ENTREVISTA

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Nicole Moreau: A química de olho na biologia

MARILUCE MOURA | Ano Internacional da Química | FEVEREIRO 2012

 

Nicole-MoreauA química francesa Nicole Moreau, presidente da União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC) nos anos de 2010 e 2011, é autora, junto com François Le Goffic, do primeiro artigo científico que relatou bons resultados na purificação de uma enzima envolvida na resistência de bactérias a antibióticos. O paper foi publicado em fevereiro de 1973 na FEBS Letters, revista da Federação das Sociedades Bioquímicas Europeias e embora ela tenha desenvolvido numerosos outros estudos vinculados ao tema, sempre na interface da química com a biologia molecular, de seu ponto de vista nenhum foi mais decisivo em sua carreira. “Era a primeira purificação!”, ela deixa escapar com certo encanto, olhos azuis brilhantes encontrando a memória do feito da jovem cientista que teve que enfrentar não poucos obstáculos para se firmar no cenário um tanto machista da comunidade científica francesa.

“Mas eu tive muita sorte”, Nicole Moreau comenta, ao rever sua trajetória em entrevista para Pesquisa FAPESP, concedida no final de junho em sua sala no Palácio da Química, em Paris. Foi sorte, segundo ela, casar com Gilles Moreau, seu colega no doutorado e parceiro da vida inteira. Químicos ambos, ele podia compreender como ninguém a necessidade de sua mulher gastar longas horas por dias a fio no trabalho no laboratório para resolver um problema. Assim como podia ser companheiro nas peripécias indispensáveis para conciliar as exigências da carreira científica com o papel de mãe de duas saudáveis crianças, incluindo levá-las para inusitados percursos de férias dentro das viagens de trabalho dos pais. “A sorte de casar bem, ter filhos que não ficavam doentes e iam muito bem nos estudos foi encaminhando minha vida numa boa direção”.

Ativa, charmosa, discorrendo sobre a imagem dos químicos na sociedade, sobre as diferenças entre homens e mulheres na condução da carreira ou sobre si mesma, Nicole Moreau passa a impressão de uma pessoa feliz. Completamente envolvida com as atividades do Ano Internacional da Química em 2011, ela contou que por conta disso, de janeiro a junho já fizera 15 viagens ao exterior. “Não sou jovem”, comentou, “ontem foi meu aniversário, mas não vou dizer quantos anos fiz”, completou com coqueteria bem feminina. A seguir os principais trechos de sua entrevista.

O que a levou a escolher a química?
Na escola eu gostava de literatura, grego e latim e gostaria de ter sido arqueóloga, jornalista ou espeleóloga. Era filha única e meu pai – a família influencia muito, mesmo em países livres como a França da minha infância – me disse que eu seria “rato de biblioteca.  E já que ia bem na escola, deveria escolher outra coisa. Concordei, continuei a estudar grego e latim e, ao mesmo tempo, matemática. Depois pensei em ser médica. Meus pais não tinham muitos recursos e ficaram maravilhados. Mas quando eu estava no secundário fui com a escola visitar o hospital da cidade e, como não se pode levar as crianças a qualquer ala, fomos à dos idosos.  Eu tinha uns 14 anos, fiquei apavorada e a vocação desapareceu. Perdi meus avós ainda muito pequena, nunca tinha convivido com pessoas idosas, meus pais eram jovens e, ao descobrir aquela realidade associada à profissão de médico, pensei, “Nunca!”. Decidi que ia estudar ciências. Eu gostava muito de manipular coisas, ampolas, umas lixazinhas…  Estudei depois para entrar na École Normale Supérieure e, ao final de um ano – eram dois de preparação –, decidi que não queria ser professora em uma escola secundária, mas fazer faculdade. Fiz o exame e fui aprovada. Na França, o secundário vai até os 17 anos e aí há duas possibilidades: a universidade, onde se entra sem seleção depois do baccalauréat, um exame que sanciona os estudos secundários, e as grandes écoles, algo muito específico da França. São instituições de ensino superior de alto nível, onde se entra por concurso. Na época, poucas eram abertas às mulheres, a Polytechnique mesmo só abriu em 1973, e meus pais só conheciam a École Normale. Eu queria estudar numa grande école, era boa aluna, mas, enfim, continuei o curso universitário.

Na Sorbonne?
Sim, tudo deu certo e terminei logo. Fui a primeira, talvez a única, a precisar de uma autorização do pai para entrar no Centro Nacional de Pesquisa Científica, o CNRS, porque era menor (a maioridade na França era aos 21 anos). Fiz uma carreira muito rápida, porque era jovem e também tive a sorte — hoje acho que é realmente uma sorte — de me casar. Conheci meu marido, Gilles Moreau, que estudara na Polytechnique, quando fazíamos nosso doutorado no mesmo laboratório.  Faz mais de 40 anos que nos casamos e acho que isso foi muito útil para minha carreira.

