CIÊNCIA

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Estratégias sertanejas

Único mamífero instalado nas dunas do rio São Francisco, rabo-de-facho se agrupa para viver

MARIA GUIMARÃES | Edição 194 - Abril de 2012

Filhote de rabo-de-facho: pés grandes e cauda longa

Na caatinga junto às margens baianas do rio São Francisco o observador atento verá buracos com cerca de 15 centímetros de largura abrigados debaixo de folhas espinhudas. Um ícone do sertão, essas bromélias, as macambiras, formam bancos impenetráveis e caracterizavam o ambiente inóspito do cangaço, uma paisagem que podia se tornar proteção aos que conseguissem chamá-la de lar. É exatamente o caso ainda hoje para sertanejos de estatura muito mais diminuta, os rabos-de-facho, roedores que só vivem naquela região. O biólogo José Wellington dos Santos enfrentou os espinhos e a temperatura, que pode variar entre 15 graus Celsius (°C) à noite e 43°C no meio do dia, para entender como vivem esses pequenos mamíferos. Percebeu que famílias reunidas em boas tocas são a chave do sucesso.

“E uma boa toca é protegida por vegetação espinhosa”, define o pesquisador, atualmente pós-doutorando na Universidade Federal da Bahia (UFBA). Ele começou a estudar o rabo-de-facho (Trinomys yonenagae) ainda durante a graduação na própria UFBA, logo depois que a espécie foi descrita em 1995, classificada sob o gênero Proechimys, e continuou ao longo do mestrado na Universidade de São Paulo e do doutorado na Universidade da Califórnia em Berkeley, concluído em 2010. O primeiro artigo resultante da tese foi publicado no ano passado no Journal of Mammalogy e descreve o primeiro caso observado de grupos sociais em roedores do gênero Trinomys, muito comum nas florestas brasileiras.

Dunas do rio São Francisco, com mais vegetação nos vales

O Trinomys da caatinga tem um jeito bem diferente dos parentes, um pouco mais parecidos com ratos comuns. Com suas grandes patas traseiras, quando está com pressa o rabo-de-facho se locomove aos saltos quase como um canguru. E basta um chicoteio da longa cauda, com um tufo de pelos na ponta, para mudar a direção no meio do pulo e escapar de predadores pela agilidade. E são muitos os que os veem como refeição: gatos-do-mato, corujas, cobras, teiús e cachorros-do-mato são alguns dos que visitam as dunas especialmente em busca desse pitéu que, sem a cauda, mede por volta de 16 centímetros. A cauda é mais comprida do que o corpo, as enormes orelhas parecem fora de proporção e as patas dianteiras são bem mais curtas. Em conjunto, uma aparência típica de mamíferos que habitam desertos em outras partes do mundo. Mas, sem as adaptações fisiológicas que permitem a outros roedores viver em zonas áridas, Santos verificou que o rabo-de-facho precisa de estratégia para sobreviver.

Comunidades solidárias
Próximo à vila baiana de Ibiraba, parte do município de Barra, na margem esquerda do São Francisco, o biólogo capturou, marcou e soltou mais de 400 animais durante o doutorado. O estudo revelou que em 75% das tocas estudadas vive mais de um adulto. Alguns deles usaram temporariamente transmissores de rádio presos a coleiras, que permitiram mapear os movimentos dos animais dentro das tocas subterrâneas. Esse método mostrou que machos e fêmeas que compartilham uma toca de fato usam praticamente o mesmo espaço dentro dela, deixando claro que funcionam como um casal unido, em vez de repartir o território. Essa vida em grupos, que podem chegar a oito adultos, além dos filhotes, é rara em roedores silvestres, que não costumam se adaptar bem à situação típica de uma república de estudantes humanos, onde espaço e comida (e talvez parceiros sexuais) são bens coletivos.

Dóceis, animais se acostumam ao manuseio dos pesquisadores

Mas nas dunas, onde um mamífero não pode sobreviver sem uma toca úmida para se esconder das temperaturas tórridas do dia e frias da noite, cavar em conjunto é uma boa estratégia. “Quando um deles começa a cavar, eles entram num frenesi de escavação”, conta Santos, que estima em mais de 15 metros a extensão de alguns sistemas de túneis. Ele descobriu também que os rabos-de-facho podem visitar colônias vizinhas e contribuir para a produção de filhotes, e a cada ano alguns se mudam para grupos onde encontrem companheiros menos aparentados.

Essas tocas acabam abrigando também outros animais, como pequenos lagartos, aranhas e grilos, o que torna os rabos-de-facho importantes na manutenção do ecossistema. Os roedores também afetam a distribuição dos araçás-de-boi, arbustos da família das goiabas cujas sementes são seu alimento predileto. Em sua tese, Santos verificou que os rabos-de-facho vivem onde há abundância dessas plantas, mas não sabe quanto disso se deve à própria ação dos animais. “Eles enterram algumas sementes perto da entrada da toca, mas ainda não estudamos quantas recuperam depois”, conta. O fato é que algumas sementes germinam, aumentando por ali a densidade dessas plantas, que somam cerca de 40% da vegetação dessa zona de dunas. “A ação dos rabos-de-facho pode ter contribuído para aumentar a vegetação, fixar a areia das dunas e criar microclimas para outros animais”, sugere, indicando áreas de pesquisa ainda em aberto. Para ele, reconhecer a heterogeneidade da paisagem também é importante para planejar a conservação desse bioma: um vale pode abrigar um patrimônio genético bem diferente de outro, com os topos das dunas funcionando como barreiras parciais.

Macambira protege entrada de toca

Um aspecto curioso da caatinga é que os padrões climáticos são imprevisíveis. As chuvas chegam entre novembro e abril, mas não todos os anos. Essa irregularidade impede, do ponto de vista evolutivo, que os organismos que vivem ali concentrem funções essenciais, como a reprodução, apenas em períodos mais propícios. “Assim como acontece em animais de mata atlântica, as fêmeas de rabo-de-facho estão reprodutivamente ativas o ano todo”, explica Santos. Mas os filhotes só sobrevivem na época das chuvas, quando os araçás-de-boi explodem em frutos. O biólogo resume: “Num ambiente caótico, a estratégia é não ter estratégia”.

Artigo científico
SANTOS, J.W.A. & LACEY, E.A. Burrow sharing in the desert-adapted torch-tail spiny rat, Trinomys yonenagae. Journal of Mammalogy. 
v. 92, n. 1, p. 3-11. 2011.

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