PROGRAMA DE APOIO À PESQUISA EM PARCERIA PARA INOVAÇÃO TECNOLÓGICA (PITE)

Print Friendly

O diálogo entre as máquinas

Parceria entre empresa e universidade formata negócios de milhões de dólares

ED. 45 | AGOSTO 1999

 

Para quem trabalha em computador, é um drama quando um arquivo dos computadores mais comuns, os PCs, não abre nos equipamentos de outros tipos, como os Macintosh ou Unix – pode ocorrer também de aparecerem quadrados e símbolos ilegíveis no lugar do texto antes ocupado pelas letras. Mas o que é um problema para os usuários é uma oportunidade de negócios para as empresas. A par dessa situação, a empresa paulistana Perrotti Informática tratou de agir e, vendo-se incapaz de chegar sozinha onde pretendia, buscou amparo técnico na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).

Do contato nasceu uma pesquisa conjunta, realizada no âmbito do Programa Inovação Tecnológica em Parceria (PITE) da FAPESP, que resultou no desenvolvimento do EBS – Enterprise Backup System, um software de segurança dedicado a redes de computadores de grandes empresas corporativas que permite a troca de informações entre computadores de qualquer tipo.

Houve outros ganhos, além do próprio produto. Ganharam um ritmo mais intenso as atividades da empresa e a produtividade de seus profissionais, que atuam em um setor caracterizado pela alta especialização e pela grande concorrência internacional. Os benefícios podem ser avaliados também economicamente. Estima-se que, este ano, os negócios gerados a partir do desenvolvimento do EBS devem movimentar cerca de US$ 4 milhões, o equivalente a cerca de 30% do faturamento projetado pela Perrotti. No mercado externo, o produto movimentou US$ 300 mil no Mercosul e US$ 350 mil nos Estados Unidos.

A pesquisa mudou o perfil da própria empresa: à medida que avançava o trabalho em parceria com a USP, a Perrotti, cuja principal atividade até então era a representação no Brasil de programas estrangeiros de computador, criou e consolidou um departamento de desenvolvimento de novos produtos, que cresceu rapidamente. Tornou-se uma nova divisão, a Perconsult, que presta serviços de consultoria no mesmo estilo de trabalho que a originou, desenvolvendo soluções por meio de parcerias com a universidade.

O começo da pesquisa
O projeto que levou a esses resultados, intitulado Sistema Automatizado de Cópias de Segurança e Recuperação de Arquivos Backup/Restore em Plataformas Heterogêneas, propõe o desenvolvimento de um programa de computador capaz de fazer cópias de arquivos em diferentes tipos de computador. O desenvolvimento dessa proposta inicial coube aos pesquisadores do Departamento de Engenharia de Computação e Sistemas Digitais da Escola Politécnica da USP, acompanhados por programadores da Perrotti. Juntos, formaram uma equipe de 30 pessoas, incluindo parceiros internacionais da Perrotti no País, também interessados nos resultados do trabalho.

“Desenvolvemos um núcleo para sistema de controle de informação tendo por base um sistema canadense já disponível”, explica o professor Antonio Marcos de Aguirra Massola, coordenador da pesquisa e diretor da Escola Politécnica. O software EBS foi desenvolvido para atuar sobre a plataforma TCS (Tempus Conectivity Solution), ferramenta da empresa canadense Microtem-pus, representada no Brasil há dez anos pela Perrotti. A Microtempus desenvolve produtos de conectividade micro-mainframe, que promovem a comunicação de dados entre PCs e os grandes computadores do tipo IBM, os mainframes, necessários para o processamento de volumes elevados de informações. Seu principal produto é essa plataforma TCS, capaz de atuar sobre diferentes sistemas operacionais.

Para entender melhor essa capacidade de comunicação entre máquinas diferentes, vale uma explicação: é como se o TCS conseguisse reunir uma área em comum para congregar os diversos tipos de computadores que podem coexistir numa grande empresa. Esse era o desafio: criar um software que, a partir desse modelo, estabelecesse uma comunicação tranqüila com qualquer máquina, do simples e comum computador PC da secretária ao enorme mainframe IBM do departamento financeiro, passando pelos ágeis Unix dos projetistas e os Macintosh da equipe de marketing.

Em geral, as máquinas diferentes entre si apresentam uma pequena compatibilidade de dados, quando muito permitindo uma simples troca de mensagem do correio eletrônico, de forma que o trabalho feito no Windows do PC não pode ser visto ou organizado pelo mainframe. O TCS permitiu aos pesquisadores do projeto abrir uma trilha nessa troca de dados ou intercambialidade, fornecendo o que se costuma chamar de uma ferramenta de desenvolvimento, composta por um conjunto de funções que estabelecem conexões entre programas e regulam tanto o envio quanto o recebimento de dados e o acesso remoto a arquivos.

Sem risco de perdas
Com esse enfoque, foi desenvolvido o EBS, que é, em síntese, um sistema debackup de arquivos para ambientes corporativos. Tem a função de gerar cópias e recuperar arquivos operando com fluidez dentro das intranets, as redes internas de computadores das empresas de porte. Como o TCS é um produto com distribuição mundial, o EBS tem conseguido suprir o mercado nacional e também o internacional. No Brasil e Mercosul, é distribuído pela Perrotti, enquanto nos Estados Unidos o EBS é agora representado pela própria Microtempus, que cuida desse filhote brasileiro do TCS nesse país.