Vocês são da mesma idade?
Ele é 3 anos e meio mais velho. Estávamos juntos no doutorado em razão de seu serviço militar, que durava 27 meses naqueles anos da guerra da Argélia. Meu doutorado foi em química orgânica e métodos físicos porque meu orientador era muito bom nisso. Ele era da Polytechnique, assim como quase todos os doutorandos. Naquele momento os métodos físicos modernos, a ressonância magnética nuclear [RMN], a espectrometria de massas [EM], estavam começando. Escrevi a tese e a defendi quando estava grávida do primeiro filho.

Quantos filhos vocês têm?
Dois, um menino e uma menina, que nasceram no mesmo dia, na mesma hora, com dois anos de intervalo. E tenho três netos. Mais ou menos um ano depois da defesa de tese, meu marido foi trabalhar na indústria farmacêutica – na Roussel-Uclaf que, depois de muitas compras e vendas, é a Sanofi-Aventis.  Eu continuei no mesmo laboratório. Tive o segundo filho e não podia fazer pós-doutorado nessas condições. Fiz mais tarde, em Genebra – era perto, assim meus pais cuidavam das crianças e eu podia voltar para casa todos os fins de semana. Mas entre uma coisa e outra eu tinha mudado de laboratório e meu novo chefe, da École Normale, me propôs tentar purificar enzimas que inativam os antibióticos, ou seja, são responsáveis pelo mecanismo de resistência das bactérias aos antibióticos. Ele me propôs, “vamos purificar como químicos”. E sugeriu que no pós-doutorado eu fosse estudar um pouco de microbiologia e enzimologia no laboratório do Professor [Jean Samuel] Pitton, muito famoso por trabalhos com as penicilinas.

Em que ano era isso?
1975-76, não sei mais. Eu fui, aprendi isso e, quando voltei, indo seguidas vezes ao Instituto Pasteur, aprendi a manipular bactérias.

Assim veio a desenvolver o high-throughput screening (HTS), em português, método de varredura em larga escala.
Sim, quando voltei. Eu sabia manipular bactérias, enzimas, tentamos as purificações e funcionou. Fomos os primeiros no mundo a purificar enzimas, e então continuei nessa área. Assinávamos contratos com os laboratórios farmacêuticos que pediam que estudássemos o mecanismo de ação de seus novos antibióticos, a resistência das bactérias, etc. Também tínhamos muitos contatos com a rede hospitalar francesa, e isso fez com que eu e Le Goffic, meu chefe – ainda jovem, talvez só uns dez anos mais velho que eu – nos tornássemos uma equipe muito conhecida em todos esses meios naquele momento. Era o início das pesquisas na interface da química com as ciências biológicas, uma interface que foi muito importante na minha carreira. Acredito que é muito mais fácil para um químico estudar ciências biológicas do que o oposto, porque a química é uma ciência dura, exata, lógica, e se a pessoa não foi educada dentro de seus parâmetros mais tarde isso se torna complicado. É algo diferente do biólogo ou do médico, por exemplo, que pode olhar o paciente e dizer que ele está com mau aspecto, o que é intuitivo, não exato. Nunca se sabe, a esse olhar, se o paciente vai se curar ou não. Ao passo que na química, assim como na matemática, se sabe que usando uma dada amostra e esquentando-a a uma dada temperatura, vai-se obter determinado produto ou mesmo a decomposição da amostra de partida.

E sua visão é de que os químicos podem obter resultados bem positivos se absorvem também os métodos das ciências biológicas?
Sim, se eles aceitam aprender. Aprende-se mais facilmente quando não se fica fechado em regras científicas muito estritas. O fato é que me voltei para a interface. Tinha ótimas relações principalmente com os médicos. A medicina é um campo que demanda estudos demorados e um químico, mesmo quando estuda biologia, não é considerado um concorrente ou um rival do médico, os caminhos são muito diferentes. Já entre biólogos e químicos, é diferente. Porque se o biólogo diz que é ele quem conhece as enzimas, não o químico, este argumenta que as reações enzimáticas são reações químicas, feitas por enzimas que não estão vivas, que são proteínas, moléculas químicas muito grandes, mas ainda assim, moléculas. Há rivalidade, incompreensão, enquanto químicos e médicos estão em dois caminhos paralelos – e a biologia está entre os dois. Enfim, minha experiência da interface foi muito frutífera e naquela época eu conhecia todos os chefes de laboratório de microbiologia na França.

