é crescente. Em 1994, por exemplo, o país importou US$ 13,5 milhões desses produtos, o dobro do valor importado em 1990. Outros países da América do Sul estão muito mais adiantados que o Brasil na produção e extração de algas, embora o país seja mundialmente reconhecido como avançado no nível acadêmico com os trabalhos realizados no Laboratório de Algas Marinhas do Instituto de Botânica da USP e em outras universidades.

Na América Latina, o Chile é o principal produtor de algas e derivados. Em 1995, por exemplo, o país exportou cerca de US$ 78 milhões de algas e produtos derivados, sendo 90% oriundos de fazendas marinhas. “O Brasil, apesar da imensa costa marinha que tem, ainda está com os olhos voltados para dentro, para o interior”, analisa o professor Eurico, que, nos últimos anos, tem assessorado o cultivo de algas em diversos países. “Agora, aqui só falta investimento financeiro empresarial para se produzir em larga escala”.

Novas espécies
Os trabalhos realizados dentro do projeto temático proporcionaram, durante quatro anos, o estudo de quatro gêneros de algas vermelhas do litoral brasileiro (Gracilaria, Pterocladia, Hypnea e Porphyra), sendo que foram identificadas duas novas espécies: uma de Porphyra, no litoral do Estado do Espírito Santo, e outra de Gracilaria, encontrada em toda a costa brasileira.

“Nesse estudo conseguimos compreender melhor o ciclo de vida dessas algas, conhecemos mais sobre o seu complexo sistema de reprodução e cultivamos em tanques e em fazendas marinhas de 10 m2, em São Sebastião e Ubatuba (no litoral norte paulista), algumas algas que têm potencial econômico de aproveitamento”, explica Eurico Cabral. “Precisávamos saber em que época do ano se reproduzem, como se comportam em relação à luminosidade e à salinidade da água, além de conhecer o momento certo de se fazer a coleta”.

As algas são cultivadas no fundo do mar ou em cordas na superfície, em áreas protegidas de ventos fortes e correntezas marinhas. Algumas espécies podem ser cultivadas para alimentação ou para extração de substâncias como o ágar-ágar, utilizado como principal meio de cultura para microorganismos em laboratório, além do uso em gelatinas, estabilizantes anti-pretejamento de alimentos, geléias e como clarificante em cervejas. No Brasil, pode-se obter ágar-ágar a partir de uma espécie do gênero Pterocladia, comum na costa sudeste do país, e de espécies do gênero Gracilaria, presente no litoral nordestino.

Outra substância importante, esta, extraída de algas do gênero Hypnea, é a carragenana, usada em doces, no revestimento de filamentos de tungstênio, na indústria fotográfica, em sopas e molhos, cremes, sabões, inseticidas e nas indústrias de laticínios, têxtil e de papel.

“Apenas uma empresa, na Paraíba, produz tanto o ágar-ágar como a carragenana em nível industrial no Brasil, mas obtém matéria-prima somente por meio de extrativismo, coletando algas na maré-baixa ou em mergulhos”, explica Eurico Cabral. Ele acrescenta que essa empresa produz cerca de 60 toneladas por ano de ágar-ágar e carragenana, quantidade insuficiente para o mercado interno. O Brasil ainda importa totalmente outra importante substância extraída das algas, o alginato, usada na fabricação de sorvetes, antibióticos, molhos e nas indústrias de cosméticos, tintas, papel e borracha.

Entre as algas comestíveis in natura existentes em águas brasileiras, se destacam as do gênero Porphyra, o mesmo da Nori japonesa. “Porém, a Porphyra brasileira ainda não tem mercado de consumo no Brasil e a competição com os japoneses e chineses não compensa porque, além da quantidade produzida, há séculos eles vêm escolhendo as melhores linhagens para cultivo, garantindo uma melhor qualidade”, explica Eurico.

Análises bioquímicas
O projeto temático mostrou também outras preocupações dos cientistas. “Fizemos análise bioquímica do metabolismo do nitrogênio, importante nutriente que permite às plantas fabricar proteínas e aminoácidos”, conta o professor Eurico. “Estudamos a forma como o nitrogênio é assimilado pelas algas. Essas informações são importantes. Sabemos, por exemplo, que os chineses adubam o mar, onde há cultivo de algas, com sprays de sais de nitrogênio e de fósforo”.

Os estudos avançaram também em um problema que pode afetar o cultivo de algas, ou mesmo sua coleta em áreas de mar poluído. “As bacias marinhas da Guanabara e a de Santos seriam dois excelentes ambientes para o cultivo de algas, mas, devido à poluição, ainda estão impróprias para o cultivo”, informa o pesquisador. “Em áreas poluídas, elas crescem bem, mas acumulam metais pesados como chumbo, cobre e zinco”, explica, indicando que, por isso, podem ser usadas no combate à poluição marinha. “O problema posterior seria o que fazer das algas poluídas, já que não se poderia simplesmente retirá-las do mar e jogá-las em outros locais onde também contaminariam o ambiente”.

O estudo dos pesquisadores da USP foi também uma oportunidade de aperfeiçoar a formação de ficologistas (em grego, fico significa alga) e formar novos alunos na disciplina. Os doutores Édison de Paula, na área de cultivo e ecologia, Estela Plastino, em genética e reprodução, Flávio Berchez, em ecologia, e Mariana de Oliveira, em biologia molecular e bioquímica, orientaram 11 doutorandos, 9 mestrandos e 17 bolsistas de iniciação científica. O projeto resultou também na publicação de 15 trabalhos científicos em revistas estrangeiras e contou com a participação de profissionais do IPT-Instituto de Pesquisas Tecnológicas, do Instituto de Química da USP e do Instituto de Pesca de Ubatuba.

O valor do financiamento da FAPESP para esse projeto temático, durante os quatro anos de estudo, foi de US$ 130 mil. Grande parte dos recursos foi usada na compra de equipamentos de laboratório, como câmara de fluxo laminar para cultura, aparelhos medidores de luz, microscópios, freezers, e viagens para coletas de material. “Muito importante nesse estudo foi a maturidade no conhecimento científico de algas que todos os participantes da pesquisa adquiriram, possibilitando que continuem multiplicando novos projetos e estudos nessa área”, comenta o professor Eurico.

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