ENTREVISTA

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Cora Marrett: Laços mais estreitos

A diretora adjunta da National Science Foundation quer ampliar a cooperação com o Brasil

FABRÍCIO MARQUES | ED. 190 | DEZEMBRO 2011

 

Cora-Marrett_-SAM-KITTNERNa abertura da FAPESP Week, simpósio realizado em Washington entre os dias 24 e 26 de outubro, a diretora adjunta da National Science Foundation (NSF) Cora Marrett fez um discurso destacando os programas de cooperação já existentes entre a NSF e a FAPESP e expressou seu desejo de que essa cooperação se amplie. “A ciência não conhece fronteiras nacionais”, pontificou a socióloga, segunda na hierarquia da agência que é uma das principais fontes de financiamento nos Estados Unidos em pesquisa básica e educação nas ciências e engenharias. Cora Marrett ocupa o cargo desde maio, quando seu nome, indicado pelo presidente norte-americano, foi confirmado pelo Senado. Mas tem uma carreira extensa na fundação, onde já desempenhou as funções de diretora interina entre junho e outubro de 2010 (antes da nomeação do atual diretor Subra Suresh), diretora-assistente de educação e recursos humanos entre 2007 e 2009; e diretora- -assistente de ciências sociais, comportamentais e econômicas de 1992 a 1997.

A NSF foi uma das promotoras da FAPESP Week, em parceria com o Wilson Center, sede do simpósio, a Ohio State University e a FAPESP. Os laços entre pesquisadores brasileiros e norte-americanos, expressos nas diversas apresentações do simpósio, impressionaram a diretora adjunta do NSF, que vê o Brasil, e São Paulo em particular, como parceiro potencial em novas iniciativas. Ela cita, por exemplo, o Programa Piloto de Intercâmbio em Pesquisa para Bolsistas de Iniciação Científica da Área de Química, em que alunos de graduação de universidades paulistas fazem estágios em instituições norte-americanas, enquanto estudantes dos Estados Unidos vêm para São Paulo. Acredita que o programa tem potencial para ser estendido a outras áreas do conhecimento. Na entrevista a seguir, ela fala dessa iniciativa e de outras parcerias recentes com a FAPESP, no âmbito dos programas Catalyzing New International Collaborations (CNIC) e International Collaboration in Chemistry (ICC), além das perspectivas no campo da pesquisa em biodiversidade:

Quais foram as suas impressões sobre a FAPESP Week e sobre as linhas de pesquisa produzidas por pesquisadores paulistas e apresentadas no simpósio em Washington?
Tive impressões muito favoráveis. Ficou claro que a Fundação teve um papel crítico na construção de uma comunidade científica vibrante. Por isso, o aniversário de 50 anos é tão significativo. Nós da NSF também ficamos interessados nas perspectivas internacionais das pesquisas que estão sendo realizadas. Não se trata apenas de pensar em São Paulo, no Brasil, mas de todo um contexto internacional envolvido. De maneira geral, achei extremamente interessante. A agenda reunia temas que iam da fotônica à biologia. E muitos dos pesquisadores brasileiros tinham contrapartes nos Estados Unidos, o que evidenciou boas interações entre a FAPESP e a National Science Foundation.

Falando nas interações entre as duas agências, a FAPESP criou uma chamada paralela ao programa Catalyzing New International Collaborations (CNIC), da NSF, para estimular colaborações entre pesquisadores e estudantes de São Paulo e dos Estados Unidos. Qual é o impacto esperado da iniciativa?
A FAPESP lançou esse programa paralelo em tempo recorde. Sabemos que leva algum tempo para colocar as coisas em funcionamento, mas a iniciativa é extremamente importante. O programa contempla atividades como visitas técnicas, workshops e coleta inicial de dados, com a expectativa de que gerem projetos de pesquisa robustos e competitivos posteriormente. O CNIC é um programa recente, que substituiu um outro programa de visitas e workshops. Tivemos uma forte demanda e o interesse do Brasil se destacou entre os outros países. Recebemos muitas propostas, que agora estão sendo avaliadas. Por isso ainda é prematuro falar sobre os benefícios para os dois países.

Em setembro passado a FAPESP começou a participar do programa International Collaboration in Chemistry (ICC) da Divisão de Química da NSF, que busca estabelecer colaborações entre cientistas norte-americanos e de outros países. Qual é o potencial, na sua avaliação, das colaborações entre os EUA e o estado de São Paulo nesse campo?
É uma área em que vemos um grande potencial para colaborações. E a ênfase em química voltada para a sustentabilidade é importante porque se trata de uma prioridade para o programa ICC. O Brasil tem investido nisso. Da mesma forma, essa vertente tem sido uma prioridade para os Estados Unidos e para a NSF em particular. Temos atividades envolvendo a sustentabilidade nos campos da ciência, das engenharias e da educação. A química sustentável é parte dessa iniciativa maior. O potencial é evidente. Ficamos surpresos de ter recebido poucas propostas. Foram apenas três propostas preliminares submetidas em setembro passado. Como acreditamos no potencial, apostamos que o interesse vai crescer nos próximos anos. O programa começou na Europa e se disseminou por diversos países. A conexão com a FAPESP é recente. Foram poucas propostas, mas outros países enfrentaram o mesmo problema. Esse é um ponto de partida. E esperamos mais propostas.