Esse foi então um momento especialmente importante para sua carreira?
Sim, por trabalhar na interface e por fazer um pós-doutorado fora em algo muito diferente, envolvida com microbiologistas que tinham formação médica. Mais tarde, por volta de 1980, queria respirar um pouco e, como no Ministério da Pesquisa estavam procurando um encarregado de missão – alguém que é professor, funcionário do CNRS e dá um dia de trabalho por semana ao Ministério –, me propus a fazer isso.  Eu ia para o Ministério e trabalhava com um vice-diretor científico que era químico e farmacêutico. A França tinha lançado as convenções farmacêuticas – se a indústria farmacêutica inovava, pesquisava, o estado dava subsídios, e o dinheiro que a indústria dava a laboratórios acadêmicos para colaborações era isento de impostos. Mas as convenções farmacêuticas cessaram e voltei para meu laboratório. Só que eu tinha me interessado pelo trabalho de encarregada de missão, então assumi esse mesmo posto no próprio CNRS, dedicando a ele um dia por semana, com a diferença de que devia lidar apenas com cientistas. Era uma política de pesquisa cujos atores eram os cientistas.

E digamos que a política de pesquisa na França está longe de ser tranquila.
É verdade, a França não é um país tranquilo. Mas na pesquisa acadêmica somos funcionários públicos e se para nós isso é uma vantagem, para a ciência não o é. É claro que as coisas dependem um pouco da personalidade de cada um. Quando se é trabalhador, a tranquilidade que a estabilidade no emprego assegura pode resultar em mais produção, criatividade. Mas quando não se é, a pesquisa não avança, a pessoa ganha seu salariozinho e pronto. O CNRS passou por reformas recentemente, mas ele era organizado assim: havia um presidente e um diretor, e os departamentos de Matemática e Física, Química, Ciências Biológicas, Ciências Humanas e Sociais. Muito parecido com o sistema da Espanha, por exemplo. Então havia um departamento de química com um diretor e, como a química é complexa, com três vice-diretores científicos: um para a química orgânica e a interface com as ciências biológicas, outro para uma química um pouco mais física e outro, ainda, para uma química mais mineral, de materiais. Cabia-me auxiliar o primeiro vice-diretor científico e isso funcionou tão bem que, quando o mandato do meu chefe terminou – em geral, esses postos duram cinco anos –, me propuseram seu cargo. Isso me deixou só um dia para o laboratório, mais o fim de semana, e uma grande responsabilidade no CNRS, pois é realmente uma posição muito importante.

E como foi possível conciliar naqueles anos trabalho e vida familiar?
Meus filhos nunca ficavam doentes, isso conta muito! E eu dava um jeito: trabalhava, saíamos de férias com eles, vivemos momentos extraordinários fazendo camping na África. Nossos filhos viajaram conosco até os 20 anos mais ou menos, porque não tinham amigos cujos pais pagassem uma viagem à África Central… Ficamos muito próximos e eles tinham orgulho de nós. Eram saudáveis e iam bem nos estudos.

Enquanto vice-diretora no CNRS, seu trabalho de pesquisadora resumiu-se a um dia por semana?
Pouco antes dessa época eu tinha decidido também ser professora na universidade. As duas vias são muito próximas, não? Eu já dera aulas na Paris VI. Eu era “horista”, no começo, e substituí um professor que morrera repentinamente. Ele ensinava a estrutura dos glucídios e lipídeos em ciências biológicas e não havia outro que soubesse ensinar ali a química dessas classes, por isso me pediram para dar as aulas dele. Mais tarde, um professor efetivo tirou uma licença sabática e me pediu para dar seu curso de enzimologia, coisa que eu tinha aprendido no pós-doutorado; então, como horista, eu ensinava química dos açucares e dos lipídeos e, como efetiva, enzimologia e funcionava bem. Um dia, abriu uma vaga nessa universidade, me candidatei e fui escolhida porque já trabalhava lá, me conheciam, os alunos estavam satisfeitos em geral, e foi isso. Já vice-diretora do CNRS, eu tentava juntar as aulas no mesmo dia e nesse dia não ia ao Conselho. Então, eu trabalhava em um laboratório do Inserm com meus colegas médicos, no Centre des Cordeliers, no Quartier Latin, pertinho do Odéon.