Desde o planejamento, o projeto levou cerca de um ano e meio. Nos oito últimos meses é que a equipe se dedicou propriamente às etapas de programação, testes e formatação do produto, realizadas inicialmente em microcomputadores do tipo PC. Compradas ou alugadas com o financiamento de R$ 55 mil concedido pela FAPESP, as máquinas foram cedidas em regime de doação para a Politécnica, depois de encerrado o trabalho, como previsto nos projetos de parcerias desse tipo. Houve também locação de uso dos equipamentos maiores, os mainframes, nos quais em seguida o programa foi testado para simular as condições reais de uso. Os custos com pessoal ficaram a cargo da Perrotti, a quem coube investimentos da ordem de R$ 275 mil durante o período de desenvolvimento.

Na Escola Politécnica, o retorno pode ser mensurado, segundo Massola, pelo fato de a instituição ter trabalhado com a cooperação de empresas com ampla atuação internacional no setor de informática. “Conhecemos diversos mecanismos para desenvolver um projeto dessa Natureza, oferecendo um suporte acadêmico para esse tipo de trabalho”, diz ele. Com empresas, porém, não foi a primeira experiência. Com mais intensidade a partir do início dos anos 70, a Escola Politécnica mantém uma série de parcerias de desenvolvimento no setor de informática e tecnologia, exemplificadas por trabalhos em conjunto com a Scopus, a NEC e a Siemens. Uma história respeitável. Segundo Massola, a Politécnica realizou mais de 450 convênios.

“A importância desse trabalho não se resume ao produto em si”, diz a engenheira Suely Novato, designada pela Perrotti para participar desse projeto. Com base no trabalho realizado com a USP, ela desenvolveu sua tese de doutorado, Uma Proposta de Método para o Desenvolvimento de Projetos em Parceria de Sistemas de Informação. Não parou após terminar sua própria pesquisa, em setembro. No dia-a-dia, como diretora de desenvolvimento da Perrotti, utiliza a experiência adquirida para gerar novos negócios para a empresa.

Novas atividades
Graduada em Física, mestra em sistemas de rede e agora doutoranda, Suely conta que parte da equipe de trabalho que gerou o EBS foi convidada pela Perrotti Informática para a condução de novas atividades na empresa. Aproveitando a formação desses profissionais e a metodologia implantada, a empresa iniciou uma série de atividades, diretamente relacionadas ao chamado bug do milênio, um problema de software que pode ocorrer em alguns computadores na virada deste final do ano. “A Perrotti acredita numa prestação de serviços com diferencial acadêmico”, comenta. A empresa tanto acreditou na nova equipe que, na mais recente Comdex, uma feira de informática dedicada a redes de computadores realizada em agosto em São Paulo, anunciou a criação da Perconsult, uma divisão de serviços e soluções que rapidamente pôs na lista de clientes nomes como a Petrobras, Siemens, Coca-Cola e Vasp.

O plano da Perconsult é atuar no desenvolvimento de soluções e de produtos na área de informática, uma atividade com bastante espaço no Brasil. Ainda é comum as empresas trazerem programas de outros países. Acontece que, conta Suely, cada vez mais esses produtos precisam ser customizados ou redimensionados para atender às necessidades específicas do usuário. Desse modo, acabam passando por um desenvolvimento adicional, que muitas vezes origina produtos novos, como aconteceu com o projeto com a Escola Politécnica.

A Perconsult, mesmo tendo a consultoria como atividade principal, deve gerar softwares como o EBS. “Pretendemos investir no desenvolvimento de novos produtos, principalmente para o Mercosul”, afirma Suely. Atualmente, os trabalhos se concentram no corpo de especialistas da USP, mas, segundo Suely, a Perrotti deverá concluir ainda este anomais dois convênios, com outras universidades, desta vez incluindo as particulares. O que se busca é a autonomia relativa, desejada, de resto, por todas as partes desses acordos. Não parece que será difícil chegar a essa meta. Os profissionais que atuam na Perconsult mantêm atividades também na área acadêmica, caso típico de Suely, que aproveitou a oportunidade para fazer o doutorado.

Não é a única. Estão surgindo outros trabalhos acadêmicos alimentados pelos trabalhos conjuntos entre a empresa e a universidade. “Ainda há controvérsias sobre essa mistura, mas eu tenho conseguido bons resultados”, conta a recém-doutora. Terminada a tese, volta a dedicar-se intensamente à vida na empresa, mas não perde o reconhecimento pelos professores da Escola Politécnica. “É díficil encontrar no mercado pessoas com alta capacidade de desenvolvimento”, diz ela. “Esses profissionais podem ser encontrados nas universidades.”

Perfil
Antonio Marcos de Aguirra Massola
, 55 anos, graduou-se em Engenharia na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), onde fez o doutorado e da qual atualmente é diretor.

Projeto
Sistema Automatizado de Cópias de Segurança e Recuperação de Arquivos Backup/Restore em Plataformas Heterogêneas (nº 95/01903-4); Modalidade Programa de Inovação Tecnológica em Parceria; Coordenador Antonio Marcos de Aguirra Massola; Investimentos R$ 55 mil da FAPESP e R$ 275 mil da Perrotti Informática.


Matérias relacionadas

GABRIEL COZZELLA
Físico fala sobre experimentos capazes de verificar o efeito Unruh
RICCARDO STURANI
Físico comenta o novo registro de fusão de buracos negros feito pelo Ligo
FÁBIO PAPES
Biólogo explica estudo sobre mudança do olfato ao longo da vida