Cora Marrett na abertura da FAPESP Week, ao lado de Paulo Sotero, do Wilson Center, do embaixador Mauro Vieira e do presidente da FAPESP, Celso Lafer

Uma iniciativa conjunta mais antiga, iniciada em 2008, é o Programa Piloto de Intercâmbio em Pesquisa para Bolsistas de Iniciação Científica da Área de Química, em que alunos de graduação de universidades paulistas fazem estágios em instituições norte-americanas, enquanto estudantes dos Estados Unidos passam temporadas em São Paulo. Qual é a sua avaliação da participação do Brasil e dos Estados Unidos neste programa?
Trata-se de um programa da NSF coor-denado pela Universidade da Flórida extremamente importante para nós. Muitos dos programas que oferecemos para alunos de graduação são unidirecionais. Esse, contudo, tanto dá aos nossos estudantes a chance de ter uma expe-riência em outro país quanto traz para os Estados Unidos alunos de fora. O programa da NSF busca envolver todas as disciplinas. Creio que podemos expandir essa iniciativa para biologia, física, matemática. Já houve algo no Rio de Janeiro, com alunos de matemática dos Estados Unidos participando de uma olimpía-da, mas foi de mão única. Hoje a iniciativa conjunta envolve alunos de química, mas vemos o modelo como algo que pode se estender a outros campos de pesquisa. Fiz meus comentários, agora queria ter o retorno de vocês sobre o programa…

Os estudantes paulistas que participaram do programa fazem relatos entusiasmados da experiência, que lhes dá uma vivência internacional importante, colocando-os em contato com projetos de pesquisa avançados. Um aluno que participou do programa, Ricardo Barroso Ferreira, de 21 anos, da Unicamp, foi coautor de um artigo na revista Science. Por conta do estágio que realizou na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, ele participou de um projeto que resultou na criação de um cristal sintético tridimensional capaz de capturar emissões de dióxido de carbono – tema do artigo da Science.
Nossa experiência é semelhante. Como sabemos, faz diferença para os alunos de graduação terem uma experiência internacional. Isso é cada vez mais importante no contexto global em que a ciência opera. É importante que nossos alunos tenham uma experiência em outro país, mas é igualmente importante trazer jovens de outros países para nos ajudar a explorar questões fundamentais da ciência. É um programa de grande valor e, como disse, esperamos que seja expandido.

De que forma a experiência do Programa Biota-FAPESP pode ser útil aos cientistas norte-americanos na coleta, análise e integração de dados sobre a biodiversidade?
Isso é importante para os cientistas dos Estados Unidos por diversos motivos. O programa trata de assuntos que abordam perguntas fundamentais. A ideia de fazer um inventário abrangente da biodiversidade é fundamental para aquilo que precisamos fazer. E, para além disso, há as implicações na formulação de políticas públicas. Estamos muito interessados na ligação entre o conhecimento desenvolvido pela pesquisa e as políticas que ele pode gerar. Outro ponto é que a informação criada pelos projetos tem que ser armazenada em bancos de dados públicos. Um dos requisitos-chave estabelecidos em projetos de várias partes do mundo é perguntar como tornar disponíveis as informações geradas pelos pesquisadores, para que os dados primários coletados possam ser submetidos a análises secundárias. Por isso estamos muito interessados em saber como compilar, armazenar e acessar esses dados, para que eles sejam importantes para a ciência em geral e para os estudos da biodiversidade em particular. Temos muitas lições a extrair desse programa. Há grupos brasileiros e norte-americanos trabalhando juntos no campo da biologia ambiental, como se viu numa das apresentações da FAPESP Week sobre o Biota-FAPESP.

A FAPESP foi pioneira no Brasil no recente lançamento de um código de boas práticas da ciência. Qual a importância des–se tipo de iniciativa e qual foi o impacto da criação de códigos de regulação de condutas científicas nos Estados Unidos a partir do início dos anos 2000?
Vou começar dizendo que, sem dúvida, é algo muito importante. E há muitas razões para tentar introduzir códigos de boas práticas científicas. Mas quando perguntamos quais são as evidências e qual é o impacto real, a resposta é algo que ainda está sendo construído. A diretoria de ciências sociais, comportamentais e econômicas do NSF está trabalhando num novo programa sobre as condutas na ciência na era da informação. As novas tecnologias digitais estão transformando a prática da ciência, proporcionando novas formas para o cientista identificar e contatar parceiros para fazer colaborações e também para criar conhecimento e disseminá-lo. A partir disso, teremos como avaliar melhor como a ciência está sendo conduzida e qual é o impacto de códigos de boas práticas e outros instrumentos voltados para assegurar o comportamento ético dos cientistas. Como estamos interessados em conhecer quais são as consequências, serão muito bem-vindas informações que a FAPESP disponha sobre a experiência brasileira com códigos de boas práticas científicas. A sociedade espera que o conhecimento seja gerado num ambiente com condutas éticas de nível elevado.

O programa Small Business Innovation Research (SBIR) da NSF foi um dos inspiradores de um programa de inovação em pequenas empresas, o Pipe, da FAPESP, criado em 1997. Na experiência da NSF, qual é a capacidade de uma agência de estimular a inovação empresarial?
A pergunta é fascinante, mas não sei se sou capaz de respondê-la. O que posso afirmar é que o programa Small Business Innovation Research foi desenhado pensando nas possibilidades de trazer a inovação da ciência e das engenharias para a geração de ideias, processos e produtos, algo que vai além da concepção habitual de inovação empresarial. O programa se tornou muito popular e inspirou outros semelhantes em outras agências norte-americanas. A National Science Foundation é vista como um motor da inovação nos Estados Unidos e precisamos assegurar que seguiremos sendo capazes de dar suporte a essa ideia.


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