O que exatamente era sua pesquisa com as bactérias resistentes aos antibióticos?
Logo depois do meu pós-doutorado, mais ou menos em 1975, começamos com essa pesquisa e a primeira coisa foi a purificação das bactérias. Se um antibiótico não funciona porque as bactérias ficaram resistentes a razão é que há uma enzima na bactéria que neutraliza o antibiótico, modifica-o quimicamente e o impede de matá-la. Meu chefe me propusera purificar as enzimas trabalhando como químicos e isso funcionou porque, afinal, as enzimas são entidades químicas. Mais adiante meus colegas médicos me propuseram trabalhar com eles no laboratório do Inserm. Eu já estava na Paris VI, eles estavam ligados à mesma universidade, portanto, só tínhamos a ganhar. Criamos então uma pequena infraestrutura para a pesquisa química e junto com uma colega química pegávamos montes de antibióticos da mesma família e íamos verificando, comparando, vendo que determinado antibiótico tinha um grupo químico funcional que o outro não tinha, um ficava inativado, o outro não, então podíamos dizer, por exemplo, a bactéria deve atacar o grupo amina e modificá-lo, já que quando não há grupo amina, o produto permanece ativo. Portanto, levantávamos hipóteses químicas, fazíamos crescer bactérias resistentes, lhes dávamos o antibiótico, deixávamos que crescessem bastante tempo. Depois retomávamos as bactérias, quebrávamos para ver o que tinha dentro e recuperávamos o antibiótico para ver em que ele havia se transformado. E isso era verdadeira química. Minha colega, bem química, não queria tocar nas bactérias. Meus alunos e eu cuidávamos da parte mais biológica e depois eu discutia com ela os resultados. Raciocinávamos como químicas e era maravilhoso. Funcionava muito bem. Nesse período me tornei vice-diretora científica do CNRS. E mesmo quando só ia um dia por semana no laboratório, funcionava, eu me virava. Às vezes eu ia de manhã para o CNRS e de tarde para o laboratório.

Qual era o procedimento para ver em que o antibiótico se transformara?
É assim: pegam-se as bactérias e, se elas crescem muito, cerca de 20 gramas de bactérias se formam no fundo de um frasco. Aí centrifuga-se para tirar o caldo, sobra um pequeno precipitado de bactérias que então são quebradas por via física, ultrassom, por exemplo, ou quimicamente. O suco que está nas bactérias sai e é novamente centrifugado. Joga-se fora a membrana das bactérias e fica-se com o suco onde há todas as enzimas, o DNA e todos os produtos químicos existentes na célula viva. Há muitas substâncias químicas, como as vitaminas. Depois se separam as grandes moléculas -– macromoléculas, enzimas, ácido nucléico – das pequenas moléculas, porque algumas são solúveis na água, outras não. É purificação química feita por pessoas que não temem trabalhar em com água.

Por que essa referência a trabalhar com água?
Os químicos mais antigos em geral não trabalhavam na fase aquosa, isso já é a química sustentável, mais recente. No entanto, nós o fazíamos. A água era a matéria viva, a química eram os solventes e combinávamos os dois. Então, descobríamos por que se devia evitar a utilização de um ou por que utilizar dois ao mesmo tempo. O Augmentin (amoxicilina), por exemplo, veio dessas pesquisas. Informávamos aos laboratórios farmacêuticos coisas como, “Prevemos que seu novo produto, uma amina, vai se tornar resistente muito depressa” e eles estavam interessados nisso. As enzimas, as bactérias, aprendem, isso significa que as mutações se produzem o tempo todo. E uma bactéria se reproduz a cada 20 minutos. Mutações permanecem, se remultiplicam e ocorrem mesmo sem antibióticos. Uma enzima sofre mutações porque há erros. Quando uma criança, cujos pais nunca tiveram câncer, desenvolve a doença, é porque houve erros na multiplicação do DNA. Há uma bactéria resistente em 1 bilhão. Se você tomar antibióticos, eles matam logo as bactérias sensíveis. Se tomar bastante antibiótico, mata também as bactérias resistentes. Mas se parar o tratamento cedo demais porque se sente bem – todas as bactérias sensíveis estão mortas, você tem a impressão de estar curado –, pode restar uma única bactéria resistente em 1 bilhão, mais difícil de matar, e que se multiplica pouco a pouco quando se interrompe o tratamento. E assim elas ficarão mais do que resistentes. E o enfermeiro que trata um paciente, lava mal as mãos, vai ver outro e transmite as bactérias resistentes.  No começo o antibiótico era maravilhoso. Depois, nos anos 1960-70, a resistência começou. Era o início ainda, nunca se tinha isolado enzimas e como pesquisadores meu grupo se beneficiou disso.

Que trabalho teve mais consequências sobre sua carreira?
A primeira purificação das enzimas de inativação, porque era a primeira vez no mundo que se fazia isso. Não teve uma grande repercussão porque era algo muito específico, com antibióticos. Mas para minha carreira, acho que foi muito importante. E depois, sempre que havia um problema nesta área, estávamos presentes. Os médicos diziam, “Encontramos um problema no hospital”, nós identificávamos, e a publicação era conjunta. A não ser minha tese, publiquei pouco sozinha.

