PESQUISA INOVATIVA EM PEQUENAS EMPRESAS (PIPE)

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Operação de olho no topógrafo

Pequena empresa desenvolve equipamento que auxilia em cirurgias oftalmológicas

ED. 67 | AGOSTO 2001

 

Depois de nove anos no mercado desenvolvendo equipamentos para uso oftalmológico, a empresa Eyetec, de São Carlos, prepara o lançamento de um topógrafo intracirúrgico. Uma novidade que vai garantir maior precisão e eliminar grande parte dos riscos existentes em operações de catarata e transplante de córnea. O equipamento mede a curvatura dessa membrana do olho durante as operações e detecta variações muito pequenas, que ajudam no trabalho do cirurgião e evitam problemas pós-operatórios. O novo implemento médico recebeu financiamento da FAPESP num projeto iniciado há três anos no âmbito do Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE).

Topógrafos convencionais já existem no mercado há quase 20 anos. “Um bom topógrafo é fundamental desde a fase de planejamento de uma cirurgia”, diz o oftalmologista Gustavo Paro, consultor da Eyetec. O equipamento é útil para se evitar o astigmatismo (distorções na captação da imagem), mal decorrente de alterações milimétricas na superfície da córnea no momento da sutura do corte cirúrgico. “Ao analisar o olho de um paciente com catarata (opacificação do cristalino do olho), por exemplo, analisamos a curvatura da córnea e, se for o caso, já definimos a correção do astigmatismo”, acrescenta ele.

“Nos últimos dez anos, as cirurgias tornaram-se mais precisas”, explica Paro. Como exemplo, a eliminação da catarata é feita por meio de um processo chamado falcoemulsificação, uma técnica que reduziu a incisão de 12 milímetros para 3 milímetros no máximo. A busca de precisão tem motivado a corrida pela produção de equipamentos técnicos de alta performance.

Parceria acadêmica
Para os avanços que a Eyetec precisava fazer no topógrafo convencional foram fundamentais as interações da empresa com o Laboratório de Óptica Oftálmica do Instituto de Física (IF) da Universidade de São Paulo (USP), de São Carlos, e com os departamentos de Oftalmologia da Escola de Medicina da USP, de Ribeirão Preto, e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Como relata Luís Alberto Vieira de Carvalho, pesquisador do IF de São Carlos e um dos sócios da Eyetec, nessas conversas constatou-se que as formas de acompanhamento das alterações oculares eram indiretas e sempre tardias em relação aos cuidados médicos requeridos. “Por isso, antes de buscarmos recursos na FAPESP, nós tínhamos feito, ainda como estudantes, um protótipo muito básico”, reforça o engenheiro eletrônico Sílvio Tonissi Júnior, também sócio e coordenador do projeto.

Ao procurar soluções tecnológicas para o problema, o grupo de pesquisadores da Eyetec buscou inspiração na história dos aparelhos de monitoramento do olho humano. Como explica Carvalho: “Em 1820, o oftalmologista francês Ferdinand Cuignet propôs o primeiro método para estudar as imagens refletidas pela superfície anterior da córnea, designando o nome da nova técnica de ceratoscopia, conceito válido até hoje”, conta o pesquisador. “Uma luz era projetada num anteparo colocado em frente ao olho do paciente, a partir do qual se faziam estudos, comparações e conclusões. Só que havia vários problemas com esse sistema. O processo de alinhamento dependia muito da habilidade do observador e não havia nenhum sistema óptico de aumento, o que dificultava a análise das imagens refletidas.”

Foi graças a um lance de gênio do pesquisador português Antônio Plácido, em 1880, que os pesquisadores conseguiram ultrapassar os limites da época. Ele preparou uma espécie de cartolina sobre a qual havia pintado uma série de círculos pretos, tendo ao centro um orifício. A partir da análise do padrão refletido pelo olho do paciente, o profissional podia deduzir o formato da superfície e daí captar o grau da anomalia existente. Pelo formato, essa técnica passou a ser conhecida como os “discos de Plácido”. “O topógrafo intracirúrgico coloca essa técnica no seu mais refinado grau, aplicado em cirurgias que podem gerar altos índices de astigmatismo pós-cirúrgico devido à ausência de métodos eficientes de detecção de irregularidades na superfície da córnea”, relata Carvalho.

Testes visuais
Na primeira fase do projeto foram produzidas peças mecânicas e ópticas, ao mesmo tempo em que era desenvolvido um software de captura e processamento de imagens. Também foram armazenadas as medidas de córneas de pacientes voluntários. O passo seguinte foi desenvolver um protótipo que, na prática, apresentasse as características de um produto comercialmente operacional. Novos testes foram feitos, “em diversas situações reais de cirurgia”, segundo Carvalho. Além disso, o software do sistema passou por novas etapas de desenvolvimento, destinadas a robustecer o grau de confiabilidade do sistema.

O aparelho recebeu melhorias para que seu uso não entrasse em conflito com as necessidades específicas do ato cirúrgico, como o ângulo de variação da incidência de luz sobre os olhos do paciente e sua capacidade de manipulação. Para isso, o topógrafo recebeu uma espécie de braço mecânico, facilmente manuseado pelo médico. “O paciente fica numa posição em que o eixo óptico do microscópio eletrônico se estabelece no mesmo eixo do olho. A imagem virtual feita pelos reflexos dos anéis do projetor se forma em dois lugares, na ocular e na câmera que fica acoplada ao divisor de feixes do microscópio”, detalha Tonissi Júnior. O grau de correção dos problemas oculares é mostrado na tela de um computador.

Na tela aparecem faixas de cores que indicam a situação da córnea. Cores quentes, como laranja, vermelho e amarelo, indicam altas curvaturas ou distorções localizadas. As cores azul e violeta representam as curvaturas menores e indicam regiões com poucas distorções. As médias são verdes e representam a normalidade. “Tudo isso é visto de uma maneira fácil de ser interpretada pelo médico”, conta Luís Alberto Carvalho.

Mercado promissor
Um dos mais sérios desafios da equipe da Eyetec é baratear o produto. “Hoje, ele custaria cerca de R$ 30 mil”, informa Carvalho. A câmera é japonesa, o sistema óptico é nacional, a placa de aquisição de imagens é canadense, ficando a cargo da Eyetec o desenvolvimento de rotinas de controle do software. “Os novos testes mostram ser possível baratear bastante o topógrafo intracirúrgico”, diz Tonissi. O preço deve cair para cerca de R$ 10 mil até o final do ano, quando for lançado no mercado. A Eyetec tem planos de produzir dois sistemas para o topógrafo, um gerido por um computador estacionário e outro para ser conectado a um notebook.

O mercado para o novo produto, apesar do preço, é bastante promissor, diz Tonissi. Na disputa por preços, os oftalmologistas têm como opção os modelos convencionais importados, que chegam a custar de US$ 14 mil a US$ 18 mil, fora taxas de importação. O novo modelo brasileiro, da Eyetec, acoplado a um PC, deverá ficar, portanto, 60% mais barato. Pelos cálculos da empresa, existem no mercado brasileiro hoje cerca de 9 mil oftalmologistas, dos quais 3.600 são cirurgiões, alvo específico para o produto. Além do mercado nacional, a empresa já olha para o mercado externo.

O Projeto
Desenvolvimento de um Topógrafo Intracirúrgico (nº 97/13359-2); Modalidade Programa de Inovação Tecnológica em Pequenas Empresas (PIPE); Coordenador Sílvio Antônio Tonissi Júnior – Eyetec; Investimentos R$ 195.720,00 e US$ 42.688,00


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