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Carta do editor | 58

Revelações, reavaliações e lucros

A sensação normal de quem pisa sobre solo paulista é de completa estabilidade: a terra parece firme, absolutamente imóvel sob os pés. Mas isso é, de fato, só sensação. Sob a aparente placidez da terra, movimentos geológicos poderosos, que se processam desde uma profundidade de 700 quilômetros, provocam lentamente a elevação de determinadas áreas, que vão sofrer erosão contínua, e o afundamento de outras, que serão assoreadas por sedimentos, e tudo isso resulta em modificações no relevo, nos cursos d’água, nas fontes termais e nos solos. As serras do Mar e da Mantiqueira, imponentes em sua aparente solidez e imutabilidade, crescem como gigantescos organismos vivos, enquanto a metade oeste do Estado de São Paulo afunda. Essas são apenas algumas das informações que saíram do projeto temático de pesquisa Neotectônica, Morfogênese e Sedimentação Moderna no Estado de São Paulo e Regiões Adjacentes, objeto da reportagem de capa desta edição de Pesquisa FAPESP.

O estudo cobriu uma área de 400 mil quilômetros quadrados, incluindo, além do território paulista, partes dos estados do Paraná, Rio de Janeiro e Minas Gerais. E para além de achados interessantes, seus resultados são dados científicos que mostram o passado, o presente e permitem delinear o futuro geológico da região. Por isso, no plano da vida concreta, ajudam a que se assegure a estabilidade geológica de obras, em especial rodovias, túneis, hidrelétricas e usinas nucleares, a prever fenômenos preocupantes como os deslizamentos de encostas, e ainda fornecem pistas para a descoberta de jazidas minerais e de água.

Num outro campo, a reportagem feita a partir da cobertura do 46º Congresso Nacional de Genética mostra como essa disciplina, além de seus próprios e vastos objetivos, com fronteiras cada vez mais expandidas graças à Genômica, tornou-se também uma ferramenta preciosa para áreas do conhecimento tão diversas quanto a história e a demografia. E por falar em história, merece leitura e reflexão a reportagem provocada pela conclusão da parte paulista do projeto de resgate da documentação histórica do Arquivo Ultramarino de Lisboa, referente ao Brasil colônia. Mal começaram a ser examinados, alguns dos 300 mil documentos microfilmados – que estão sendo reproduzidos em CD-ROM e organizados em belos catálogos – já obrigam a uma revisão de verdades longamente estabelecidas e de olhares convencionais ou tradicionais sobre alguns aspectos de fenômenos marcantes de nossa história, como a escravidão.

Finalmente, na seção de tecnologia, tomando por base os resultados de alguns dos mais importantes projetos apoiados pelo Programa de Parceria para Inovação Tecnológica, iniciado pela FAPESP no final de 1994, temos uma reportagem que investe contra a visão anacrônica de situar recursos aplicados em inovação de produtos ou processos industriais como despesa. Essa aplicação é investimento – e tem retorno muito significativo.

No editorial da edição anterior dissemos que o prêmio José Reis de Jornalismo Científico foi concedido pelo CNPq, neste ano, à revista Pesquisa FAPESP. Mas essa é uma meia verdade. O prêmio foi concedido à FAPESP como instituição, pelo conjunto dos trabalhos em benefício da popularização da ciência no país, a revista aí incluída (CHBC).

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