Qual foi a originalidade do método usado para essa primeira purificação?
O fato de purificar as enzimas como se fossem um produto químico. De usar os conceitos e propriedades químicas. Ousamos colocá-las numa coluna de cromatografia, guardava-se o material numa câmara fria, colocávamos todas as nossas coisas dentro de armários de confeiteiro, transparentes, comprados para esse fim. Um fio saía, a gente recuperava o produto como os químicos fazem. Foi realmente a vitória da interface. Conseguíamos fazer tudo ao mesmo tempo, porque quanto mais se avança, mais gente chega para trabalhar junto, se tem encarregados de pesquisa no CNRS e as coisas funcionam bem. E eu tinha a vantagem de ter um marido na profissão. Não só podíamos conversar, como ele compreendia melhor o que eu tinha que fazer. Um químico sabe que, às vezes, é preciso ficar muito tempo trabalhando para terminar uma manipulação. Isso foi uma sorte.
Lembro que quando fiz minha tese sobre as substâncias naturais, nos anos 1970, a síntese química orgânica fazia muito sucesso. Depois isso diminuiu e agora está voltando. Nos anos 1990, um colega e eu decidimos desenvolver uma técnica de high-throughput screening. Conhecíamos muitas pessoas, todos os laboratórios, e aí criamos a Quimioteca Nacional no CNRS. Propusemos aos laboratórios um padrão geral de colocação de seus produtos químicos — em solução dentro de tais e tais condições, em tubos de tal marca, etc. – para testar todos. E funcionou. Estávamos em 1990-95, por aí, eu já era professora na Paris VI e fui convidada a dar aulas na École Nationale de Chimie, uma escola de engenheiros muito boa que propôs que eu montasse lá meu laboratório. Deixei o anterior e, com apoio do Inserm, do CNRS e do Ministério da Educação, criamos um laboratório com um robô onde podíamos testar cerca de 500 produtos por dia, tudo rápido e bem feito. Pedimos patentes, foi muito interessante.  Esse foi meu último trabalho com pesquisa. Jean-Marc Paris, o colega a que me referi, que estava comigo nessa empreitada, assumiu tudo depois que saí. Ele era um químico que trabalhava com antibióticos, também na interface. Era pesquisador na Rhône-Poulenc, quando esta foi comprada mudou para a Rhodia e depois saiu de lá para o CNRS.

A senhora poderia explicar o high-throughput screening para não especialistas?
É assim: de um lado está a quimioteca, com todos os produtos químicos, substâncias naturais ou resultantes de síntese, dissolvidos em um solvente compatível com a água e que não destrua os seres vivos – não pode ser álcool, que os mataria. As soluções têm a mesma concentração em todos os laboratórios envolvidos no projeto. Do outro lado está um especialista que trabalha, por exemplo, sobre o câncer. Ele tem moléculas ativas com determinada forma e observa se elas têm alguma semelhança com o que está disponível on-line na quimioteca. Se vê semelhança, solicita os produtos a fim de testá-los nas células tumorais. E a quimioteca lhe envia os produtos em solução, em placas padronizadas que podem ir diretamente para os robôs ou serem testadas à mão. O pesquisador analisa os resultados e depois os compartilha, esse é o acordo. Até aí não se assina nada — somos cientistas, trabalhamos para a ciência, para nosso prazer e para nosso público. Enquanto trabalhei lá, nunca houve problemas jurídicos. Com o material compartilhado, um pesquisador propõe coisas como, “será que você poderia sintetizar para mim a mesma coisa, mas deslocando a molécula tal para a direita?”  e o químico testa. Quando funciona, pode-se pedir uma patente. É realmente uma colaboração e, como podíamos fazer os testes nas bactérias, éramos simultaneamente químicos e biólogos. Tínhamos nossos próprios produtos e mais todos os outros da escola de química. Foi um pouco difícil aceitarem a introdução de bactérias numa escola de química, mas aceitaram.

Mas e a IUPAC?
Então, nessa época eu era diretora cientifica no CNRS e meu chefe era diretor da Química no CNRS. A IUPAC é membro do Conselho Internacional de Ciência, o ICSU. Nesse organismo alguns países são representados por sua academia de ciência, mas ele aceita também um segundo tipo de membros, monodisciplinares e internacionais, a exemplo da IUPAC. E quanto à própria IUPAC, os países, cada um representado por sua organização química,  se associam a ela por meio do NAO, National Adhering International. Mas eu começava a dizer que o diretor internacional de química do CNRS era meu chefe e, frequentemente, não tinha tempo para ir às reuniões do CNC que acontecem de 2 a 3 vezes por ano. Como eu era vice-diretora cientifica, ele me mandava representá-lo. Um dia me informaram que haveria uma assembleia geral da IUPAC – elas ocorrem a cada dois anos e a França tem 5 votos nesse fórum– e gostariam que eu fosse no grupo francês. Assim, em 1999  participei da primeira assembleia, em Berlim. Voltei em 2001 e um dia me propuseram fazer parte do gabinete da IUPAC porque, bem, eu devia dizer algo que prestasse de vez em quando. Fui nomeada para o gabinete e depois para o comitê executivo, que é mais restrito. Em 2007 me apresentei para a vice-presidência, president elect. Na IUPAC, o vice-presidente é um president elect, ou seja, é eleito e dois anos depois será o presidente. Fui eleita em agosto de 2007.

