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Dissertação premiada de aluna da Unicamp permite a biólogos manipular dados colhidos com metodologias diversas

FABRÍCIO MARQUES | ED. 151 | SETEMBRO 2008

 

A capixaba Jaudete Daltio, de 25 anos, conquistou o primeiro lugar, na categoria dissertação, de um concurso anual promovido pela Sociedade Brasileira de Computação (SBC) que premia os melhores trabalhos brasileiros de iniciação científica, mestrado e doutorado nessa área do conhecimento. Trata-se de uma competição bastante disputada, na qual centenas de candidatos submetem artigos resumindo suas contribuições e os dez melhores de cada categoria vão defender seu trabalho para uma banca de cinco professores. Bolsista da FAPESP, Jaudete concorreu com 70 dissertações, num universo de cerca de 800 defesas de mestrado em 2007. Sua premiação, anunciada no 28º Congresso da SBC, realizado em Belém (PA) em julho, chamou atenção por duas circunstâncias. A primeira foi, naturalmente, a qualidade da dissertação. Orientada por Claudia Bauzer Medeiros, do Instituto de Computação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Jaudete propôs e implementou um conjunto de algoritmos que resultaram em uma ferramenta capaz de ajudar biólogos a manipular bancos de dados sobre biodiversidade.

Existe uma dificuldade natural em usar tais informações, porque elas são fornecidas por grupos de pesquisa distintos, que as coletam usando diferentes vocabulários e metodologias. Para ampliar a capacidade de fazer correlações entre informações de fontes diferentes, Jaudete vinculou os dados a ontologias, que, numa perspectiva computacional, representam conjuntos de conceitos de um domínio e seus relacionamentos. O sistema, batizado de Aondê (“coruja”, em tupi, uma referência à linguagem de representação de ontologias OWL, “coruja” em inglês), é um serviço web que oferece operações para armazenamento, gerenciamento, busca, ranking, análise e integração de ontologias. Suponha-se que um biólogo queira saber as interações entre o inseto A e a planta B. Pois o sistema rastreia as informações e interações existentes levando em conta não apenas os termos A e B, mas também o conjunto de conceitos pertinentes àqueles assuntos. “O trabalho de Jaudete permite que se descubram novas noções, correlacionando o trabalho de vários grupos de pesquisa, mesmo que usem vocabulários diferentes”, diz Claudia Bauzer Medeiros. Antes de desenvolver o servidor de ontologias, Jaudete foi pesquisar algoritmos e sistemas existentes para entender por que não satisfaziam os biólogos. “Num trabalho de fôlego, ela mostrou todos os defeitos que encontrou, em geral relacionados com promessas que as ferramentas não conseguiam cumprir”, diz Claudia.

A premiação de Jaudete também se destacou por um mérito involuntário. Ela foi a única mulher entre os 28 finalistas nas três categorias do concurso da SBC, em mais um sintoma do crescente e preocupante desinteresse das mulheres pela computação. “Não consigo compreender por que isso acontece, pois, para mim, a área é extremamente atraente”, diz Jaudete. “O intrigante é que o desinteresse vem aumentando nos últimos anos. Atualmente estou trabalhando numa empresa, entre profissionais mais experientes, e a proporção de mulheres é maior do que a que eu encontrei na graduação”, afirma.

O fenômeno é mundial e não tem explicações simples. Segundo dados compilados pela SBC, a participação das mulheres na pós-graduação em ciência da computação atinge cerca de 30% do total de alunos, um índice razoável quando comparado ao padrão mundial. Já na graduação estima-se que a participação das mulheres tenha baixado de 30% há 15 anos para menos de 10% atualmente. Segundo Claudia Medeiros, umas das hipóteses mais corriqueiras é que as meninas sejam direcionadas pelos pais para outras carreiras. “A computação, na visão de muitos pais, não seria uma área muito interessante”, diz. Outra hipótese é que a mulher se interessa menos por atividades que não envolvem pessoas. “Se ela acha que trabalhar com computação é mexer apenas com computador ou desenvolver programas, surge o desinteresse”, crê a pesquisadora. “Ocorre que essa imagem é falsa. A computação permeia todas as nossas atividades e é reconhecida como o ‘terceiro pilar’ de sustentação da pesquisa científica, junto com os pilares da teoria e da experimentação. Daí a necessidade de mostrar para os jovens o que é a carreira”, afirma. Empresas como a Intel, a Microsoft e a HP consideram fundamental garantir a diversidade de gêneros na pesquisa em alta tecnologia para se manterem competitivas globalmente. “Estatísticas norte-americanas indicam que patentes propostas por equipes mistas têm geralmente maior impacto”, diz Claudia Medeiros.

Bolsa
Natural de Cachoeiro do Itapemirim (ES), Jaudete Daltio graduou-se em ciência da computação na Universidade Federal de Viçosa, em 2005, e, influenciada por seus professores, inscreveu-se para o mestrado da Unicamp. Com dificuldades para se manter em Campinas, procurou definir seu tema de pesquisa para concorrer a uma bolsa da FAPESP, que foi concedida. O servidor de ontologias já era previsto num projeto de sistemas de biodiversidade, capitaneado pela professora Claudia e co-coordenado por Thomas Lewinsohn, do Instituto de Biologia da Unicamp, financiado a partir de 2005 pela Microsoft. Após a defesa da dissertação, em agosto de 2007, Jaudete começou a fazer algumas disciplinas do doutorado e ainda está envolvida com a produção científica vinculada a sua pesquisa – que já lhe rendeu dois artigos em congressos e um artigo em um periódico internacional importante. Mas tem dúvidas se seguirá carreira acadêmica. Recentemente aceitou uma oferta de emprego na fundação Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD) e está entusiasmada com o trabalho. “É interessante trabalhar com grandes equipes  e acompanhar o ciclo de vida completo dos produtos que desenvolvemos”, afirma. A orientadora lamenta, mas admite que a escolha da aluna faz sentido. “O mercado está aquecido, pagando mais a quem tem uma experiência profissional do que a quem fez doutorado mas nunca trabalhou numa empresa”, diz Claudia Medeiros.


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