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Ciência Geral

No encalço do parasita

Radicado no Rio de Janeiro, o baiano Wanderley de Souza é referência internacional no estudo de protozoários que atacam o homem

Wanderley de Souza: descrição detalhada de duas organelas do Trypanosoma cruzi, causador da doença de Chagas

LÉO RAMOSWanderley de Souza: descrição detalhada de duas organelas do Trypanosoma cruzi, causador da doença de ChagasLÉO RAMOS

Quando cursava o colegial, hoje chama de ensino médio, o parasitologista Wanderley de Souza já pensava em ser cientista. as havia um obstáculo geográfico a separá-lo de sua aspiração. Nascido em 1951 no município baiano de Iguaí, Souza sabia que, naquele tempo, teria de deixar a terra natal para perseguir seu objetivo. “Na Bahia, não havia então condições de ser pesquisador”, relembra. “Eu teria de ir a São Paulo ou ao Rio de Janeiro.” Escolheu a capital fluminense, onde entrou no curso de medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1968. “Antigamente, quem queria virar pesquisador (nas áreas biológicas) fazia medicina”, conta. “Hoje o caminho mais tradicional é cursar biologia.”

Desde o primeiro ano da faculdade, já na condição de bolsista de iniciação científica pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o jovem Wanderley abraçou a área que seria o centro de seus estudos, as doenças causadas por protozoários (seres vivos com apenas uma célula), como os parasitas da malária, da toxoplasmose e da leíshmaniose. Fez seus primeiros trabalhos sob orientação de Hertha Meyer, alemã emigrada para o Brasil na década de 1940, que foi uma das pioneiras na área de cultivo celular, e Cezar Antonio Elias, especialista em radiobiologia. Formou-se em 1974 e logo em seguida fez mestrado e doutorado no Instituto de Biofísica da UFRJ, analisando em detalhes a biologia do Trypanosoma cruzi, protozoário causador da doença de Chagas, até hoje um de seus principais objetos de estudo.

“No curso de medicina, o que mais me interessou foi o estudo dos parasitas”, conta Souza. “Sempre quis entender como eles penetravam nas células humanas.” Desde então, Souza desenvolve uma bem-sucedida carreira de pesquisador, ocupando hoje o cargo de chefe do Laboratório de Ultra-estrutura Celular Hertha Meyer do Instituto de Biofísca Carlos Chagas Filho da UFR]. Ele passou pequenas temporadas no exterior (México, Estados Unidos e Escócia), sem, no entanto, fazer um pós-doutorado formal fora do país.

De forma esquemática, os trabalhos conduzidos em seu laboratório podem ser agrupados em três grandes linhas: o estudo da organização estrutural de parasitas que provocam doenças no homem; sua interação com células do hospedeiro; e o desenvolvimento de novas drogas que possam ser utilizadas em quimioterapia. “Nos últimos oito anos, estamos intensificando a procura de novas drogas para combater os parasitas”, diz Souza. Um dos alvos prioritários dos cientistas é desenvolver fármacos que atuem sobre a síntese do ergosterol, um tipo de composto solúvel em gorduras que é essencial para a sobrevivência e replicação de alguns parasitas. De função semelhante ao colesterol, o ergosterol controla a fluidez das membranas de certos protozoários. Além de pesquisar os parasitas unicelulares, o laboratório também se dedica, com menor ênfase, ao estudo de estruturas de nematóides (vermes), tendo como modelo experimental o Litomosoídes chagasjilhoí, agente causador da filariose em roedores.

Em alguns momentos da vida profissional o parasitologista exerceu, ao lado de seu trabalho de investigação científica, cargos na administração pública, sempre na área de educação ou pesquisa. Na década de 1990 foi o primeiro reitor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) , em Campos dos Goytacazes, um projeto de instituição de ensino idealizado pelo antropólogo Darcy Ribeiro. Entre janeiro de 2003 e janeiro de 2004, foi secretário executivo do Ministério da Ciência e Tecnologia.

O parasitologista brasileiro é o autor de mais de 400 artigos publicados em revistas científicas internacionais

LÉO RAMOSO parasitologista brasileiro é o autor de mais de 400 artigos publicados em revistas científicas internacionaisLÉO RAMOS

Atualmente é secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação no Rio de Janeiro, posto que ocupa pela segunda vez. “Um dos maiores desafios do Brasil é transformar o nosso conhecimento básico em produtos com valor econômico”, afirma Souza. “Também precisamos atrair mais empresas privadas para a pesquisa científica.”

Autor de mais de 400 artigos científicos publicados em revistas internacionais, sem contar o meio milhar de comunicados apresentados em congressos e os sete livros editados, Souza é um dos maiores especialistas na anatomia dos protozoários e nos mecanismos de invasão utilizados por esses parasitas para penetrar nas células humanas. Nesse campo de estudos, seus trabalhos de maior relevância talvez sejam as descrições pormenorizadas de duas importantes organelas do Trypanosoma cruzi, o acidocalcissoma e o reservossoma, esta segunda descoberta pela própria equipe de Souza. Segundo o parasitologista, que será o presidente do 13° Simpósio Internacional de Protozoologia a ser realizado no Brasil em 2009, seus escritos científicos já foram citados cerca de 7 mil vezes em artigos de outros pesquisadores. “O Brasil é líder nos estudos de protozoários”, comenta.

Além da expressiva produção acadêmica, Souza também se orgulha de formar novas levas de pesquisadores. Já orientou cerca de 80 pós-graduados e contribuiu para a formação de núcleos de estudos em parasitologia em universidades de vários estados. “Temos de passar o conhecimento adiante, para outros grupos”, diz. Somente em seu grupo na UFRJ trabalham cerca de 50 pessoas.

Por sua atuação de destaque na ciência fluminense, Wanderley Souza, que é membro da Academia Brasileira de Ciências desde 1987 e da Academia de Ciências do Terceiro mundo desde 1990, recebeu o título honorífico de cidadão do estado do Rio de Janeiro. Esse baiano radicado há quase quatro décadas no Rio de Janeiro é casado e pai de três filhos – dois dos quais alunos de pós-graduação da Uenf.

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