A senhora já recebeu muitos prêmios…
Nem tantos. Acho que tive sorte por ter escolhido a interface. Isso levou o CNRS a pensar que eu poderia ser útil. Não sou Nobel de Química, não sou uma química conhecida, mas trabalhei muito. E acho que tenho um temperamento agradável, não sou ambiciosa. Todas as coisas importantes que fiz me foram propostas. Não disse, “Vou ser diretora cientifica um dia ou quero ser presidente da IUPAC”. Disseram-me que eu ia representar a França, fui e trabalhei bem.

É tudo consequência de sua maneira de trabalhar?
Acho que as mulheres são melhores do que os homens nisso. Quando uma mulher é inteligente, estudou, tem um marido que não se opõe às viagens… Por exemplo, uma estudante ou uma jovem pesquisadora logo aceita um trabalho difícil e decide fazer o melhor possível. Já o rapaz pensa primeiro se o trabalho vai servir para sua carreira, mesmo quando aceita uma tarefa porque o chefe lhe deu o trabalho.  A mulher é menos ambiciosa  — e sem dúvida está errada — por isso é que ganha menos. Ela pensa primeiro no trabalho e com frequência o faz bem melhor, sem pensar todo o tempo, “mas se eu fizer isso, um outro logo vai fazer aquilo que é mais fácil.”

Há uma entrega mais incondicional das mulheres ao trabalho?
Sim, sem contar que costumamos pensar em várias coisas ao mesmo tempo, do projeto de química ao que é preciso comprar para comer. É claro que algumas mulheres contam com ajuda e eu sempre contei, embora não tivesse uma empregada que dormisse em casa. Acho que essa forma de pensar, múltipla, é extremamente útil. Observo também que uma mulher é mais bem-sucedida na administração, mesmo que seja cientista e se trate de uma administração cientifica, porque tem a mente extremamente organizada. Certo, nem todas, algumas são como pássaros! De todo modo, uma mulher inteligente e trabalhadora geralmente tem a mente mais organizada do que um homem em condições idênticas. Meu marido, por exemplo, estudou na Polytechnique, acho que é mais inteligente do que eu, não sei, mas realmente tem um espírito muito forte, e quando digo de repente algo sobre o dia seguinte, ele responde, “mas estamos falando de uma coisa e você pensa em outra!”, e logo se perde se pulo de um assunto a outro. Pulo mesmo de um assunto ao outro, acho que isso é muito feminino, penso que é da minha natureza. Mas quero lembrar aqui que tive a sorte de ter marido e filhos ótimos, assim como tive a sorte de encontrar um excelente orientador. E foi sorte mesmo, porque me deram uma lista de nomes e, como eu não conhecia ninguém, segui a ordem alfabética. O primeiro se chamava Felkin, um químico muito conhecido, mas no dia marcado para a entrevista ele tinha ido a um congresso, então peguei o seguinte da lista, Fetisson. Ele trabalhava na École Polytechnique e me disse que era a primeira vez que iria orientar uma mulher. Se Felkin estivesse lá, a julgar por sua carreira, eu certamente teria me tornado uma química pura.

