POLÍTICA C&T

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Megacidades vulneráveis

Painel discute impactos do aquecimento global no Rio e em São Paulo

ED. 162 | AGOSTO 2009

 

Trânsito em São Paulo: insustentável

Um painel internacional de especialistas realizado no mês passado produziu um primeiro esboço para a construção de mapas das vulnerabilidades das regiões metropolitanas do Rio de Janeiro e de São Paulo aos efeitos das mudanças climáticas globais.  Os debates enfatizaram tanto as suscetibilidades de determinados espaços geográficos quanto as vulnerabilidades sociais da população. Os detalhes do esboço devem ser divulgados em três meses e fornecerão elementos para a elaboração dos mapas, que se basearão em dados regionais sobre climatologia, poluição, relevo, hidrografia, uso e ocupação da terra, saúde, características sociodemográficas da população, entre outros. O trabalho servirá para orientar projetos de pesquisa e subsidiar políticas públicas de adaptação ao aquecimento global.

O painel, que teve etapas realizadas no Jardim Botânico do Rio de Janeiro e no auditório da FAPESP, em São Paulo, e contou com pesquisadores do Brasil, Argentina, Reino Unido e Estados Unidos, foi coordenado por Carlos Nobre, do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe); Daniel Hogan, professor de demografia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); e Magda Lombardo, do Instituto de Geociências e Ciências Exatas de Rio Claro da Universidade Estadual Paulista (Unesp). A iniciativa faz parte de um estudo financiado pelo Global Opportunities Fund Climate Change and Energy Programme, do Reino Unido, pela Rede Brasileira de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais (Rede Clima) e pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para as Mudanças Climáticas, e teve o apoio do Programa FAPESP de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais.

Os dados evidenciaram distinções e semelhanças no rol de vulnerabilidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. A diferença mais óbvia é que São Paulo não está sujeita ao risco do aumento do nível do mar. Embora as duas cidades tenham favelas, a capital fluminense tem uma situação mais frágil, uma vez que mais de um milhão de pessoas vive em habitações precárias localizadas em baixadas – áreas sujeitas a inundações. Mas São Paulo deverá sofrer mais enchentes no verão. “As chuvas deverão concentrar-se na forma de tempestades e, devido à influência das ilhas de calor, cairão com mais intensidade sobre a área urbana”, diz Magda Lombardo, estudiosa das ilhas de calor, que consistem na elevação da temperatura em áreas muito urbanizadas.

A questão da saúde e da poluição é bem mais preocupante em São Paulo. Segundo Paulo Saldiva, professor da Faculdade de Medicina da USP, a alta concentração de automóveis é um dos principais agravantes das mudanças climáticas em São Paulo. Segundo ele, o número de carros cresce em proporção quatro vezes maior que o de habitantes na capital paulista. “A pressão para vender mais carros é insustentável de todos os pontos de vista – inclusive o do trânsito, já que a média de mobilidade em São Paulo é de 10 quilômetros por hora, igual à do século XVII. O mapa das ilhas de calor coincide com o mapa da mortalidade por eventos cardiovasculares na cidade”, disse Saldiva.

No Rio de Janeiro a poluição não é um perigo central. “Os ventos, a circulação e a brisa marítima fazem com que não seja um problema agudo, a não ser em algumas áreas da Baixada Fluminense pouco influenciadas pela brisa devido à topografia local”, disse Carlos Nobre, que é coordenador do Programa FAPESP de Pesquisas sobre Mudanças Climáticas Globais. Apesar de seu clima quente, o Rio deverá sofrer menos com a intensificação das ondas de calor. “O que faz a vulnerabilidade em relação à temperatura é a diferença em relação ao que se está acostumado – isto é, quando ocorre um aquecimento que sai da faixa do conforto térmico da pessoa. Por isso as ondas de calor poderão causar mais mortes em São Paulo”, diz Nobre.


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