FICÇÃO

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A eternidade em carne viva

ÁLLEX LEILLA | ED. 187 | SETEMBRO 2011

 

Elle est retrouvée!
Quoi? L’ éternité.
C’est la mer mêlée
Au soleil

Artur Rimbaud

É preciso dormir de qualquer jeito. Abandonar a grande morte dentro de outras menores; nas serras frias e vastas de Gramado ou nos recantos abertos do litoral. Quando digo litoral, penso em Cidreira. Viverei em Cidreira antes de minha morte. Mas não, não se deve pensar truncado e despensar assim. Volta o emaranhado por dentro, diminuindo o oxigênio. Tenho pouca sorte com os pensamentos, as reconstruções. Desde que mudei pra Porto Alegre, um sufocamento vem, alcança os olhos, quer desrepresar. Abrir meu peito, me comprometer. Acontece na rua, no metrô, no trabalho. Há pouco, na saída de um sebo na Rua da Praia. Olhos claros, aos milhares, me consideraram. Depois, silenciosos, seguiram seus caminhos. Ao longe e em nenhum lugar possível, vi o mar me chamando. Fervilhando debaixo do sol. Sacudi a cabeça, levemente irritada: esse mar não existe.

Desgraça de vida complicada: os cacos coloridos estão na pele, retalhando-a. Ainda ontem, estava nos braços dele, do homem a quem mais amei; havia nossas crianças, risos de almoço feliz. Súbito: a noite solitária; minhas mãos jogam terra no vazio; a fumaça dos dias divididos entre trabalho e mestrado. Perco fácil o time do vivido. Onde vivo, por quem?

Disse o alemão, especialista em Walter Benjamin, ora encantado ora desiludido com o nosso tempo: a ideia de eternidade sempre teve na morte a fonte mais forte. Além das rimas chulas, aquela pessoa estrangeira cometia tantos erros de concordância tentando aprofundar o inaprofundável. Eu poderia permanecer na sala? Me concentrar no mestrado? Procuramos respostas, explicava ele, pra compreendermos como nos transformamos em bichos esquisitos que odeiam perder. Nós, seres humanos, sobrevivemos à eternidade da seguinte forma:

Idade Antiga: conscientes da morte, que era referência e destino;

Idade Média: tementes da morte, que era purgação e circo;

Idade Moderna: desorientados da morte, que era ausência privada e assepsia;

Idade Hoje: evitando a morte, que pode ser um vazio ou um espetáculo reluzente.

Assim se traça, ele sintetizou, a linha evolutiva do pensamento ocidental. Trem-destino de todo ser vivo, a morte, enfatizou, é a eternidade em carne viva. Outro homem, baiano de Itaparica, interrompeu e declarou ser tudo aquilo grandiloquência. Apesar de vivermos num espaço de vida assombrado pela consciência da morte, deveríamos evitar discursos paranoicos, só havia uma ação possível, esclareceu, o amor.

Desgosto geral. Todos respiraram torto na sala. Um brasileiro convicto proclamava sua crença no amor-redentor. Logo, as mentes se organizaram a fim de destruir tal princípio. Ora, o amor!, isso sequer existe, é mera construção cultural, rebateu a moça de Brasília. Pior, declarou o rapaz do Paraná, é uma ilusão. O amor é ilusão, tomemos nota, trata-se de uma descoberta sem precedentes. O debate foi empobrecendo, já não estávamos na sala de mestrado: todos falavam frases extraídas da novela das oito, narcisos boiando em óleo. Percebendo o ar rarefeito, quis ver o verde, fugi.

Precisava respirar fundo, pedir aos céus coragem pra atravessar aqueles dias destituídos de sentido. Mas fui interrompida: o rebatedor do especialista em Benjamin se aproximava, fumando. Ousara contrariar o porta-voz das ruínas ocidentais e depois abandonar a sala? Conheceria ele a morte de caixão oco? Saberia o que é mão de mãe e esposa avançando quase sem avançar num punhado de flores, jogando-o no vazio? Uma morte sem recheio, sem textura. Porque os meus morreram na queda de um avião, não houve corpos, não houve qualquer elemento carne viva da morte pra encher nossos olhos d’água, cortar os círculos, encerrar.