Já como presidente da IUPAC, a senhora aceitou o desafio de lançar o Ano Internacional da Química.
Quando me tornei president elect, em 2007, o presidente em exercício professor Bryan Henry, do Institute of Chemistry da University of Guelph, um canadense, disse, “E se pedíssemos à ONU um ano internacional da química?”.  O conselho e a assembleia geral aprovaram a proposta por unanimidade.  Era justo, o Ano da Física fora em 2007, em 2008, o do planeta Terra, em 2009 foi a vez da Astronomia e, em 2010, a da biodiversidade. O representante de cada país ficou encarregado de avisar seu embaixador na Unesco ao voltar para casa, porque achamos que seria melhor apresentar a proposta primeiro a esse órgão. Como eu estava no gabinete e no comitê executivo e logo seria president elect, fui encarregada de procurar nosso embaixador e também de pedir apoio à Academia de Ciências da França. Perguntamos à Federação das Sociedades Químicas Africanas se queriam apresentar o projeto, porque para a Unesco, a África é importante. Existem três temas muito importantes para eles: África, mulher e países pobres em geral. A federação era então dirigida pelo presidente da Sociedade Química da Etiópia e foi este país que levou as cartas de todos os demais. Acho que isso agradou à Unesco, em paralelo ao argumento de que 2011 marcaria o centésimo aniversário do prêmio Nobel de Marie Curie, portanto, isso implicaria uma celebração às mulheres e à ciência. Em abril de 2008, a assembleia geral da Unesco concordou em apresentar o pedido à ONU e, de novo,  a Etiópia apresentou o pedido formal. A ONU aceitou por unanimidade. Assim, em 30 de setembro foi anunciado que 2011 seria o Ano Internacional da Química, organizado pela UNESCO e pela IUPAC. Em 1º de janeiro de 2009 eu já era president elect há um ano e estava entre os 5 officers  da IUPAC – o presidente, os dois vices (o elect e o que vai sair), o tesoureiro e o secretário geral –, por isso participei muito dos preparativos do Ano. Decidimos organizar três grandes eventos: a cerimônia de abertura, que aconteceria na Unesco; a assembleia geral e o congresso internacional da IUPAC em San Juan em Porto Rico e a cerimônia de encerramento em 1º de dezembro, em Bruxelas, em reconhecimento à Solvay, empresa que auxiliou muito a fundação da IUPAC. Organizamos também cafés da manhã de mulheres espalhadas pelo mundo para a cerimônia de abertura. E assim todas juntas, no mesmo momento, mas em horários diferentes, nos reunimos e falamos sobre a química uma semana antes da abertura oficial do Ano Internacional. E pequenos trechos filmados desses cafés foram então projetados nessa cerimônia na Unesco.

Quais foram as principais questões abordadas pelas mulheres?
Eu estava em um congresso na África do Sul e participei do café da manhã lá. Estava a presidente da American Society, Nancy Jakson, uma representante da Royal Society, participantes da reunião da Federação das Sociedades Químicas Africanas, que também estava ocorrendo lá… havia uma marroquina, uma líbia refugiada, uma egípcia…, foi apaixonante. Falou-se principalmente do que nos levou a trabalhar com química. Afora esses eventos, cada país organizou seu próprio Ano Internacional da Química com toda a liberdade. A França, por exemplo, não me pediu para fazer nenhuma palestra. Alguns colegas machistas têm dificuldade em aceitar que uma mulher seja presidente da IUPAC.

A senhora acha que a má reputação da química pode desaparecer?
Espero que sim, até porque em alguns países ela é mais bem vista do que em outros. Na Europa, o pior nesse sentido é a Suécia, seguida pela França. A Alemanha, onde os Verdes têm mais peso, é paradoxalmente o país em que a química é mais bem vista. No início, a química era evidentemente a alquimia e os químicos eram os feiticeiros que sabiam usar as plantas para tratar as pessoas. Depois ela passou a ser bem vista e havia até experiências públicas, aulas públicas dadas pelos químicos no Museu de História Natural etc. Inventou-se o plástico, as matérias plásticas eram vistas como formidáveis. E depois começamos a ser mal vistos, porque a “química é algo perigoso, sujo, cheira mal, polui”. Começou-se a falar de poluição e tudo foi atribuído ao incidente de Bhopal [megadesastre industrial em que 40 toneladas de gases tóxicos vazaram da fábrica de pesticidas da Union Carbide em Bhopal, Índia, na madrugada de 3 de dezembro de 1984. Mais de 500 mil pessoas foram expostas aos gases e pelo menos 27 mil morreram, o que faz deste o maior desastre industrial da história]. Na França, em particular, houve o Apelo de Paris, em que biólogos escreveram contra a química, dizendo principalmente que todo tipo de câncer era causado por moléculas químicas. Foi um pouco por isso que, em 2007, dissemos, “Chega, precisamos de um ‘ano’ para tentar explicar ao público o que é a química”. Na verdade, por que a química é tão mal vista? É sobretudo a indústria química que é atacada e é ela quem tem os recursos para se defender, porque pode pagar uma página no jornal Le Monde. Nós, os químicos acadêmicos, não temos dinheiro senão para a pesquisa. Só a indústria se defende e isso não funciona muito bem. O público lê isso e concluiu, “é evidente que eles querem nos fazer acreditar nisso” e propõe controlar a química. Mas não controla a medicina, ainda que médicos cometam erros. A química seria de todos e teria que ser controlada, enquanto a medicina é sagrada. E quando alguém diz, “foi o médico tal que salvou meu marido da infecção”, esquece que ele tomou antibióticos sintetizados por químicos.

Não há uma influência da escola nessa visão? Acho que a física é mais bem vista.
Na França, os mesmos professores, físicos, em geral, dão aulas de química e de física na escola secundária. E na química tratam principalmente de questões físico-químicas: equilíbrio, acidez, coisas muito duras que em geral desagradam aos jovens. A química é uma ciência exata, mas é também uma ciência experimental, o que mal se passa aos estudantes porque experimentar, manipular, custa caro. É justamente a beleza da química que os jovens desconhecem. Então, eles não gostam de química. O público nunca foi bem educado em química, assim, para ele existe o pH, o ácido, e o resto é indústria. Sim, fabricar plástico é negócio da indústria, mas antes os pesquisadores, quase sempre acadêmicos, encontraram as reações que depois forneceram à indústria. A química “suja” é das fábricas e a química, como ciência, é próxima da física. Como a educação é ruim, o público vê o químico como alguém que fabrica produtos artificiais, perigosos a priori, ao contrário dos produtos naturais. Mas veja, pode-se obter o açúcar de baunilha extraindo-se a baunilha das favas e colocando-a no açúcar ou, em vez disso, sintetizando o mesmo produto que está presente na baunilha  – e este é mais barato e muito mais limpo. Algumas pessoas são alérgicas à baunilha, mas não ao produto sintético, que tem um perfume bom. Explicamos que é a mesma molécula, só que na baunilha natural há um monte de outras coisas, mas as pessoas desconfiam. Ora, há substâncias naturais que fazem mal! Os venenos de cobra são naturais, o pólen que provoca alergia na primavera também. Temos que educar os jovens para que saibam que a ciência química se encontra na base de todas as indústrias. Por exemplo, os componentes elétricos dependem da química para existirem materialmente, foram os químicos que trabalharam para conceber esses materiais que dão suporte ao princípio da transmissão das ondas. A química é também análise: são os químicos que definem se as batatas contêm pesticidas e que as purificam para que o produto fique limpo. E são também eles que alertam sobre a poluição. Mas todo mundo conhece a Rhodia, por exemplo, e não sabe o nome dos prêmios Nobel de química, a não ser os do próprio país.

Será? O público conhece Marie Curie, por exemplo.
Marie Curie é uma imagem, é diferente. O público francês não conhece Yves Chauvin, o último Nobel francês de química. E há uma outra coisa importante: a questão do risco. Fala-se de riscos químicos, mas há o princípio de precaução, do qual, na França, somos grandes adeptos. O risco em geral é composto de dois fatores: a gravidade do que pode acontecer e sua frequência. Um acidente de carro, por exemplo, em geral não é grave, mas há tantos deslocamentos de carro que a probabilidade de um acidente grave entre eles é muito grande. E na França 4 mil pessoas morrem nas estradas por ano.  Já relacionado à química, há 10 anos houve um acidente em Toulouse em que 13 pessoas morreram. Demais. Mas o que significa essas 13 mortes, em 10 anos, comparativamente a 48 mil dos acidentes de carro? Para o carro não há princípio de precaução. Um acidente de química é grave, o risco é grande, mas a frequência é muito pequena. O mesmo se dá com a energia nuclear. Um acidente de avião é muito grave, mas acontecem poucos, felizmente. Assim, há menos mortes anuais em acidentes de avião do que nas estradas, porque a frequência dos primeiros é muito pequena, mas o risco de morrer é enorme. É isso que as pessoas precisam aprender: o risco químico é pequeno. E, além disso, também o público deve ser consciente e responsável. Por que colocar pesticidas quando se tem 3 vasos de plantas na sacada? Basta misturar algumas guimbas de cigarro com água e pulverizar, a nicotina mata os pulgões. Eles também podem ser tirados à mão. Então, as pessoas poluem sem necessidade. É verdade que foi a química que criou as armas químicas, não se deve mentir. Mas tudo tem dois lados, o bom e o ruim, e a indústria está fazendo progressos. Temos o procedimento Reach, Risk Evaluation Assessment of Chemical, regulamentação muito importante, válida para toda a Europa, que está sendo estudada por muitos países para uma eventual adoção. Ela diz aos industriais que, a partir do momento em que utilizarem uma dada quantidade de um produto para fabricar outras coisas, eles mesmos devem verificar se é tóxico ou não. Isso responsabiliza a indústria, que começa a pensar em encontrar uma alternativa, e o fabricante ainda pode ter lucros, tanto por redução de custos quanto pela melhoria da imagem. Os solventes, por exemplo, são um grande problema e agora os industriais estão tentando fazer química na água. É difícil, mas se conseguirem a economia será enorme. A água é mais barata e para descartar  basta purificá-la.

É a química do futuro?
Já está acontecendo! É a química sustentável, não gosto muito da palavra “verde”, porque algumas pessoas acham que é química feita a partir de substâncias vegetais.  Já estamos vivenciando este futuro.

 


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