Quis um alto-falante. Pronunciar o nome de outro homem, calado em mim, roendo. Caído. Desencontrado. Carbonizado, junto aos destroços do avião. Quem sabe de mãos dadas com as nossas crianças. Aquele-esse-este homem: caco de vidro raspando a pele a cada manhã. Vi as letras do seu nome formando labirintos desconexos. Dentro da sala, imaginei, explicavam-se certos paradoxos. Só podemos pensar na morte quando vivos, alegaria o alemão, especialista em Benjamin. Havia rimado até pedra com seta, coitado!

Gritar aquele outro nome calado em minha garganta, de forma irônica ou repressora, como a mãe pronunciava, na tenra infância, quando ele mastigava de boca aberta ou punha os cotovelos à mesa. Repreendê-lo. Expô-lo ao ridículo. Abandoná-lo. Quem sabe relembrar um jeito de contar uma piada, pedindo-lhe alegria, basta de luto, não há mais nada a ser dito, leia o poema da Bishop, assista ao filme do Angelopoulos. Tente não se matar a cada dia. Sobretudo, insista. Que a eternidade há de ser a teima em permanecer vivo, a birra de recomeçar. Recomece. Do zero. Em Gramado, Porto Alegre, Cidreira, Itaparica. Isto é morrer e não morrer. Se fizesse tal discurso, traria o baiano que ousara discutir com o especialista pro meu lado? Inventaríamos assuntos?

Meu amor da vida inteira pareceu tão perto. Sua pele tinha um tom prateado. Estava vivo, com nossas crianças. Pegou uma garrafa, pôs barquinhos de madeira. Sorriu. Sem querer, lembrei: as velas que acendi ora cheiravam a erva-cidreira, ora a jasmim. Foi suficiente pra represa minar água de novo. Às vezes, é impossível: o ontem retalha a carne. Recebi o lenço da mão dele, o homem me perguntava por que o pranto. Nos abraçamos. Eternidade veloz e rarefeita: mistura pedaços de alegria à dor amadurecida. Ninguém nos ensina, mas há saída: um abraço é continuidade invisível no tempo, todo abraço é arquivo solto na memória, como os corpos miúdos das estrelas estendendo-se – séculos de luz e ausência. Me deixei ficar no abraço do homem que ousara contestar o especialista em Benjamin. Dizia ele algo sobre permanência. A ideia de uma morte diferente das demais me veio. Preenchendo de luminosidade os intervalos entre os corpos celestes, se instalando no infinito, como queria Rimbaud, Pascal. É possível?

Conheço cada centímetro dela, não me engano: a morte é sem miolo algum. Provavelmente, é a gorda raça humana que se ilude a respeito de seus outros sentidos. Afinal, leva-se a vida inteira pra entender: é apenas esse mar ausente. Esse oco no espaço. Não traz verdade, não é capaz de orientar a nossa doce evolução. Doce evolução, eu disse? Não, não se deve pensar truncado e despensar assim. Me desfiz do abraço, estreita, sem sorte com os pensamentos. Ele sorriu, pleno. Sacudi a cabeça: estava entardecendo, deveria procurar o caminho de casa, desviar daquele mar fervilhando a um palmo. Desviar, repetir convicta: aquele mar não existe. A única eternidade possível era o gesto lento, mil vezes refeito, de virar a página a cada dia, fechar os olhos, respirar fundo, e tentar esquecer.

 

* Állex Leilla nasceu em 1971, em Bom Jesus da Lapa (BA). Formada em letras pela Universidade da Bahia, é autora de dois livros de contos Urbanos e Obscuro; dois romances, Henrique e Primavera nos ossos; da novela O sol que a chuva apagou.


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